Villa de Coary, 2 de Dezembro de 1874 - Fragmentos da Origem da Villa e da Cidade de Coari-Am

 

Villa de Coary

 

 

 


 Avenida Ruy Barbosa na década de 1920

( Primeira rua da Villa de Coary)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

VILLA DE COARY,

2 DE DEZEMBRO DE

 

1874

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Quadro "Conquista do Amazonas" 1907. Óleo sobre tela, 400 x 800 cm,  de Antônio Parreiras ( 1860 a 1937 )



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Constituição do Estado do Amazonas

Seção II

Da Cultura

Legislação Estadual: Decreto n.º 17.806, de 30/04/97

Art. 206. Constituem patrimônio cultural do Estado os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira...






APRESENTAÇÃO

A conquista da Amazônia, pela ação da etnia branco-europeia, foi uma verdadeira e, moderna odisseia, empreendida a se descobrir e a explorar uma parte do mundo, que, até o século XVI, parecia nunca ter sido vista. O encontro dos europeus com os nativos de Patchamama, a Mãe-terra (hoje as Américas), muito embora parecesse casual, já havia sido premeditado pelas antigas narrativas dos mitos e suposições pertencentes a cada civilização daquelas épocas. Ainda mais, pelas incertezas da existência de outros mundos de além-mar. Até o 12 de outubro de 1492, data da chegada do italiano Cristóvão Colombo à América do Norte, o europeu duvidava da existência de nossos mundos e sociedades. Acreditava que um abismo colossal engoliria as naves marítimas, dos que se atrevessem ir além dos limites, das costas continentais que conhecia, e, de suas mentes restritas. A Mestra-professora, amazonense, Neide Gondim, em sua obra, “A Invenção da Amazônia”, nos apresenta com melhores pesquisas e abstrações, as ideias da etnia branca sobre o pré-tempo, à viagem de Cristóvão Colombo: “Especulava-se sobre a existência do antimundo. Confirmadas, mesmo, antes de Platão, somente a Ásia (Asu, por onde sai o sol), Europa (Ereb, por onde o sol se oculta) e África (Afar, a seca, por onde o sol caminha), que os gregos chamaram Líbia. Havia a crença de que a terra era mais extensa do que o mar-oceano, como dissera Aristóteles, e os limites, eram fixos: Sídon na Fenícia e o ponto Euxino no mar Negro em direção Leste, as colunas de Hércules e o Mar Tenebroso para o Oeste, a Trácia para o Norte e Típia e Abissínia ao Sul. Ao todo, simplificando em termos geométricos, é um disco plano cujas bordas eram formadas pelo rio Oceano, que rodeava as três partes. Ainda em 1457 o mapa de Toscanelli – celebrizado por ter sido utilizado por Colón – conservava os três continentes banhados por um oceano único. O formato redondo da terra era questão há muitos resolvida pelos doutos, principalmente árabes, mas o imaginário ainda estava povoado pelas histórias de um mar tenebroso que subitamente cessava e nessa zona limítrofe habitavam monstros que engoliam as caravelas dos arrojados viajantes”. As grandes presunções bíblicas de que fenícios e hebreus tivessem cruzado os oceanos a. C. eram elaboradas às iniciais crendices, sobre as supostas “ilhas” que abrigavam as Minas do Rei Salomão. As fabulosas minas, jamais encontradas, alimentavam a imaginação e pretensão dos navegadores antigos. Mapas do tesouro e outros mitos, sobre cidades de ouro, escondidas, aos confins da Terra, faziam o homem de cinco séculos atrás delirar pela febre aquele minério e outras riquezas. As distantes terras da lendária Ofir estariam localizadas a oeste do mundo. Ofir seria o hipotético lugar onde Salomão garimpava ouro à construção do templo do Senhor em Jerusalém. Esse foi um, dos supostos motivos que impulsionou o homem europeu, sair viajando, “desembestado” pelos mares. Enquanto isso, do outro lado da bola, as civilizações nativas também imaginavam, sobre o que lhes aguardava, além grandes águas dos mares, ou dos espaços dos céus. Seus mitos antigos (vindos de seus antepassados), a cerca do retorno de seus deuses, os quais, outrora lhes ensinaram ser mais justos e humanos, alimentava a expectativa ao retorno daqueles. Erick Von Daniken (1968), famoso ufólogo dos anos sessenta, expõe em sua obra intercosmica, o mito dos povos pré-colombianos: “Os povos pré-incaicos, em suas lendas religiosas dizem que as estrelas são habitadas e que os “deuses” desciam até eles vindos das constelações Plêiades”.  Os “deuses” haviam prometido aos ancestrais, após cumprir sua missão terrestre, ir, mas retornar de suas estrelas ao futuro dos tempos. Quando os europeus começaram a explorar as terras, a oeste, na América do Sul, se depararam com aquela civilização nativa de expectadores, ao retorno de seus “deuses” estelares. Aos nativos, os espanhóis (de aparência divina aos olhos) trajados com armaduras, armados com espadas e lanças, montados em seus corcéis de guerra, e ainda por cima, chegando a grandes naves pelas águas, os fez acreditar que se tratava mesmo da volta dos deuses do passado. O aparato usado pelo europeu, naquele momento, nos mostra como se imaginava serem os supostos “deuses das estrelas”. Todas aquelas infelizes coincidências fizeram o branco entrar em choque com os nativos. O desejo do europeu, a desbravar as terras baixas daquelas civilizações, surgiu desse choque e de novas presunções, à existência de cidades douradas, escondidas pelos cursos dos “mares de água doce”. Tanto os brancos quanto os nativos eram guiados por seus mitos sociais. Os brancos acreditavam que, os rios da Amazônia, fossem prolongamentos de águas doces, dos oceanos. O gigantismo de nossas águas os fazia pensar daquele modo. Cada civilização pensava pelo mito naquele momento. O mito era a “razão” de ser à época. O ouro era um dos artefatos usados pelas etnias nativas, mas não encontrado na quantidade que os europeus imaginavam. Não demorou muito para que, o rubro do sangue nativo, manchasse o dourado daquele mineral. A ambição branca resolveu falar mais alto que a civilidade e, assim, os sangrentos massacres começaram à selva, junto, à exploração do povo e suas terras também. O branco exigia mais e mais ouro e, o nativo, não compreendia o porquê, apenas que deveria se proteger daqueles falsos deuses. Aos nativos, o ouro não passava de mais um elemento à confecção de seus artefatos e utensílios. É através da busca por aquele minério que os espanhóis dariam início às tentativas de descida, naqueles mares doces, a partir de 1538. Nos diz o historiador amazonense Márcio Souza (2009): Diogo Nunes, um mameluco português, a serviço da Espanha, vindo do Peru, chega á região de Tefé onde os Aisuari constituíam a rica província de Machiparo. O espanhol Pedro de Anzures lidera uma expedição, a descer os rios amazônicos, vindo dos Andes. “Naquele tempo o “leste” do Brasil pertencia a Portugal e o “oeste” à Espanha. Os espanhóis começariam assim, sua saga, a conquistar as terras baixas da grande floresta. Aquela 1ª expedição conta com 300 brancos e 4.000 mil índios. Os rigores da selva os obrigam a voltar. Sofrem com doenças terríveis e, fome, por desconhecerem por completo o ambiente amazônico. 143 espanhóis morrem naquela expedição, metade dos índios também. Os brancos sobreviventes findam comendo os próprios cavalos para não passar fome, os índios os cadáveres de outros índios mortos. Em fevereiro de 1541, o espanhol Gonzalo Pizarro tenta mais uma expedição a explorar a selva amazônica. Sua expedição é pouco menor que a de Anzures. 4.220 homens, sendo 4.000 índios e 220 brancos. Os cavaleiros viajavam armados e encouraçados. Há milhares de lhamas ao transporte de alimentos, 2.000 porcos e 2.000 cães de caça para atiçar sobre os índios. A expedição dura quase um ano. Muitas adversidades ocorrem igualmente à de 1538. Ocorrem mortes, doenças, conflitos e a frustração por não encontrar o que buscam: ouro e outras riquezas naturais. No dia 1º de janeiro de 1542 a expedição do espanhol Francisco de Orellana, junto ao cronista Frei Gaspar de Carvajal, chega à Amazônia. Denomina o rio que navega com seu próprio nome – rio Orellana. Foi o primeiro nome moderno ao rio Solimões. Passa pelas áreas dos municípios de Coari e Codajás ao final do mês de maio. No dia 3 de junho Orellana chega ao encontro das águas, em Manaus”. O nome daquele rio, de águas escuras como tinta, foi atribuído por ele naquele mesmo momento. No baixo Amazonas (ainda no mês de junho, dia 24), após ser atacado por bravos nativos, muda o nome do rio que recebera seu nome, ao início da expedição, a “rio das Amazonas”. Acredita ter sido atacado por “mulheres-guerreiras”. O novo nome atribuído é em alusão às amazonas gregas, as da Capadócia. Séculos depois, aquele nome batizaria a todo o Estado. Em 1560 a expedição de Pedro de Ursua, vinda do Peru, passa nas áreas dos limites territoriais entre Coari e Tefé (no remoto lugar rural de Ipixuna da futura Villa de Coary). Naquele local a tripulação eleva dom Fernando de Gusmão a príncipe do Peru. Há uma trama criminosa durante a expedição, Ursua e a amante que trazia consigo, são mortos pela espada sanguinária de Lope de Aguirre. Após isso acontecer, aclamariam dias depois, o novo príncipe. Juan Alvarez Maldonado, em 1562, seria mais um espanhol a tentar encontrar ouro e canela nas terras baixas da Amazônia.  Sua expedição vem bem provida, com bastante comida e soldados. Contudo, ocorre uma divisão durante o percurso, há muitas mortes durante o conflito.  Os que sobrevivem são capturados pelos índios.   Maldonado só conseguira retornar ao Peru em 1565... Após todas essas expedições às tentativas de se adentrar a selva, só retornariam 75 anos depois, com as novas demarcações de Portugal à Amazônia.  O quase um século, no qual a selva permaneceu, sem o branco tentar navegar por seus rios, a fez ser repensada pelo europeu em diversos aspectos. A expedição de Orellana, apesar de parecer que teve mais sucesso que as outras, também tivera seus percalços de fome, ataques de etnias nativas e de doenças. Entretanto, nos legou as primeiras nomenclaturas “brancas” aos vários rios e lugares nossos. Foi o primeiro, nessa história toda, de navegações regionais, a passar pelas áreas que, séculos mais tarde, daria origem as cidades de Coari, Tefé e Manaus e outras mais. Ainda batizou nossos grandes rios: Negro e Amazonas (hoje Solimões). Endereçar todos esses fatos à Amazônia, não significa dizer que já ostentava esse título, durante todos aqueles acontecimentos, aos últimos cinco séculos. A oficialização da grande floresta, com a tal denominação, demorou seus bons duzentos e cinquenta anos, após a primeira aportada notória do branco europeu à América, em 1492. De todas as expedições espanholas, partindo do Peru vindo ao Brasil, aos primeiros 65 anos de exploração à região, somente a de Francisco de Orellana parece ter sido a que mais teve sucesso. A expedição de Orellana e, Frei Gaspar de Carvajal, desceu o grande rio da floresta com um olhar especialmente fincado ao cenário selvagem, mas não deixaram em nenhum momento de pensar em ouro e em outras preciosidades. Aquela expedição, aos dias de hoje, foi a primeira a testemunhar os cenários remotos dos lugares onde nossa civilização se emanciparia. O que nos conta Carvajal, em suas crônicas, é o que temos, filosoficamente, como conteúdo e detalhes naturais sobre o panorama da região de Coari, há 450 anos atrás. Em todo esse percurso histórico, os nativos ancestrais ficaram como meros figurantes. A história branca os pôs como atores secundários aos acontecimentos ocorridos, a partir da vinda dos brancos. É a partir desses fundamentos que surge nossa identidade histórica.  A partir de 16 de agosto de 1639, quando Pedro Teixeira se apossa das terras do Solimões, em nome do Rei Felipe IV, nossa região começaria em frente ao município de Tefé até os limites com o Peru. É dessa oficialização geográfica que a história branca regeria os aldeamentos e, missões religiosas, ao longo dos nossos rios. Daquelas vem à gênese das cidades e lugares aos nossos dias. Uma carta régia, entre Portugal e Espanha, de 29 de novembro de 1694, determinou a divisão regional da Amazônia, aos diversos missionários europeus, atuantes na região naquele tempo.  Capuchinhos, Jesuítas, Mercedários e Carmelitas deveriam respeitar os limites estabelecidos.  Foi desse modo que finalmente os lugares de muitas cidades da região seriam definidos. Apesar disso, algumas missões ainda não haviam sido assentadas definitivamente.   É o caso da missão dos jesuítas, Nuestra Senhóra de Las Nieves (dos Yurimágua), a que daria origem à região do Município de Coari ao interior da Amazônia. Somente em 1759, após uma longa trajetória daquela outrora missão, finalmente seria assentada às áreas regionais do hoje município de Coari. Seria a antiga Aldeia denominada de Lugar de Alvelos. A 1º de maio de 1874, há mais da metade do século XIX, à antiga Freguesia de Alvelos, instalada desde 1854 no sítio dos irmãos Tomás e Antônio José pereira Guimarães, às margens do lago de Coary-Solimões, recebeu a instalação de uma Câmara municipal. A partir daquela data, a outrora Aldeia dos Yurimágua seria uma nova vila àquela região da Amazônia.  Por que aquela Freguesia foi instalada às margens daquele lago receberia também seu nome. Desde a nova denominação da antiga Freguesia, a nova Villa, no lago de Coary, ficaria conhecida apenas como: a Villa de Coary. O termo foi instalado pelo camarista Manoel Antônio Nogueira Djard. Se somados os anos posteriores, a partir da data daquele ano e século, a cidade de Coari vem sendo conhecida, por aquele vocábulo, há apenas 145 anos. Mesmo que se leia que Coari foi fundada em fevereiro de 1689, pelo padre jesuíta Samuel Fritz, ainda não possuía e nem se conhecia a moderna denominação. Naquele outro século, apenas e tão somente, a última missão religiosa fundada por Fritz foi denominada de Missão de Nuestra Senhóra de Las Nieves - ou Nossa Senhora das Neves. Aquela santa não permaneceu, aos dias atuais, como a padroeira católica e histórica da cidade de Coari. Apesar disso, Tefé e Fonte Boa, cidades também originadas de outras missões de Fritz, ficariam sendo honradas por suas padroeiras católicas, de missão e de época, até os dias atuais: Santa Tereza de Ávila e Nossa Senhora de Guadalupe. Com a elevação do Amazonas à categoria de Província, em 1850, a velha Freguesia de Alvelos ainda estava anexada ao Termo de Tefé, desde 1848 (Decreto 146 de 24 de outubro).  Por essa via de subordinação, os habitantes da antiga Alvelos possuíam suas vidas atreladas aos mandos e desmandos dos administradores de Tefé, a Villa de Ega.  Todas as decisões e questões sócio-políticas e, até culturais, eram deliberadas pela jurisdição daquela Comarca. Aos dias atuais, da antiga Villa de Coary, outrora conduzida por Tefé, ainda permanecem traços culturais e literários daquela época à história contemporânea da cidade. Um desses é a fundação do Cemitério de Santa Terezinha. Aquele foi fundado e organizado pela jurisdição tefeense. A primeira capela construída na necrópole da Villa foi por obra de Tefé. Com o tempo, veio ao chão, assim também como a primeira prefeitura. O intendente de Coari, de 1930, Alexandre Montoril, foi o que reconstruiu a atual capela do cemitério em 1935. Até hoje está de pé. O nome de Santa Terezinha é em referência a padroeira dos tefeenses: Santa Tereza de Ávila.  Em junho de 1858, década em que recebeu a denominação de Cidade de Tefé, o deputado João do Rego Dantas e outros, também propôs a denominação de Cidade Nova de Santa Terezinha a Tefé, entretanto, o projeto não foi aceito. Assim aquela alcunha findou denominando a necrópole da Villa de Coary (Anísio Jobim 1933).  Veio também de lá a determinação à mudança do local da antiga Alvelos. O novo local deu origem à cidade de hoje. Foi pela Lei de 30 de setembro de 1854, determinada pelo presidente da Província. Os primeiros prédios públicos, construídos para dá clima citadino à Villa, foram erigidos pela Comarca e jurisdição de Tefé. Esse é o começo de toda a história da Cidade de Coari.

 




Nossa Senhora das Neves, invocada ao início de fevereiro de 1689, pelo jesuíta Samuel Fritz, à primeira capela construída na Aldeia dos Yurimágua. Assim a aldeia passou a ser denominada de “Aldeia de Nuestra Senhóra de las Nieves dos Yurimágua”.




INTRODUÇÃO

O longo percurso da história de fundação e, de formação, percorrido à outrora Villa de Coary, precisa ser resgatado ao seu povo atual e futuras gerações. Todavia não é tarefa das mais fáceis. Primeiro, por que os dados históricos são escassos, segundo, por que o próprio ato da escrita se torna tarefa endereçada a poucos leitores. O acaso do passado não está entre os alvitres de consumo à atualidade, ficou fora de moda. No entanto, são os estrangeiros, os primeiros a descobrir, pela singeleza das letras, a história da curiosa cidade de Coari, cravada em meio à selva amazônica, à margem direita do rio Solimões. Nós, em grande maioria, tivemos sempre incipiente acervo, ou quase nenhum, a constituição de nosso “olhar científico”.  Digo, aos “estrangeiros”, por que são mais preparados às coisas e fatos amazônicos, tanto de época quanto da atualidade, muito mais que nós. Pouco nos ensinaram e pouco nos restou do passado que compôs nossa história. Mas há sempre algum fragmento que nos faça olhar, por uma pequena fenda, ao tempo, e assim entender o que houve lá atrás, em nossa história e trajetória. Mas por que se resgatar memórias? Difícil viver o futuro sem entender o passado.  Coari é um dos municípios mais populosos do Estado do Amazonas, pouco mais de 90 mil habitantes compõem seu cenário demográfico. De Manaus à localidade são cerca de 363 quilômetros em linha reta. A história acontece e permanece quando nos inteiramos dela a reescrever nossas caminhadas: sociais, coletivas e individuais. Também, quando nos servimos da mesma a fins de construção de conhecimento, memórias e identidades. Ao procurarmos os dados que nos sirvam à revisão ou, à produção social, e não os encontramos, corremos então o sério risco de perdermos nossa analogia universal. À produção literária a essa sintética “invenção”, algumas outras foram consultadas, lidas e apreciadas. Algumas, por que há poucas, fora todas essas há vários fragmentos que, contam e recontam um pequeno trecho do andamento da Villa de Coary, ao hoje. As obras dos escritores regionais, Anísio Jobim e Francisco de Vasconcelos, são dois grandes marcos literários a nos fazer reconhecer a localidade de Coari no passado. Jobim não era coariense, veio do Nordeste como juiz de Direito ao Amazonas. Vasconcelos nasceu em Coari, é um dos raros escritores ao cenário do município.  Na era de nossos antepassados não havia escrita, mas leitura sempre houve: do mundo, das coisas e da vida. Nas antigas tabas, guardadas pelo tempo, no meio da selva, os mais jovens se dispunham a ouvir os ensinamentos dos mais velhos. Através da audição apenas, o conhecimento era decodificado. Os velhos eram assim mais respeitados por que eram ouvidos. Não havia escritas nem letras a serem lidas, mas a face e, o articular lingüístico dos idosos nativos, servia como leitura de vida e sabedoria. A essa obra, a voz de antigos coarienses, também, fez valer a pena a pesquisa de resgate memorial à cidade. Seu Elias Ferreira Neto, Fausto Monteiro ( In Memorian ), Adolfina Menezes Monteiro, Ary Dantas Alfaia ( In Memorian ), Raimundo Martins ( In Memorian ) e, a Dona Beta (de Chagas Aguiar) se fizeram voz e texto do passado ao presente a que se pudesse ler em suas faces - a Villa de Coary, a do início do século XX. Todos aqueles habitantes tradicionais da cidade que outrora fora a Villa. Nunca mais serão esquecidos pelas Letras. Serão imortais,  por cada minuto e hora, em seus testemunhos à história, ao ano de 2004. Os historiadores são os grandes agentes e cientistas, a reorganização e apresentação dos fatos, de nossas existências e permanência social. Têm grandes responsabilidades a nos apresentar uma teoria, tese, ordem e produção cultural, do que é resgatado ao futuro, vindo do passado. Em países como o Brasil, onde os grandes anseios sociais do capitalismo ecoam como aniquilação ao antigo e o decorrido, a função da história ganha mais um desafio – a restauração daquilo que será aniquilado. O historiador ( peqisador ) tem o grande papel de "mostrar" o que “ocorre” e o que “ocorreu”, duas vezes a mais. Ainda há um alto índice de analfabetismo no país, isso é outra tarefa a ser cumprida pela nação – a erradicação. Sozinha, a história não será validada ao coletivo. Se não se formar mais leitores, mais sujeitos apreciadores das letras, estimulados a ler, conhecer e saber, de verdade, nosso patrimônio cultural correrá sérios riscos ao esquecimento.  De nada adiantará os mais pesados inventos digitais se não haver leitores práticos. De qualquer modo, mesmo sem a leitura técnica de sinais gráficos, as narrativas da oralidade também auxiliam a contenção de idéias, fatos e histórias. Assim como à violência, o país parece também perder a batalha ao amparo de suas raízes e, a lembranças sociais. À Amazônia, onde o próprio ambiente se torna um eterno museu natural, a história e memória pedem passagem e socorro. Nós, seus tradicionais habitantes, a conhecemos pouco, por isso pouco a vivemos. Nossas cidades, etnias, meio-ambiente, biodiversidade tudo é ainda um misterioso assunto aos anseios de poucos. Vivemos, nascemos, crescemos e produzimos nossa cultura, porém, não temos o domínio da história pregressa à floresta. Conhecer o mundo verde que nos cerca ainda é uma grande provocação, de sua história secular nem se fala.   Se tudo isso ainda nos falta é porque temos muito a ler, aprender, conhecer, pesquisar e, finalmente, assim sendo, nos considerar verdadeiramente amazônidas.  O sisudo historiador, João Mendes de Almeida, citado na obra de Anísio Jobim, de 1933, já tinha dito: “O povo que não possuir uma história verdadeira pela insuficiência dos seus meios e pela desordem de seus arquivos, é uma nação sem gênese, e, portanto, desclassificada no mundo civilizado”. Mendes nasceu no século passado. Escrever é um ato de cidadania, ao contexto real do vocábulo, sem acrescimento de ideologias (sem cartão magnético de comprovação) sobre o que realmente seja ser cidadão. E quando se escreve, contando uma história coletiva, a um grande coletivo, há o anseio de que a história seja sempre lembrada e recontada. Muito mais que narrar fatos, apresentar hipóteses e mostrar uma realidade, o ato de escrever em si já denota a vontade de que, o objeto delineado, seja sempre alvo do olhar e da leitura social. Ou pelo menos, do olhar dos que venham a pesquisar e, a encontrar um fio literário de idéias a respeito “daquele” objeto. Um único fragmento é o suficiente pra se contar uma história, todavia se vários estiverem a mão a história ficará mais rica e interessante. Aqui estão alguns fragmentos que elucidarão aos leitores, sobre a gênese inicial e final da outrora Villa de Coary, a que origem a atual e inovadora Cidade. À atualidade o lugar se tornou um cenário pujante, pulsante, modernizado, mas também excludente. Ao se buscar seus cenários de origem, pouco se acha, mas as vias ainda existem. Por essas se deve caminhar e, explorar, com o olhar ao ontem, de acordo com a nova configuração que a converteu. De uma clássica Villa a um contexto cercado de detalhes, revisadores das realidades, que o passado nos escreveu. Vale à pena ler e entender como se formou a Coari de hoje e, por que a fizeram chegar aonde foi. Muito mais, vale a pena entender o processo de modernização que à mesma foi desencadeado, há mais de 85 anos atrás.

 

 

1874



Ponte de madeira, de 102 metros de comprimento por 3 de largura, sobre o Igarapé de São Pedro, foi batizada de Herbert de Azevedo em 1927 . Foi construída na Villa de Coary pelo Coronel Augusto Celso de Meneses em 1896. * foto da obra de Anísio Jobim (1933).



A VILLA DE COARY

 

... Alvelos é elevada à categoria de Villa com a denominação do lago onde foi localizado, Coary. Pela Lei de nº 237, de 1º de Maio de 1874. A instalação da Câmara municipal e da Villa foi realizada somente a 2 de dezembro. A partir de então, passaria a ser chamado de Villa de Coari.



O Decreto exposto, no texto acima, demonstra, desde quando o lugarejo instalado dentro da baia do lago de Coary seria elevado à categoria de Villa. Foi Domingos Monteiro Peixoto, segundo presidente da Província do Amazonas, o que decretou a nova condição ao Lugar de Alvelos naquele momento. Quando a Câmara da nova Villa foi instalada na cidade, no dia 2 de dezembro daquela década de 1800, Além do camarista Manoel Antônio Djard Nogueira estavam também presentes, a assinar a Ata, os seguintes vereadores: Balbino José Pereira Guimarães, José Domingos Soriano Alves da Silva, Manoel Valente do Couto, Benedito dos Santos Guimarães e Pedro Maciel Damasceno. Estes seriam os legisladores a Villa daquela década. Ês parte do conteúdo da ata, da obra de Gaspar Guimarães, exporta em 1900:



Sessão extraordinária de inauguração da Villa e da Câmara Municipal de Coary. Presidência do senhor Manoel Antônio Djard Nogueira. Aos dois dias do mês de dezembro do ano de nascimento do nosso Senhor Jesus Cristo, de mil e oitocentos e setenta e quatro, presente o Sr. Presidente e os vereadores Balbino José Pereira Guimarães, José Domingos Soriano Alves da Silva, Manoel Valente do Couto, Benedito dos Santos Guimarães e Pedro Maciel Damasceno, depois de haverem assistido na igreja matriz ao Te-Derum pela inauguração da Villa e da instalação da Câmara Municipal desta villa, criada por Lei provincial nº 287, de 1º de maio de 1874, o senhor presidente declarou aberta a presente sessão extraordinária... 



Em 1874 o país estava envolto em seu segundo reinado, sobre a regência de D. Pedro II.  Desde 1822 quando seu pai, D. Pedro I, proclamou a independência brasileira, o Lugar de Alvelos começava a ser remanejado ao local onde a Villa se instalaria para sempre. Em 1759, com a criação da Capitania de São José do Rio Negro (hoje Manaus), o antigo aldeamento itinerante dos Yurimágua, fundado no começo de fevereiro de 1689, pelo jesuíta Samuel Fritz, receberia o nome de “Lugar de Alvelos” sob a invocação de Nossa Senhora de Sant’ Ana. A antiga imagem da santa, à remota aldeia dos Yurimágua, Nuestra Senhóra de Las Nieves (ou Nossa Senhora das Neves), posta à capela que Fritz construiu com os nativos, não ficou sendo mais a padroeira daquela aldeia. A nova denominação, de origem portuguesa, emancipava, permanentemente, o domínio lusitano sobre a região.  Em 1833, mais de dez anos após a proclamação da independência do Brasil, o governo do Pará redenominou Alvelos com o nome de Freguesia de Nossa Senhora de Sant’ Ana. Quando Tefé se tornou a grande capital do Solimões, ao século XIX (1848), Alvelos retornou a ser “Alvelos”, de novo. Depois que o Amazonas se tornou província, em 1850, a Freguesia de Alvelos seria relocada, dentro do mesmo município onde estava situada. Foi apontada à foz do lago de Coary para que, a partir de 1854, fosse ali instalada. Mas isso não foi possível, pois dificultaria a navegação na vazante. Por isso foi situada mais adentro do lago, à sede do sítio dos irmãos Tomás e Antônio José Pereira Guimarães. Esses foram os antigos poceiros daquele local de villa. Em 1861 o vigário Luiz Gonçalves de Azevedo construiu a primeira capela a Sant’ Ana na Villa de Coary. Mesmo com todos esses fatos acontecendo, após a localização do novo lugar, Tefé continuaria regendo a história daquela localidade. Desde 1708 os portugueses haviam tomado posse das terras amazônicas, de uma vez por todas, expulsando os outros estrangeiros. 13 anos se passaram até aquele vigário ter construído a primeira capela, demarcando a área do novo lugarejo às margens daquele lago. O nome daquela baia tinha como significado em nheengatu: “uma pequena passagem” (furinho). Assim tem-se a definição:

Octaviano Mello narra em sua obra que o ilustre Cônego Ulisses Penafort, no seu precioso livro “Brasil Pré-Histórico”, que a palavra coari ou huari significa = rio de ouro, e que o nome pode ter se originado no “quíchua” – coya, cory – rio de ouro ou de huary-yu, rio dos deuses. *Mello. Entretanto, ao dialeto peruano, quíchua, huari é o nome de uma cidade andina encontrada perto do lago Titicaca.*Marriot 






      Lago de Coari-Am em 2004. O nome do lago foi doado a cidade.



Ao hoje a palavra coari, mais que atribuída ao nome de um lago, significa: uma “próspera e complexa cidade”, localizada na parte central da Amazônia ocidental. O século XIX ao Brasil foi à época de grandes revoluções sociais e populares. Em todas as regiões explodiram revoltas e manifestações, em prol das melhorias da pobre e desassistida população da nação: balaiada, sabinada, guerra dos farrapos, cabanagem (a cabanagem foi nosso grande movimento popular). Sem todas aquelas revoluções o país poderia está bem pior do que o é.  Em 1884, o Amazonas libertou todos os seus escravos. O que ocorreu ao restante do país somente em 1888. Foi naquele clima que os lugarejos distantes foram se emancipando e tomando forma de villas ao país. E tão logo, se tornariam as atuais cidades, em todo o território. A Villa de Coary, particularmente, teve que esperar cerca de 50 anos, após o 1874, a assegurar sua desejada identidade de independência política e social. De 1854 a 1925 seria administrada pelo coronelismo regional. Tenentes, majores e coronéis conduziriam os destinos da localidade. Gaudêncio Euclides Soares Ribeiro (o Coronel Gaudêncio), foi o primeiro a assumir as rédeas curtas do Lugar de Alvelos, depois vários outros seriam destacados por Tefé. Somente em 1898, um coronel, nascido na própria Villa, assumiria o poder: Maurício José Ferreira (o Coronel Maurício).  Em 1896 a velha Villa estaria sobre a tutela do Coronel Augusto Celso de Meneses. Este tratou de aplicar à face do lugarejo, um cenário primoroso, que a fizesse jus àquela época de fausto. Eram tempos afortunados ao Amazonas, muitos haviam enriquecido com a exploração da goma da borracha dos Omágua (mas apresentada ao mundo por Chales Marie de La Condamine em meados do século XVII). Em Manaus, se vivia o glamour e a opulência, fundados pela engenhosidade do solitário e misterioso Governador maranhense, Eduardo Gonçalves Ribeiro. O fabuloso Teatro Amazonas estava sendo inaugurado no Centro daquela Capital ao mundo ver. Por isso o Coronel Augusto Celso arrumou a face de sua lírica Villa. Tudo feito a muito capricho, às margens do rio Solimões. Manaus ditava as modas. A “primeira cara” da Villa foi definida, qualificada e projetada por Coronel Augusto. Fez também um trabalho de arborização, em toda orla do lugarejo, da Rua Ruy Barbosa ao início da Independência. Essas árvores chegaram algumas aos nossos dias. Melhorou o porto de embarque e desembarque aos Vapores que faziam linha pelo Solimões e passavam pelo porto do Igarapé de São Pedro. O porto foi instalado próximo ao final da ponte, à Rua Ruy Barbosa. As melhores casas da cidade foram ali construídas. Entre elas, o asseado sobrado, de dois andares, do Major Deolindo Dantas (existe até hoje). A ponte, construída sobre o igarapé de São Pedro, se tornou o ponto mais freqüentado da localidade naquela época. À noite, 40 lampiões acesos a querosene, iluminavam toda a orla da Villa de Coary, dando assim uma atmosfera inovadora aos olhares dos que passavam pelo rio. Aos finais de tarde, a elite se fazia presente, aguardando a chegada de algum Vapor, de subida ou baixada de rio, passeando por aquela ilharga que à atualidade seriam: Praças Getúlio Vargas e Rua Ruy Barbosa.  Aquele local, com elegantes intervenções, deu-se o nome naquele tempo de Praça Coronel Gaudêncio Euclides Ribeiro Soares. A única, no interior do Estado, tendo uma apurada ponte interligando seus extremos. Antes dessa denominação, segundo Anísio Jobim, a principal Praça de Coary era chamada de Praça 1º de Maio (referência ao dia da elevação da Villa). Em 1910, à primeira década do século XX, Manoel Marques de Souza foi eleito superintende do lugarejo (o dito Coronel Marques). Este foi o dirigente da Villa que findou vendo o final do fausto da borracha no Amazonas, ou melhor, “viu os navios partindo” (ou ficou a ver navios).  A bele epoque, vivida ao passeio da “bela ponte” de madeira, sobre o igarapé da frente da Villa de Coary, comentando as evoluções urbanas de Manaus, começava a ser modificada. Faltava até querosene para ascender os líricos lampiões à noite. A decadência da borracha “movia” também o cenário econômico do interior do Estado. Os que viram o glamour do Teatro Amazonas, começaram agora a ver a Capital sendo esvaziada, pouco a pouco. E a pacata Villa, assim como em muitos lugares do interior, também sentia e ouvia falar do desgaste econômico que se amargava em toda região amazônica. Os futuros administradores daquele lugarejo a teriam que gerir, a pouca verba, endereçada à manutenção do serviço público e despesas com funcionários. Logo explodiria a primeira guerra mundial e, o pior, em questões administrativas, ainda estaria por vir. A Villa de Coary vivenciava cada época daqueles acontecimentos, ao iniciar do século XX. Em 14 de fevereiro de 1926, após a reforma Constitucional do país, o escritor Péricles de Moraes foi nomeado prefeito. A era dos coronéis, majores e tenentes parecia ter chegado mesmo ao fim. Durante a gestão de Péricles, ocorre no município um dos mais marcantes naufrágios da região amazônica. O Vapor Paes de Carvalho, passando em frente à localidade do Camará, se incendeia, explode e afunda. Muitos morreram, outros muitos conseguiram se salvar. Havia cerca de 150 pessoas a bordo daquele elegante barco. O ocorrido parecia ser uma espécie de nova tragédia do “Titanic” à Amazônia. A Villa entraria em um luto político-social pelos coarienses e os outros passageiros mortos.  A administração de Péricles de Moraes foi curta. Por razão ainda não conhecida, em 1927, no dia 12 de janeiro, Herbert Lessa de Azevedo deixava a prefeitura de Parintins e chegaria a Villa de Coary a ser seu novo prefeito. Péricles assumiria a prefeitura da Ilha Tupinambarana (houve uma espécie de troca). A presença de Herbert, na Villa de Coary, marcaria a história do lugarejo ao futuro regional. Após seus quase primeiros seis meses de serviço, no dia 23 de junho de 1927, sofre um violento atentado dentro da prefeitura, vindo a falecer posteriormente. A imprensa da época fez um grande barulho no Amazonas assim como em outras Capitais do Brasil, por sua morte prematura. Era filho de um escritor e, cronista consagrado à literatura brasileira, Raul de Azevedo. Seu pai fazia parte do alto escalão do Governo do Estado. Também era um escritor colaborador de vários jornais do país. Para investigar, caçar e prender os assassinos do prefeito da Villa de Coary foi destacado o Capitão Alexandre Montoril, com grande guarnição policial. Os assassinos são presos, julgados e condenados. Montoril seria então o próximo prefeito da localidade. Desse modo, o lugarejo começaria a viver seus últimos momentos de Villa. Anos depois, Montoril ficaria como prefeito. Por mais de 20 anos permaneceria no poder do município. Em 1930, começaria o período revolucionário, a era de Getúlio Vargas ao poder do país. Em dois de agosto de 1932, após uma trajetória de mais de setenta anos, a Villa de Coary deixaria de ser um lugarejo pacato, às margens do rio Solimões, a se tornar a Cidade de Coari...




Foto da Villa de Coary de 1867 de Albert Frisch. A rua Ruy Barbosa estava sendo formada. Era época da vazante do rio Solimões.

 



O RIO SOLIMÕES DOS YORIMÃ

Solimões é a denominação dada ao rio Amazonas por praticamente todo o percurso de seu leito dentro do Estado. Até o final do século XVII, o rio Solimões, assim como todo seu percurso, que corta o Estado do Amazonas, de oeste a leste, era chamado apenas de rio Amazonas. E antes de ser “Amazonas”, o navegador espanhol, no século XVI, Francisco de Orellana (1542), o chamou de rio Orellana. O escritor João Nogueira da Mata (1969) em sua obra “Águas Lendárias” nos apresenta o gigante líquido com seus imponentes aspectos hidrográficos, de extensão e profundidade, sobre a bacia amazônica e sobre seu relevo cujo envolve muitos números, os quais o tornam soberano ao mundo todo. Assim Nogueira nos diz:

O maior rio do mundo, em volume d’agua, envolve também dimensões extraordinárias: 3.165.000 km², só em território brasileiro. Mede em Tabatinga-Am, quase 3 quilômetros de largura e mais de 4 km em certos trechos do Solimões. Consoantes estudos feitos, a profundidade do Amazonas aumenta à proporção que o mesmo se aproxima da foz. Em Tabatinga o leito está a 20 metros, em média, enquanto no Solimões varia entre 50 a 60 metros. Nas ribas de Òbdos-Pa, atinge a 130 mts. Ês os afluentes pela margem direita: Javari, Jutaí, Juruá, Purus, Tefé, Catuá, Coari, Mamiá e Madeira. Pela margem esquerda: Iça (Putumayo), Tonantins, Japurá (Caquetá), Negro, Atumã e Nhamundá.

Anísio Jobim, raro amazonólogo que se aventurou a escrever sobre o município de Coari-Am, no início da década de 1930, diz em seu “Coary - Panoramas Amazônicos” (de única e singular edição de 1933):

O nome desse rio teria advindo, segundo La Condamine, do veneno “solimão” que os índios fabricavam, e com o qual hervavam as pontas de suas flechas.

Contudo, Antônio Porro (1996), especialista em etino-história (USP), nos elucida em sua obra “O Povo das Águas” a questão do nome do veneno, ao rio. A denominação ao rio de águas amareladas nos remete à visão sobre sua extensão e magnitude:

Solimões, tem como significado para alguns autores, rio dos venenos, nada mais é que uma curiosa convergência lingüística: solimão, do latim Sublimatum, era o nome popular do sublimato corrosivo (bicloreto de mercúrio) ou “qualquer porção venenosa ou letífera” que os eruditos do século XVIII associaram as flechas envenenadas de algumas tribos do rio Amazonas.

Foi somente a partir de 1670 que esse mesmo rio foi explorado pelos portugueses os quais visavam à colonização da área. Entretanto, no início dos anos 40 (de 1500), o espanhol Orellana passou pela região, com sua expedição. Nas crônicas do escrivão, frei Gaspar de Carvajal, encontra-se um dos mais antigos registros sobre nossa região coariense naquele século. É na referência de Antônio Porro que também temos um trecho da narrativa onde situa o cenário étnico, daquele momento aos dias de hoje:

A mais conhecida e belicosa nação de todo o rio Amazonas (hoje Solimões), que atemorizava a esquadra portuguesa em sua primeira entrada, e que é a de Yoriman, aparece em meados do século XVII com os nomes de Culiman em Rojas, Yoriman em Acuña, Joriman em Laureano de La Cruz e Sorimães em Heriartes. A última forma, em sua corruptela Solimões, iria se fixar no português a partir do final do século, inclusive para se designar o curso do Amazonas acima do rio Negro. Em 1542, Gaspar de Carvajal, o cronista da expedição de Orellana, havia descrito uma província que coincidia geograficamente com o território dos Yoriman seiscentistas: começa a oeste duas léguas acima do rio Coari “um povoado a maneira de guarnição, não muito grande, no alto sobre o rio”, de onde partiam “muitos caminhos que entravam pela terra adentro mui reais”. Abaixo do Coari havia “de um e outro lado [do rio], muitos e mui grande povoados e terra mui linda e frutífera”. Na região de Codajás sobre um barranco alto, erguia-se a principal aldeia da província, a que os espanhóis batizaram “da louça”, pela grande quantidade de belíssima cerâmica policrômica que nela se fazia (...). A província terminava a cima da foz do Purus. A localização geográfica é o único elemento positivo de que dispomos para associar essa província quinhentista aos Yoriman historicamente conhecidos a partir de 1639.  Carvajal lhes deu o nome de Oniguayal, Omagucy e finalmente, Omágua.

À verdade lingüística estamos pronunciando uma articulação que, destoou do vocábulo original, ao nome do rio, o qual deveria ser dito de verdade e sem equívoco literário - rio Yoriman (ou melhor, yorimã). Foi o resultado do articular das línguas estrangeiras, dos navegadores brancos, que causaria o equivoco. Enquanto isso, Porro ainda nos remonta ao momento fatídico do contato da etnia branca com a possível e, primordial, etnia amazônica. A que habitava as áreas da região remota dos municípios de Coari e de Codajás, os Yorimâ e/ou Omágua. Então, antes de ser o rio Solimões todo o percurso fluvial que vem lá de cima, do município de Tabatinga-Am (da tríplice-fronteria), era apenas e tão somente chamado de Amazonas. E antes de ser Amazonas, outras hipóteses são atribuídas à denominação do rio como uma homenagem ao rei hebreu, Salomão. Antes de Cristo, fenícios e hebreus teriam vindo à Amazônia a buscar ouro e outras preciosidades à construção do Templo do Senhor em Jerusalém. Os nativos teriam posto o nome do rei no rio a homenageá-lo. E assim temos o rio Solimões, de Salomão. As hipóteses de como o vocábulo solimões findou denominando ao  rio instigam a imaginação de qualquer um. Os fatos lendários e mitológicos constituem o preconceito (senso comum), absorvido pelo mundo amazônico, como modo ou forma de se apresentar a origem do rio ou, de seu batismo hidrográfico. A reza científica, forjada pela observação, experimentação e também pelo contato de campo, expõe a origem pré-histórica dos rios caudalosos da grande floresta, pelo degelo natural das camadas de neve dos picos, na montanhosa Cordilheira dos Andes - situada no Peru e Colômbia. Nogueira nos revela o momento dessa descoberta:

A primeira revelação sobre a origem do rio Amazonas, de que se tem notícia - no lago de Lauricocha, Departamento de Ancash, na República do Peru, data do século XVI (1535). É atribuída (quase cento e cinqüenta anos depois de Orellana) aos padres jesuítas Samuel Fritz e Richler, em circunstâncias singulares. Estes, foram presos pelos portugueses ao longo do Solimões, como espiões do reino de Castela (Espanha), foram, pouco depois, restituídos à liberdade. De torna-viagem, subindo o grande caldal, penetraram na região andina e ali – ainda preocupados com a expansão da pátria, deram com o supracitado lago.

A Cordilheira é muito extensa, cobre toda a costa-oeste de toda a América do Sul como se fosse uma grande muralha de proteção (por isso lhe é dito - “o telhado do mundo”, e por que goteja também). A chegada de Fritz na região (séc. XVI), praticamente todos os outros rios de denominações etino-regional, já se chamavam como o são hoje: Juruá, Japurá, Coari, Jutai, mas o Solimões só assim o é denominado ao início do século XIX. Vindo do alto da cordilheira, antes de passar por dentro do Estado do Amazonas, é denominado de Marañon. Somente quando passa por dentro de nosso território amazonense, recebe o nome da antiga etnia guerreira da região (supostamente) “do município de Coari” - a dos Yorimã. Quando se encontra com o Negro, em Manaus (no famoso encontro das águas), o Solimões é eternizado com a denominação clássica (a que Orellana lhe empregou há 450 anos): Amazonas.  Muitos outros rios deságuam no Solimões o fazendo se tornar um rio-rei. O rio Japurá, conhecido também de Yapurá (e de Caquetá na Colômbia), nasce no Planalto de Burcy, naquele país, desaguando no Solimões próximo a cidade de Tefé (a oeste de Manaus). Nesse momento, naquele remoto local, ocorre um “encontro das águas” semelhante ou, até mais bonito, ao da Capital do Estado. Antes do Marañon descer  às áreas brasileiras recebe a influência de vários outros rios andinos: Napo, Ucaially e do Putumayo. É um mundo de águas que, há milênios, vem atravessando toda a floresta em direção ao mar. Nogueira ainda demonstra a mutação de nomenclaturas fluviais, ao curso hidrográfico, pois mesmo estando dentro do mesmo país e do mesmo Estado, receberia denominação dupla. Enquanto isso possui uma única designação dentro do país vizinho, aonde nasce:

Cada tributário do Amazonas representa não somente uma bacia de extenso rio, mas ainda um regime próprio, com características indeléveis, resultantes de funções topográficas peculiares, com águas claras e escuras (...). O soberano dos rios possui três denominações: é Marañon até Tabatinga-Am; é Solimões entre Tabatinga e a foz do rio Negro; e é Amazonas da foz do rio Negro em diante, até se despejar no Atlântico. Em qualquer desses trechos, assim denominados pelos geógrafos, tem indiscutível valor, quer no ponto de vista histórico, quer no ponto de vista geográfico.

É a regra natural da hidrografia aos rios - correr para o mar. Passando por dentro do Estado, já com o nome de Solimões, começa a receber afluência de vários outros rios menores: do Içá, do Javari, do Jutaí, do Juruá, do Purus e etc. O rio é uma entidade natural no cenário da selva. É assim que a vida de um depende do outro. A selva é outra entidade ecológica de inquietos ecossistemas.  As cidades ribeirinhas que outrora se emancipariam as margens: esquerda e direita do Solimões foram lugares improváveis de terem surgido.  As distâncias e dimensões geográficas, o cenário de selva fechada, o regime natural (do sobe e desce dos rios) das águas, e vários sucos de rios cortando a selva de todos os lados eram os grandes obstáculos. Coari e Tefé, municípios com suas cidades sedes, relativamente “próximas” uma da outra, tornaram-se lugares que serviam de porto à partida e espera aos quem vinham lá dos altos do Içá e do Japurá (até hoje). As duas cidades se desenvolveriam as margens de grandes lagos (baias) os quais doaram seus nomes aos lugares (vilas) instalados em seus territórios, pelo homem branco dos séculos XVII e XX. Sendo “vizinhos”, os municípios de Coari e Tefé sempre estiveram a se “cortejar” e a “celebrar” seus espaços territoriais, por seus habitantes e suas histórias de fundação.  Praticamente, “as mesmas” etnias que se “originaram” nessas áreas, configuram a ancestralidade histórica, tanto a uma cidade quanto a outra. O venerável amazonólogo, Anísio Jobim, como juiz, também auxiliou aos coarienses à preservação dos limites territoriais nas divisas com o município de Tefé. Na obra de 1984, do professor Augusto Cabrolié de Souza - do município de Tefé (Síntese da História de Tefé), nos oferece amostra de um documento (cópia de ofício) que os representantes legais de Coari, à época, enviaram a Anísio Jobim (juiz daquela Comarca) em 15 de outubro de 1917. O ato era em agradecimento ao mesmo, por ter pleiteado a organização e definição dos limites e fronteiras regionais, entre os territórios daqueles municípios. O documento pertence aos arquivos histórico-documentais do município de Tefé-Am. Cabrolié apenas transfigurou o conteúdo a sua obra, mas não expôs nenhuma fotografia ou qualquer outra forma de ilustração do histórico ofício. Aqui, apenas apresento o texto da obra daquele célebre professor cujo estimou o resgate de memórias as coisas de sua cidade e região amazônica:



Of. N° 85

Exmo. Sr:

Dr. Manoel Anísio Jobim

Juiz de Direito da Comarca

                         Temos a honra de comunicar a V. Exª.  que em sessão de hoje desta intendência por proposta do intendente Francisco Areal Souto, foi inserido na ATA um voto de louvor a V. Exª pela vitória alcançada na questão de limites deste Município de Coary com o de Teffé. O empenho, com o concurso moral e intelectual que prestou V. Exª a esta terra, é um dos feitos mais grandiosos para a história deste Município.

Aproveitando o ensejo para apresentarmos a V. Exª a nossa elevada estima, profundo respeito e súbita consideração.

Saudamos V. Exª.

(aa) Luiz Alfredo Dantas, Marcelino Costa Miranda, José Azulay, Francisco do Areal Souto e Argentino Meireles de Souza

Coary, 15 de outubro de 1917.

Atualmente, os habitantes desses dois lugares “possuem” o mesmo gene dos muitos ancestrais étnicos. Os ancestrais nativos e, os branco-europeus, miscigenaram-se num longo processo histórico. Quando finalmente aquelas cidades se emanciparam, ao século XX, já havia uma população cabocla provinda da miscigenação das raças, de outras pessoas vindas de vários lugares do mundo.  Norte-americanos, indo-europeus e árabes casar-se-iam e miscigenar-se-iam com as mulheres da floresta. Foi desse abraço sócio-cultural que a maioria de nós proveria. Vieram aventurar-se outros elementos humanos (os do lado da região nordeste do país), em busca da ilusão do fausto e “riqueza” da borracha (látex). E assim, uniram-se também as caboclas e mulheres-índias da Amazônia. A toda floresta, que margeia o curso do gigantesco Amazonas, deu-se o nome de Amazônia. Respeitou-se a denominação atribuída por Orellana em 1542. Amazônia vem do vocábulo “amazós” (as que montam), por sua vez, somado ao sufixo “nia” (área/território) tem-se: zona da amazona, ou das amazonas.  Aos “habitantes” dessa floresta: índio, branco e caboclo chama-se de: amazônidas. Grande maioria dos habitantes, no Estado do Amazonas, também, possui descendência de algum dos milhares daqueles nordestinos (arigós) que migraram para o Estado no final do século XVIII. A miscigenação no seio do Brasil foi semelhante aos afluentes dos rios das cabeceiras, um desaguar de águas em cima de toneladas e toneladas de outras águas. O rio e, o elemento humano de hoje, no meio da floresta, detém esse abraço e formação cultural esplêndido e “violento”, ao cenário histórico dessa região, tão desconhecida aos próprios amazônidas, e ao mundo todo. A marca de toda miscigenação está estampada nos atuais traços dos habitantes típicos das cidades da Amazônia: pele, olhos, cabelos, estatura, costumes, tradições e linguagem.

 

 

A ORIGEM DA VILLA



A arquitetura neoclássica do sobrado da família dos Dantas, a Rua Ruy Barbosa de Coari-Am, desde o início do século XX, testemunha, em silêncio, a memória histórica da outrora Villa de Coary ao contemporâneo da Amazônia. *foto do acervo www.coari.com 



Em1848 Alvelos era a denominação da Villa de Coary. Naquele momento da história o lugar estava sobre o Termo judiciário do município de Tefé. O mundo amazônico estava em formação sócio-política ao restante do planeta. A história de Alvelos, por sua vez, veio das mudanças do local dos aldeamentos, fundados pelos padres jesuítas, os quais atuavam pela região dos rios Amazonas (hoje o Solimões) e Japurá. Desde 1538, a grande região da hoje floresta amazônica era alvo das explorações espanholas, pela “febre ao ouro”. Foram aqueles, até então, os primeiros a descer os grandes rios das terras baixas da Amazônia. A partir daquele ano, até 1562, as tentativas não haviam alcançado grande sucesso, exceto as missões de Pedro de Ursua e de Francisco de Orellana. Contudo, Ursua findou morto em sua expedição por alguns de seus tripulantes que lhe tomaram o poder. Esses, liderados pelo sanguinário Lope de Aguirre, autodeclamaram um novo príncipe ao Peru. O fato daquela aclamação ocorreu em 1560, em áreas do atual município amazônico de Coari.  Esse é um dos destaques da história antiga da outrora Villa. Os padres jesuítas do século XVI vieram à região através do Peru. Adentraram pelos rios a fim de fundar missões religiosas, a cargo do reino de Castela, hoje a Espanha. Samuel Fritz, fundador da Missão de Nuestra Senhóra de Las Nieves (dos Yurimágua - 1689), não era castelhano. Alguns autores, como o tefeense Augusto Cabrolié (1984), dizem que o mesmo era austríaco, outros, que Fritz apenas articulava o alemão, mas não o era (assim como articulamos o português e não os somos). O certo é que ele veio provido do reino da Boêmia, localizado ao sul da Alemanha. Seu reino tinha como língua oficial - o alemão. Hoje, aquele reino, se chama de República Tcheca. Segundo o que se consta sobre o local verdadeiro dos aldeamentos dos Yurimágua, ao antigo mapa de Fritz, sobre a região e todas as outras missões, em áreas portuguesas, “foram omitidos pelo mesmo”. Ele havia ousado formar algumas de suas missões religiosas em áreas pertencentes aos lusitanos (portugueses), por isso teve que localizar aquela missão final, em um local hipotético, em seu famoso e histórico mapa. Até mesmo, em seu diário, deixou uma interrogação no ar sobre o local original daquela última missão. Tudo o fez para não ser acusado de invadir as áreas dos portugueses, temendo ser expulso ou deportado. De qualquer modo, antes de ficar cativo em Belém, por quase dois anos, Fritz conseguiu formar muitas missões. Não formou mais porque ficou muito doente na missão dos Yurimágua. Essa é a missão que daria origem a Villa de Coary. À historia atual, a da missão final de Fritz, diz que foi transferida  em 1692 a um lugar mais abaixo do original, ao paraná do Paratari (áreas de Manacapuru). De lá, começaria uma saga de mudanças do povoamento, até se fixar no local aonde aquela Aldeia foi fundada e fixada em 1854.  Do Paratari, o aldeamento foi para a ilha do Guajaratuba, também em Manacapuru. Foi frei José de Madalena quem o instalou ali. Depois, frei Antônio de Miranda levou-o ao Guajaratuba. Por fim, frei Maurício de Moreira que o instalou dentro do lago de Coary. Após 1708, quando Fritz e seus congregados foram finalmente expulsos da região, os portugueses religiosos tomariam posse definitiva daquelas antigas missões. Algumas aldeias como as de Tefé e Fonte Boa haviam sido queimadas pelos jesuítas, mas os carmelitas as reconstruíram.  Apesar de pertencerem à mesma igreja cristã, os religiosos seguiam as coroas de seus países de origem. Portugal X Espanha (Lusitânia e Castela) disputavam a região amazônica, por isso as divergências. A aldeia dos Yurimágua não ficou com o título de Nuestra Senhóra de las Nieves, atribuído por Fritz em fevereiro de 1689. Quando aquele retornou de Belém, em 1691, passando pelo local daquela aldeia, às nove horas do dia 13 de outubro daquele ano, viu que a capela havia sido incendiada. Os Yurimágua lhes disseram que foi um dos nativos que provocara o incêndio, acidentalmente. Assim Fritz escreveu em seu diário de viajem:

As nove do dia chegamos a redução de Nuestra Senhóra de Las Neves e dos Yurimágua, que encontrei toda despovoada e a igreja queimada pelo descuido de um rapaz, menos o lenço (imagem sobre tela) de Nossa Senhora que se conservou prodigiosamente intato.

Vasculhou os escombros e, curiosamente, encontrou intacta a imagem da santa, pintada numa flâmula. Não havia sido consumida pelas chamas. Então a levou dali. Por isso a aldeia ficou posteriormente sem aquela denominação, a qual seria, presentemente, a padroeira original da Cidade de Coari-Am – Nossa Senhora das Neves. Somente em 1759, 51 anos, após a expulsão de Fritz da região, o primeiro Governador da Capitania de São José do Rio Negro, Joaquim de Mello e Póvoas, elevaria a Aldeia dos Yurimágua à categoria de Lugar, com o nome de Alvelos. A mudança de Aldeia à nomenclatura de Lugar de Alvelos foi por causa da Lei lingüística do Marquês de Pombal, de 17 de agosto daquele ano. Os portugueses estavam receosos de que o nheengatu (a verdadeira língua brasileira) predominasse muito mais que o português naquela colônia.  Em 1774 é criada a Paróquia de Sant’ Ana a Alvelos.  E assim permaneceria até os dias atuais com seus 245 anos de fundação no município. Em 1822 era proclamada a independência do Brasil de Portugal. De dono, passaria a ser freguês do país que colonizou.  Assim sendo, em 1833, onze anos depois do fato da Independência, o Lugar de Alvelos passaria a ser chamado de Freguesia de Nossa Senhora de Sant’Ana. Freguesia era mesma coisa que Paróquia, por isso o nome da santa. Nesse momento o Governo do Grão-Pará era quem comandava os destinos de toda Amazônia ocidental. As principais cidades daquele período eram: Tefé, Barcelos (capital do Amazonas) e Belém. Foi por isso também que, em 1848, a Freguesia ficaria subordinada ao termo de Tefé como seu colégio eleitoral, assim, como grande parte das localidades daqueles arredores. Em 1850, o Amazonas foi elevado à categoria de província.  A “Freguesia de Alvelos” é instalada junto à foz do lago chamado: lago de Coary. O primeiro administrador daquele lugar foi o Tenente-Coronel Gaudêncio Euclides Soares Ribeiro - “o Coronel Gaudêncio”. Até então o major reformado, Silvério José Nery, era o dirigente daquela Aldeia. Este teve um filho, de mesmo nome, com Maria Antony Nery, seria um dos primeiros grandes homens da política que Coary projetaria ao Estado. Foi deputado, senador e em 1900, Governador do Amazonas. O Vigário da Villa era o Ver. Luiz Gonçalves de Azevedo. Com a nova mudança de local a Villa seria logo realçada à região, como um lugar produtivo e próspero, mas sempre subordinado a província de Tefé (outrora Villa de Ega). Somente em 1874, com a Lei de 1º de maio daquele ano, a outrora Alvelos seria elevada, oficialmente, à categoria de Villa - a Villa de Coary. Entretanto, antes daquele século findar, seria novamente subordinada ao Termo de Tefé.

 


O PADRE JESUITA SAMUEL FRITZ



Igreja Católica de São Francisco de Assis, localizada à Rua Samuel Fritz no cruzamento que se faz com a Rua 2 de Dezembro. Bairro de Tauá-mirim, zona centro-oeste da Cidade de Coari-Am. Foi uma forma do município não esquecer o nome daquele jesuíta.*foto do acervo de Cláudia Alfaia – fevereiro de 2018



O padre jesuíta, Samuel Fritz, é vulto histórico tanto à história universal quanto amazônico-nacional (em especial à história da fundação do município de Coari-Am). Nasceu no Reino da Boêmia, cativo a Germânia (Alemanha), hoje a República Tcheca, situada a sudeste daquela - fora dos limites territoriais e oficiais daquele país. Augusto Cabrolié, escritor da Síntese da História de Tefé (1984), defende a tese de que a nacionalidade de Fritz fosse austríaca. À época de seu nascimento, a Áustria e a República-Tcheca eram reinos cativos a grande Germânia. Fritz foi uma criança de família nobre. O costume naquele tempo, de sua infância, na Europa, era de que pelo menos um menino, de cada família “pobre”, fosse educado e instruído dentro de um mosteiro. Ler e escrever eram habilidades pertinentes a poucos naquele período. Mas Fritz não era de família pobre e, mesmo assim, entrou num mosteiro a fortificar sua fé e a estudar. Tinha real vocação ao sarcedócio. Entrou para a ordem dos jesuítas, fundada em 1534 por Inácio de Loyola. Fritz buscou aquela ordem religiosa a ser um pregador da Palavra pela Igreja. Assim como naquele tempo, e até hoje, os católicos religiosos precisam estudar dedicadamente a atuar como difusores da Palavra e orientadores de rebanhos. Arruda e Piletti (1996), em sua “Toda a História”, nos narram a transição do antigo país de Fritz, ao século XX, à atual República Tcheca:

Em março de 1939, Hitler desmembrou o resto da Tchecoslováquia; incorporou Boêmia e Modalva como protetorados e proclamou a Eslováquia independente. O potencial bélico alemão cresceu bastante com a integração da indústria tcheca. Mussolini aproveitou e conquistou a Albânia. Os dois Estados totalitários consagraram sua aliança em maio de 1939, com o pacto de aço.



Rua Samuel Fritz em 2004. Bairro de Tauámirim, o mais antigo da cidade.



As famílias dos meninos europeus pobres, os entregavam aos cuidados da igreja, dessa forma os rapazes recebiam boa educação e instrução. Apesar disso não retornavam mais à casa da família de origem. Eram treinados a residir, em geral, nas colônias européias de expansão pelo mundo e, a servir como escrivães, em viagens oficiais dos reinos europeus. Possuíam conhecimento de observação em várias áreas: cientificas, sociais e astrológicas. Enganam-se os que acham que aqueles jovens passavam o dia todo rezando, em penitências. Dentro dos mosteiros estudavam de “tudo” e sobre tudo. Aprendiam principalmente sobre navegação, cartografia e guerras. Inclusive, aprendiam a lhe dar com armas brancas (espadas) e também com as de fogo.  O ingresso daqueles jovens, nos mosteiros, era de garantia à Igreja formar religiosos, intelectualizados e diplomados, ao cenário continental. Dessa forma, a igreja conseguiria está presente, também, em todos os patamares sociais e culturais. A fé não era característica nem pré-requisito único e suficiente, à imposição do Clero no cenário político do velho-mundo europeu.  Fritz estudou Humanidades (Letras) e Filosofia; ingressou na “Companhia de Jesus” aos dezenove anos, e aos trinta e um embarcou para a América com destino à Província de Quito. Na obra de Antônio Porro, “O Povo das Àguas”, se encontra um pouco da biografia de Fritz, escrita por um de seus companheiros de missão:

O padre Samuel Fritz, conforme biografia deixada por seu conterrâneo e companheiro de ordem Wenceslau Breyer, “era natural de Ornavia, na Boêmia, nascido de família nobre a 9 de abril de 1654. Tendo estudado como leigo, Letras e Filosofia, foi admitido em 1673 na Companhia de Jesus, onde estudou Teologia com tal proficiência que seus superiores logo o destinaram às primeiras cátedras daquela esclarecida província. Mas prevalecendo nele a vocação  com que Deus o chamava a conversão dos gentios passou, com o beneplácito de nosso mui reverendo Padre General, a estas Índias e Colégio de Quito. Aqui, depois de um breve descanso de poucas semanas, foi no ano de 1686 para o (rio) Maranõn, encarregando-se das missões dos Omágua e demais nações a que ia-se estendendo o seu zêlo. Foi o primeiro missionário [jesuíta] a pregar a fé naquelas províncias, uma vez que os que haviam procedido tinha ido somente para descobri-las. Foi sem escolta alguma e trabalhou incansavelmente, sem nenhum companheiro, naquela dilatadíssima missão, até o ano de 1704, quando foi nomeado Superior... Somente com os Omágua foram 28 aldeias, e também pacificou e aldeou os Yurimáguas, Aizuares e Ibanomas; reduziu e batizou muito Mayorunas, Caumaris, Pevas, Cavisanas, Guareicus, Cuchiuaraes e outras nações que viviam próximos ao Marañon. (Notícias Autenticas, pte. III, cap. 3, & viii).      

A partir da chegada de Fritz a Quito, começaria sua saga amazônica, a de missionário católico do rio e formador de várias missões religiosas. Sendo as quais, dariam origem a várias cidades da região amazônica, ao alto e médio Solimões. Em seu diário histórico essas cidades são apresentadas com nomes de aldeias e, até mesmo, por denominações de santos e santas católicos.

Daqui até perto do Yapurá (Japurá), quando entrou para missionar os Omágua, que foi pelo ano de 1685, encontrou o padre Samuel, só no Maranõn (Solimões) mais de 50 ilhas povoadas por quatro diferentes nações, Omágua, Yurimágua, Aiçuare e Ibarmnoma. Formou com estas cerca de 38 reduções, das quais as mais populosas e principais eram a de San Joachim, que citamos a pouco; Guadalupe (Fonte Boa), três jornadas mais abaixo San Pablo (São Paulo de Olivença), depois de mais três e Nuestra Sênora de Las Nieves de los Yurimágua, entre o Yutai (Jutai) e o Yapurá. Além dessas quatro nações que vivam em ilhas, o padre Samuel amigou e começou a aldear muitas outras nações da terra firme, como são os Caumari, Peba, Ticuna, Cauysana, Guaraicu e outras. De todas estas nações e povos restam no presente só cinco, e estes muitos reduzidos, que são S. Pablo, S. Cristóval de Ibiraté, Taracuatuba, Parahuari e Tefé, que são os que hoje os portugueses ocupam e têm por missionários alguns religiosos do Carmo... *Notícias autênticas do Rio Solimões. In Porro

Foi entre 1686 a 1689 que Fritz viajaria muito pela região compreendida entre os rios Napo e Japurá (na Amazônia). Foi nesse período que fundaria várias missões religiosas, as quais, mais tarde, dariam origens aos vários municípios da região e do Estado do Amazonas.  A missão de Fritz cujo daria origem aos confins do município de Coari-Am, foi à última, dentre todas as missões religiosas fundadas ao Solimões. Foi no início do mês de fevereiro, ano de 1689 (séc. XVII) que finalmente a instituiria. Provavelmente, debaixo de muita chuva, pois era época do rigoroso inverno amazônico. Naquele mesmo mês, ficou muito doente, adquiriu hidropisia e malária. Os períodos de chuva à Amazônia são assim até hoje aos caboclos. Mesmo estando “acamado”, e sem amparo adequado, conseguiu sobreviver aos males. Ainda era jovem, tinha 35 anos naquele momento. Mas a partir dali, o padre jesuíta comeria “o pão que o diabo amassou”. Os povos da floresta não sobreviviam às doenças trazidas pelos brancos, seus anticorpos não haviam ainda desenvolvido defesas aos novos males, porém, os europeus também passavam maus bocados com as doenças tropicais que contraíam. Era necessário aprender a reconhecer e, a cuidar, dos novos males que lhes acometia. O escritor Márcio Souza (2009), em sua obra, História da Amazônia, cita o momento da enfermidade de Fritz após a fundação de sua última missão entre o povo Yurimágua:

Em 1689, o jesuíta Samuel Fritz, da Bohemia, começou a organizar missões no rio Solimões, dentro do território demarcado por Pedro Teixeira, reivindicando essas terras para Castela (Espanha). Provavelmente o jesuíta teria logrado sucesso, não tivesse ele adoecido numa aldeia dos índios Yurimágua. Aos trinta e cinco anos, Fritz era um homem robusto, mas um surto de malária, agravado por inchaço nos pés e problemas de verminose, obrigaram o missionário a ficar prostrado numa rede. Durante três meses ele penou sem nenhum atendimento. Quando o sol nascia Samuel Fritz conseguia levantar-se; a febre passava e ele poderia alimentar-se, mas era durante a noite que a moléstia lhe atormentava...

Por causa da hidropisia e da malária, Fritz teve de abandonar a missão recém-formada, a sair em busca de cuidados à saúde. Por vários meses, viajou numa descida de rio que parecia interminável. Muito penou naquela viagem feita de canoa. Não havia muitas ou, quase nenhuma alternativa. Em seu diário de viajem ele mesmo conta: “A 11 de setembro, de noite, cheguei à cidade do Grão-Pará mais morto que vivo” (Fritz, 1689). Ele desceu até o Pará em busca de ajuda. A viagem durou cerca de dois meses, começou em julho daquele ano (1689) e já era setembro (verão) quando foi levado ao Pará, onde socorrido e tratado pelos portugueses, melhorou dos males. Se não tivesse adoecido, teria formado mais missões e aldeamentos, mas a dos Yurimágua foi à última. É a que justamente originaria a história contemporânea dos coarienses. Os portugueses o auxiliaram, no entanto, ficou quase dois anos preso por lá (Belém). Foi acusado de ser espião da coroa espanhola (a antiga Castela). Deus lhe daria por um lado, mas lhe tiraria por outro. Fritz viveu até os seus setenta e um anos de idade, morreu a 20 de março de 1725.  Um velho mito que habita o imaginário do povo da floresta, pode ter se originado das viagens e permanência de Fritz à região amazônica.  A ele, os nativos daquele tempo, atribuíam certos acontecimentos e fenômenos metafísicos. Depois que saiu da missão, onde ficou doente, houve um surto coletivo de alucinação entre os Yurimágua. Muitos achavam que ele havia morrido, mas ressuscitaria. Outros diziam que ele foi “espedaçado” e que conseguiu auto reconstituir-se. Dessa forma, amaldiçoaria os que atentaram contra a vida dele. Alguns fenômenos naturais, ocorridos naquele tempo, foram atribuídos a sua ausência nas missões, como um grande terremoto que acontecera na região em maio 1691. Aquele abalo sísmico provocou a mudança de muitos cenários e formação de alguns acidentes geográficos na região. Em 30 de junho de 1698, nas áreas da região do município de Tefé, o rio Solimões (Maranõn à época) teve suas águas tomadas por muito musgo, logo, Fritz deduzira que, um novo abalo havia sobressaltado nas áreas longínquas de rio a cima. Em poucos dias soube o que ocorrera:

“... Soube depois por carta de Quito, que isso havia resultado  de um tremor espantoso que no dia 20 açoitou as povoações de Hambato e Tacunga, descendo de um vulcão chamado Caruirazu um rio de lodo que pelo Pastasa (rio) penetrou até o Maranõn (solimões).”

Mas as idéias mirabolantes, sobre o mito, em torno dos acontecimentos naturais, surgiam pelos argumentos empreendidos por Fritz, durante seu trabalho de missionário. O enredo, da morte e ressurreição do Cristo, apresentado aos nativos, em forma de auto e leitura, à Palavra empregada por Frits, formava todas aquelas idéias aos pobres indivíduos aldeados. O branco ensinava que seu Deus único morrera e ressuscitara ao terceiro dia, o “índio” findava acreditando que alguns brancos poderiam ressuscitar também. Um deles poderia ser mesmo Fritz. O mundo cristão um dia seria destruído no apocalipse. A figura do missionário, o de pregador da Palavra, construiu frente aqueles povos ancestrais um certo misticismo quanto à sua imagem sacerdotal.  Devido aqueles esses rumores mitológicos, até hoje, se reza à região, que alguns lugares ruíram por que “um padre” os amaldiçoou.  Mais uma vez, na obra de Márcio Souza, encontra-se citações sobre o direcionamento de Fritz, como sacerdote místico entre os povos étnicos. Ele se sentia uma “verdadeira entidade”, enviada pela causa divina, ao salvamento e propagação da Palavra pelos rios da selva. Tornou-se um verdadeiro “ente lendário” aos nativos – um verdadeiro mito. Pelas palavras do sociólogo Renan Freitas, Souza nos apresenta um “novo” prisma sobre Fritz:

A leitura de seu diário, escreve o sociólogo Renan Freitas Pinto, – inevitavelmente nos leva a imaginar que o padre Samuel Fritz, sendo constantemente atingido por intensos ataques de febre, a ponto de perder os sentidos em várias ocasiões, vivia na realidade um estado de transe e possuído pelo excesso de seu fervor religioso. Sentia-se como santo entre os índios pagãos, como alguém carregado por uma força sobrenatural que era constantemente percebida e apontada pelos indígenas. Essa condição sobrenatural era percebida ora como uma ameaça, ora como uma força do bem, capaz de anular os elementos da natureza, como as enchentes, as pragas e as doenças, e neutralizar as forças espirituais e mágicas que conviviam com as sociedades indígenas com os quais o padre mantinha contato. O padre Fritz, conforme suas própria palavras, costumava carregar uma grande cruz de madeira que erguia para afugentar toda sorte de perigo e de inimigo. Essa imagem do martírio em vida é por assim dizer o lei motiv de seu Diário, o que contribuiu para diminuir e mesmo esconder o lado pragmático, esclarecido e político de seu pensamento e de sua vida.

É comum ouvirmos, desde criança, da nossa oralidade popular, pela região amazônica, que foi sempre “um antigo padre” o que amaldiçoou algo, algum lugar, alguma coisa ou a alguém (coisas do folclore oral da região amazônica). Não só Fritz tenha deixado esse legado, mas outros sacerdotes daquelas épocas também. Quando os jesuítas foram expulsos do Solimões, pela chegada dos carmelitas, em reivindicação as demarcações de suas antigas missões, alguns companheiros de Fritz, antes de abandonar os locais, incendiavam as aldeias a protestar e amaldiçoar à expulsão. A própria aldeia de Tefé foi incendiada em 1708 pelo padre espanhol João Batista Sana. Todavia, foi um ato de revelia em não entregá-la de volta aos portugueses (de mãos beijadas). Essas manifestações rancorosas encandeavam a imaginação dos índios.  No entanto, a grande origem do mito, sobre padres “malévolos”, parece advir mesmo da figura histórica de Fritz. Quando conseguiu voltar do Pará às missões, e ao rio Solimões, com sua cruz de madeira em punho, houve um grande alarido nas aldeias pelas quais passou. Muitos nativos acreditaram que ele havia morrido e ressuscitado mesmo, de verdade. A saga de Fritz, pela Amazônia, nos legou a fundação de muitas cidades ao nosso hoje inclusive as de Coari e Tefé. Se a história de Coari começasse a ser cronometrada, a partir do aldeamento de Fritz (inicio de fevereiro de 1689), ter-se-ia 329 anos de fundação e história à cidade da nossa atualidade.

 

AS DESLEMBRADAS ETNIAS



O interessante costume do povo Omágua, no Solimões, de dá ao crânio a forma de mitra. *acervo da obra Viagens pelo rio Amazonas, de Paul Marcoy ( século XVIII ).



A então localização da Cidade de Coari-Am, de hoje, não é a mesma onde o jesuíta Samuel Fritz assentou seu último aldeamento, no início de fevereiro de 1689.  Isso já está mais do que dito e provado. Aquele ponto é remoto à atualidade. Está há centenas e centenas de quilômetros e quilômetros de distância do local da atual urbe. Aquele remoto aldeamento de Fritz estava situado, supostamente, nas proximidades dos municípios de Fonte Boa e Tefé (entre os dois). Entretanto, Augusto Cabrolié diz em sua Síntese da História de Tefé (1984) que Fritz não o expôs claramente em seu mapa de localização das Missões, temendo ser preso e deportado pelos portugueses. Seus aldeamentos finais foram realizados em áreas da Amazônia     que o navegador Pedro Teixeira havia demarcado ao rei de Portugal, em meados daquele século. Após os frades Carmelitas terem reivindicado e, retomado, suas iniciais missões no Solimões, reordenaram as antigas aldeias dos jesuítas. O descimento daqueles remotos aldeamentos, a pontos mais estratégicos, daria origens a novos lugares à região. Antes de tudo isso ocorrer e, até mesmo, antes do país ser “achado” (em 1500), era a civilização do povo Omágua que estendia suas aldeias por essas paragens, em períodos muito antigos, e até, digamos, “pré-históricos”. Pelos estudos etnológicos, desde os séculos X e XII d.C. já havia a presença de remotas etnias pela região do município de Coari, antes mesmo do que se imagina. Os Omágua são sempre citados no diário de Fritz:

A principal e mais numerosa dessas nações, aquém as demais temiam muito antigamente, é a dos Omágua, oriundos provavelmente dos Tupinambá do Brasil, como dá a entender o seu idioma, que pouco se diferencia daquele que os portugueses chamam Língua Geral, ou dos Tupinambá, que segundo dizem estendia-se a muitas nações do Brasil. *Fritz, in Porro

Foram os Omágua, os primeiros habitantes vistos pelos brancos, às densas terras coarienses. Eram muito habilidosos, tinham aspectos físicos totalmente diferenciados dos das outras etnias, presentes naquele panorama remoto. Suas aldeias eram também muito povoadas, algumas chegavam ao número de milhares de indivíduos. Foram eles os que apresentariam o uso do látex da seringueira aos brancos. É deles a técnica de uso da borracha que elevaria Manaus a ser conhecida como: a “Paris dos Trópicos”, ao período áureo da borracha (final do séc. XIX). E hoje a “borracha dos Omágua” faz o mundo andar mais rápido sobre rodas. É necessário pensar dessa forma o local onde se vive, pois do contrário, acataremos um fato “engessado” aos anais da história. Não se pode guardar uma única data a frisar o percurso de nossa biografia oficial, tão oculta, através dos tempos e eras. O que marcou a visão dos brancos europeus, em relação ao povo Omágua, foi à aparência peculiar de suas cabeças. Eram achatadas e, o crânio, levemente apontado para o alto. Certa vez, Fritz perguntou a um membro da aldeia o porquê de achatarem suas cabeças? Segundo Fritz, o nativo respondeu que uma divindade lhes ensinou a fazer aquilo, e por isso, tornou-se um padrão da anatomia craniana, estético-social entre eles. Mas Fritz escreveu em seu diário que foi o próprio “diabo” quem lhes ensinou aquela prática. Ao jesuíta, doutrinador dos dogmas ao catolicismo, qualquer manifestação espiritual que não somasse aos seus conceitos universais, cristão-religioso, atribuía aos entes contrários a sua fé o efeito de certas práticas cujo não cabiam dentro de seu conjunto espiritual de crenças e sacramentos. Por isso, o “diabo” era o termo e a saída mais rápida e, propícia, a resolver uma manifestação espiritual e astral, estranhas a sua própria crença. Antes de Fritz ter passado por aqui (na região), outros navegadores já haviam explorado as áreas de Coari aos meados do século XVI. Fritz dificilmente esteve no local onde hoje está a atual cidade. Não muito de “acordo” com a descrição étnica dos grupos nativos, os quais, hipoteticamente, habitaram primordialmente a região do município, em tempos remotos, temos de forma didática a seguinte relação, a nos doutrinar, como melhor seqüência que denomine os chamados “primeiros habitantes”: Yurimágua (ou Iurimaua), Catuxis (ou Catauxis), Passés, Solimões (ou Yorimã), Wapés, etc. Essa relação à denominação, às várias etnias, foi catalogada e descrita em outros séculos, pós achamento do Brasil. Mesmo assim não concretizam os habitantes originais das áreas geográficas do município de Coari-Am, em épocas remotas, uma vez que, com a presença do colonizador branco as etnias viram-se obrigadas ao re-aldeamento ou, à fuga, ao interior da selva. Por isso sua área geográfica (primordial) de origens espaciais e universais foi descaracterizada. Então surgem as dúvidas sobre aquelas terem sido as etnias que habitaram o território coariense, em primitivos períodos. Anísio Jobim discorre seqüência semelhante, indicando aqueles mesmos como “primeiros habitantes” da área territorial de Coari. Gaspar de Guimarães (1900) também já discorria a mesma lista. E ainda diz que, os remanescentes daquelas etnias, unindo-se aos brancos, deram origem aos “coarienses” da Villa no século XIX:

Primitivos habitantes de Coary proviam dos Irijús, Catauxis, Jumas, Jurimauas, Passés, Purús, Solimões, Uamaris e Uaupés (em Araújo e Amazonas). Foram esses representantes indígenas que entraram em fusão com os brancos europeus e americanos. Pela maior parte foram soldados da diligência da demarcação passada, aos quaes e então que, pelo tempo adeante, se deram as suas baixas para se casarem com as índias e, por conseguinte estabeleceram as suas casas, introduzindo e argumentando na nova capitania, a agricultura, o comércio, a navegação e as manufaturas. (in Ferreira) Anísio (pg. 10).

Antes da chegada da famigerada etnia branca, a escrita e sua leitura não eram habilidades do conjunto de tecnologias aos nativos amazônicos, por isso não sabiam rabiscar representações de mapas a nenhum território. A representá-los era preciso da escrita. As aldeias originais dos antepassados deveriam apenas ficar localizadas às margens de algum rio. Seus pontos de referência, a subir e descer os grandes cursos fluviais, deveriam ser formulados com base em algo que só precisava ser visto ou percebido. Foi o branco que chegou determinando até aonde iriam os territórios e jurisdição de seus domínios. Afirmar que havia povos residindo, na atual região daquele município, é algo (até certo ponto) impreciso. A selva, à grande maioria das etnias, era um mundo único e de domínio de todos. Embora algumas etnias a tivessem como o universo e, sua taba, o centro do mesmo. A partir da última década do século XVIII, a visão sobre os aspectos da Amazônia adquiriu um novo caráter. A partir daquele período, cientistas do mundo todo buscavam a floresta, sem o olhar deslumbrado de “paraíso divino” dos séculos anteriores. Alexandre Rodrigues Ferreira foi um dos estudiosos que muito no legou sobre o cenário da floresta daquele tempo. Márcio Souza nos diz:

(...) o cientista, Alexandre Rodrigues Ferreira - baiano (1784 a 1815), que, por um sistemático inventário, exaustivamente coletado, faz emergir a grande região, ao sistema das observações científicas.

A população da Amazônia, em épocas da chegada dos brancos, era bem expressiva, no entanto não se determinava até aonde uma etnia poderia ir ou não. Há certas tribos que, permaneceram em seus locais histórico-originais por causa de situações cujo não aludiam às questões geográficas, de demarcações de territórios, e sim, por tradição cultural, espiritual, astral e até universal. Os Yanomami estão sempre onde estiveram. Os Tikuna também continuam em suas áreas, desde a chegada de Fritz. Mas as etnias, que supostamente habitavam o território dos atuais coarienses, não aparecem registradas em locais fixos, nem anotadas pelos cronistas das expedições daquelas épocas.  Alguns etnólogos apresentam aquelas etnias (as que supostamente haviam habitado as áreas de Coari-Am), situadas no alto rio Negro, não no Solimões. A vinda daqueles nativos, ao Solimões, só ocorria a fins de comércio intertribal.  Povos do rio Negro constituíram redes de troca de alimentos e utensílios junto aos povos do Japurá e Solimões. Desciam daquele rio e depois retornavam aos seus locais de partida.  Conheciam o labirinto de águas e florestas como só eles. Ao se consultar o diário de Samuel Fritz, ao momento que se celebra a formação do último aldeamento (a de suas missões), não há citação específica sobre ajuntamento de tribos ou qualquer outra etnia diferente, apenas os Yurimágua são apresentados. E aqueles foram apresentados a Fritz pelos próprios Omágua:

Pelo trato contínuo que tinha com os Omáguas em suas apostólicas peregrinações, o padre chegou a ter muitas notícias de outra nação mais abaixo do rio que chamam Yurimágua, conforme pode coligar também do diário do P. Acunã. Contavam-lhe muitas coisas sobre as suas habilidades; traziam um tipo de taças que chamavam vulgarmente de pilches, que as mulheres pintavam com muito primor, referiam-lhe os seus costumes, menos bárbaros que os dos demais, e uma espécie de civilidade que os governavam, vivendo todos sujeitos ao arbítrio de um curaca principal, do que o Padre concluiu que deveriam ter boa disposição para sujeitar-se ao jugo evangélico (...) Para escapar da grande enchente que costumava haver nesse rio todos os anos, em fins de janeiro de 1689, desci da redução de San Joachim de Omáguas, que é princípio da minha missão, para aldeia dos Yurimágua... Em fevereiro cheguei aos Yurimágua, onde fizemos igreja dedicada a Nossa Senhora das Neves. * In Porro. 

Não são os “Iuri” junto aos “Mauá”, pois os Yurimágua formaram sempre uma nação única, no entanto com vários aldeamentos ao longo do Solimões. Os Catuxis (de grafia Catauxis), não estão no diário de Fritz como pertencentes às áreas geográficas do hoje município de Coari. Por último, os Solimões que são os mesmos Yorimã, também desaparecem do contexto das etnias, como primeiríssimos habitantes, aos escritos (a não ser que foram grafados com outra escrita). Então, surgem as “dúvidas” sobre aquelas etnias terem feito parte do aldeamento formado por Fritz no final do século XVII. Os antigos navegadores brancos deixaram registrado que o povo predominante, nas áreas dos rios Coari e Purus, do Tefé ao Japurá indo até o rio Napo no Peru, seria o povo Omágua (Umáua). Havia um extenso agrupamento daqueles, um verdadeiro “reino”, expressamente marcante à história da Amazônia. Às áreas ocupadas por aqueles, os espanhóis chamavam de Gran Omágua, em alusão ao Gran Pará do leste da Amazônia. Aquele povo se vestia com túnicas coloridas, cores que eram extraídas de pigmentos naturais da floresta, feitas para tingimento das indumentárias, confeccionadas a fios de algodão. Não andavam completamente nus. Conheciam as seringueiras e o látex extraído das mesmas. Usavam um tipo de calçado chamado de pereketé, confeccionado com a goma da borracha, também portavam cantis. Usavam os mesmos para transportar água ao consumo, principalmente, em suas longas andanças pela selva. Por terem “contato” com as etnias andinas podem ter aprimorado suas condições de fabricação de utensílios ao dia-a-dia. Alguns já escreveram que os cantis usados nos filmes de bang-bang (do velho oeste americano), foi inspirado nos cantis dos Omágua da Amazônia.  A grande curiosidade que causaram mesmo, aos homens brancos, foi à forma “achatada” de suas cabeças. Lembrava a forma da mitra (chapéu pontudo para cima) que os papas usam:

Os portugueses chamavam vulgarmente os Omágua com o nome de Cambeba ou Canga-Peva, que quer dizer cabeças-chatas, porque o distintivo dessa nação é o ter a testa achatada e plana como a palma da mão; e nisso, até os dias de hoje, põem toda a sua vaidade, em especial as mulheres, que chegam a zombar e insultar as de outras nações dizendo que tem a cabeça redonda como cuia (“pilche”) ou cabaça, como os selvagens do mato. Para isso vão pouco a pouco achatando, com muito cuidado, a cabeça das crianças pequeninas, aplicando-lhes a testa uma tabuinha ou um amarrado de canas partidas com algodão para não feri-las... *Fritz. Diário da descida do Padre. *In Porro.  

Retomando a problemática, a das ancestrais etnias, nas áreas geográficas do município de Coari no Amazonas, os Omágua seriam na verdade dos fatos, a primeira das etnias (de que se têm notícia) a habitar as áreas geográficas, primordiais, do município coariense (assim com em Tefé-Am também).  Em questão do diário de Fritz, apenas os Yurimágua marcariam o contexto de sua missão, em 1689. As outras etnias citadas como a dos Yorimã (Solimões) e Catuxis (Catauxis), viriam pelos atalhos do rio Negro, mas apenas a manter redes de troca com tribos daquela área (?). Da denominação yorimã veio o vocábulo “solimões” que redenominou o gigante Amazonas, o qual vem descendo desde a tríplice fronteira (Brasil-Peru-Colômbia) até o encontro fabuloso das águas (amarelas e negras) em Manaus. O articular lingüístico dos europeus, ao se pronunciar os vocábulos das etnias nativas, foi modificando a grafia e os fonemas das palavras, mas não seus significados. Omágua = Umáua, Yorimã = Yolimã (solimões), Coary = Huary (cory), etc. Fritz articulava a língua alemã, entretanto, não era propriamente alemão como se imaginava. Acontece que a língua oficial, a que se falava no Reino da Boêmia, lugar de Ornavia de onde veio, era aquela. Assim como falamos português, mas não o somos. Sua nacionalidade era boêmica, hoje ele seria um cidadão thceco-republicano. Seu país de nascimento chegou aos nossos dias denominado de República Tcheca. Esse dado foi catalogado pelo autor, através da obra didática “Toda a História” dos autores: Arruda e Piletti.  Esses autores nos remontam as revoluções correntes do velho mundo, as do século XVII. Naquele tempo a Europa se dividia numa verdadeira guerra ideológica de religiosidade, junto a conflitos políticos. Era um período daquela sociedade antiga em que não se ouvia falar de tolerância religiosa, assim nos dizem os autores:

Aos conflitos políticos juntavam-se as lutas religiosas: a idéia de tolerância religiosa era estranha aos homens daquela época. No império Germânico, os príncipes protestantes se organizavam na Liga Evangélica para fazer oposição à política do Imperador. Então os príncipes católicos uniram-se na Liga Sagrada. Os dois grupos entraram em choque, sobretudo na Boêmia, atual República Tcheca, domínio dos Habsburgo, com muitos protestantes. *In Pilet e Arruda.

Enquanto tudo isso ocorria na Europa, Fritz já se encontrava desde muito, enfiado no interior da selva amazônica no “novo mundo americano”. Encabeçava as pretensões da velha Castela (hoje a Espanha), à selva intrigante. Se não buscarmos a fundo a configuração que nos revele a originalidade dos fatos, ao passado, corremos o risco de apresentar sempre um contexto genérico ao futuro da história local. O apelo à reconstrução da memória e história é feito no sentido da desmistificação dos fatos e dos acontecimentos. Os fatos da vida, à civilização de um local, demoram séculos e séculos a serem projetados como “história oficial” a seu povo. Se uma vírgula é posta de forma intencional, num período ou oração verbal, ou se um pingo estiver fora de um “i”, poder-se-á ocorrer uma drástica modificação à originalidade da coisa que se sucedeu em passados séculos.  No aprofundamento das pesquisas e investigações científicas sempre encontraremos novas respostas aos ancestrais fatos do passado (os já oficializados), a nossa atualidade.  Não significa que a história vai mudar, pois sempre está em construção, não está estagnada, muito menos “engessada”. Alguns fatos da história são também construídos por hipóteses e teses supositivas. A leitura e releitura dos acontecimentos são as únicas formas que se tem a reverter às corruptelas do passado ao presente. De qualquer modo, Anísio Jobim ergue a tese de que os primitivos povos de Coari: Irijús, Catauxis, Jumas, “Jurimauas”, Passés, Purús, Solimões, Uamaris e Uaupés são os que, miscigenados com os da etnia branca, “formaram” o povo atual da cidade (em 1933. Pg. 70). Diz Anísio:

Foram estes representantes indígenas que entraram em fusão com os brancos europeus... Pela maior parte foram soldados da diligência da demarcação passada aos quase então e pelo tempo *adeante se deram as suas baixas para se casarem com as índias. *português escrito na época.

A lista corriqueira de etnias que tenham formado os “primeiros habitantes” do local da cidade de Coari vem impressa à história pela expansão dos missionários na região. Em 1694, uma Carta Régia de 29 de novembro, determinou a divisão territorial da Amazônia aos diversos missionários religiosos distribuídos às margens dos cursos fluviais. Assim Porro nos diz:

Aos jesuítas coube todo o território ao sul do Amazonas, desde o Tocantins até o madeira; aos capuchinhos a margem setentrional do rio e seu interior, desde o Amapá até o Trombetas; aos mercedários daí até o Urubu e aos carmelitas as enormes bacias do Solimões e do Negro.

Com aquela divisão às missões dos religiosos europeus, vários aldeamentos foram reordenados, com isso as nações étnicas foram reagrupadas. Aos municípios de Coari e Tefé ficou a confluência de algumas nações cuja figuração semeia, artificialmente, o aspecto humano aos dois lugares:

Coari: Catauixi, Iriyú, Juma, Passé, Purus, Uanani, Uayupi, Yoriman.

Tefé: Achouari (Aisuari), Coeruna, Coretu, Janumá, Jauaná, Juma, Jupiuá, Juri, Manao, Passé, Tamuana, Tupiná, Uayupi, Yoriman.  

No final dessa história toda, fora a denominação daquelas etnias, nada mais sabemos de suas: culturas, tradições, espiritualidade, hábitos, costumes, etc. As expedições científicas que começaram vir a Amazônia, a parti de 1750, nos deixaram registrado tudo que hoje temos como: estudos, e informações científico-filosóficas, sobre o cenário da selva (ambiente, habitante, fauna, flora e identidade sociocultural). Nossos lugares e cidades começariam a despontar à história, mas isso não os excluiu das visitas dos grandes cientistas e estudiosos do passado. Até Gonçalves Dias passou pelo cenário da antiga localidade de Coari, pois o rio Solimões, a partir do século XVIII, foi sempre alvo do olhar mais aguçado dos estrangeiros. E ainda o é até os dias de hoje. A NASA, com seus sofisticados satélites de localização precisa, de guerra, deve ter descoberto petróleo em nossa cidade muito antes da própria Petrobrás. Eles chegariam com maiores e pesadas tecnologias, leituras, informações, conhecimentos de campo, pesquisas geológicas, hidrográfica e etnológica. Enquanto isso, ainda estamos apenas a “olhá-los”, com nosso olhares curiosos e carentes, semelhante aos povos ancestrais quando da chegada dos primeiros portugueses. Olhar, não faz mal, mas é sempre bom olhar com mais “desconfiança” aos que vem olhar as coisas da floresta, antes que as percamos.

 


O VAPOR PAES DE CARVALHO


O Vapor Paes de Carvalho navegando pelo Solimões nos anos vinte do século XX.*acervo da revista de época Redenção – março de 1927



A história desse navio, ao cenário histórico da Villa de Coary, é um fato não isolado à região amazônica, pois as viagens de barco, durante dias e dias, expõem os passageiros aos mais surpreendentes desafios e perigos fluviais, até os dias de hoje. Atualmente há mais fiscalização, em relação ao transporte de pessoas e cargas, mesmo assim, as autoridades competentes não podem demandar ao descuido com a segurança à vida humana. Principalmente quando uma nave fluvial, contendo muitas vidas, dá início uma jornada de subida ou descida de rio. Tanto faz o percurso ser curto, ou deveras prolongado, a precaução deve ser sempre a mesma: toda atenção à segurança. Um banco de areia, um velho tronco que flutue desgovernado de baixada, ou, qualquer outro movimento de corpo estranho n’agua, pode ser um obstáculo a ameaçar qualquer embarcação no rio. Mas ao Vapor Paes de Carvalho nenhum desses obstáculos foi o causador de seu terrível naufrágio. O perigo estava dentro do mesmo, e foi prenunciado: a negligência com o transporte de excesso de combustível a bordo. Todavia, aquele acontecimento de tragédia com o Vapor tornou-se um dos mais tristes e trágicos acidentes fluviais, à história da navegação pela região. Marco Adolfs (2004), romancista amazônico, narra entre a ficção e a realidade o momento do embarque de cargas e passageiros no Vapor, ainda ancorada no porto de Manaus. O Paes de Carvalho daria continuidade a uma longa viagem que havia iniciado em Belém, no Pará. O barco foi sobrecarregado com muito combustível. Eram os tempos de glamour e pompa aos que podiam viajar, com todo conforto de época, a bordo daqueles elegantes vapores:

Com a ordem de ativar o fogo da fornalha, a tripulação do Paes de Carvalho deu início aos preparativos da partida. Passageiros elegantemente vestidos e uma leva de retirantes fluviais se aglomeravam no cás do porto à espera do sinal para o embarque. Com todos sabendo da extrema pontualidade dos gaiolas, tudo parecia controlado e dentro do tempo estipulado para a saída. O comandante João de Deus, devidamente descansado, observava do alto da cabina de comando o transporte das últimas cargas e os movimentos necessários que a sua tripulação tinha que fazer. Como sempre sua escala seguiria o trajeto da linha do Juruá, passando por lugarejos inexpressivos até chegar ao porto principal. Além da carga de sempre, naquela noite o Paes de Carvalho estava transportando mais de duzentas pessoas. *Adolfs

À década de 1920, pela Villa de Coary, dois grandes navios passavam uma vez a cada mês. Enquanto um vinha de viajem, baixando pelo Solimões, vindo do Juruá, o outro subia, enfrentando a correnteza daquelas águas sempre turvas. O primeiro Vapor a navegar, em direção do antigo Lugar de Alvelos, foi o “Monarca”. É o clássico Vapor que transportou Herculano Ferreira Pena, segundo Presidente da Província do Amazonas, em 1854 (séc. XIX), até Nauta, no Peru. Aquele Vapor, que pesava 70 toneladas, passou no antigo Lugar de Alvelos, em missão oficial de Ferreira Pena, responsável da reconstrução do forte de Tabatinga naquele século.  À noite do dia 21 de março de 1926 o Índio do Brasil, nome de num daqueles Vapores que subia e descia pelo Solimões, zarpava do porto da Villa de Coary, localizado próximo ao elegante sobrado do Major Deolindo Dantas. Da ponte de madeira, que ligava os extremos daquela localidade, por sobre o igarapé de São Pedro, os coarienses davam seu até logo ao belo barco de fabricação inglesa.  Nesses momentos a população daquele lugarejo sentia-se feliz e, ao mesmo tempo melancólica, pois a “partida” de um vapor era sempre sinônimo de “despedidas” e saudades. À Amazônia, tradicionalmente, se navega em seus tradicionais barcos de madeira a se chegar as suas milhares de localidades ribeirinhas. A tradição fluvial vem da época dos ancestrais nativos e branco-europeus. Enquanto o Índio do Brasil dava início a sua viagem de descida pelo Solimões, o Vapor Paes de Carvalho era esperado, a aportar na Villa, aos próximos dias. Marco Adolfs (2004) nos descreve o Vapor “Paes de Carvalho”:

Construído em 1896 no estaleiro inglês “Gourley Bros”, de Dunder, era um gaiola com super estrutura em ferro e madeira, três conveses, cento e setenta e dois pés de comprimento, trinta e três pés de boca, oito pés de pontal e seiscentos e cinqüenta e sete toneladas brutas. Sua capacidade de carga era execida a seiscentas toneladas. Garboso, nas cores branca e preta, tinha duas hélices de tríplice expansão fornecendo trezentos H.P de força. Dois mastros e uma chaminé proeminente destacavam o conjunto total desse navio fluvial.

A viagem de baixada do Índio do Brasil havia iniciado em Cruzeiro do Sul, no Acre, vindo pelo rio Juruá. O Paes de Carvalho viria de uma desgastante viajem de subida. Em geral, aquelas viagens duravam um mês, ou até mais, a bordo dos Vapores pelos quilométricos rios da região. Aquele navio foi construído, precisamente em 1896, na Inglaterra, sendo um dos mais antigos daquele estaleiro inglês; registrava 657 toneladas, 390 H. P. de força, com 38 homens de tripulação. Ao ano da tragédia havia chegado aos 30 anos de viagens. Cerca de 150 pessoas viajavam a bordo, naquela viagem, que sempre era muito esperada. Os Vapores eram os grandes responsáveis de levar e trazer todas as grandes novidades, notícias, pessoas e cargas, de todos os tipos. Alimentavam o comércio, bancos, pequenas indústrias e empresas privadas e governamentais, pelas praças e frentes do interior da Amazônia. Levavam as correspondências oficiais, da Capital aos lugarejos mais distantes do Solimões e Amazonas. Assim também, como as encomendas e cartas entre familiares, amigos e parentes.  Assistiam todos os municípios localizados às margens dos rios: Amazonas, Solimões e Juruá. Aos habitantes das villas, no interior amazônico, naquelas épocas, a chegada de um Vapor era um verdadeiro evento. Aos olhos de muitos representava grandes esperanças. Quando se acionavam as buzinas, de aviso à chegada, ainda de dentro do lago de Coary, toda a localidade se alegrava. E assim se dirigiam ao porto e ancoradouro. Geralmente os Vapores ficavam mais de um dia num porto. Os passageiros tinham sempre a oportunidade de conhecer cada lugar e suas peculiaridades. Isso fazia a viagem menos monótona. Dentro dos barcos, havia uma visível divisão de classes. No piso de baixo: índios, caboclos e nordestinos se acotovelavam entre suas redes, em meio às dezenas e dezenas de mercadorias. Estavam retornando as suas villas de residência ou buscando trabalho pelos antigos castanhais e seringais da região. Esses aventureiros eram transportados, desconfortavelmente, juntos de animais como: porcos, galinhas, cavalos, bois e vacas, e, de produtos regionais. Aquilo tudo era transportado junto àqueles sujeitos menos favorecidos. Havia pouca comodidade, vez por outra, brigas e confusões surgiam por excesso de álcool ou desconfiança do sumiço de alguma bagagem. No segundo piso, os elegantes passageiros de 1ª classe desfrutavam de camarotes privados, salões de festa, salas de relaxamento, salas de refeição e de todo um serviço e atendimento de bordo, exclusivo. Possuíam um atendimento diferenciado dos que viam aglomerados embaixo. A estratificação social dentro dos Vapores era gritante. Esse perfil de embarque chegou aos nossos dias. O recém finado período áureo da borracha havia deixado aquela herança indigna, aos caboclos da região.  Ninguém imaginava que, naquele mês de março, de mais de 90 anos atrás, o velho Paes de Carvalho faria sua última viagem subindo pelo Solimões. Era madrugada, dia 22, três horas da manhã, quando uma súbita explosão foi ouvida por muitos passageiros. A princípio não se sabia do que se tratava o estrondo. Somente quando foi ouvido o horroroso grito de “fogo a bordo” o pânico tomou conta dos passageiros que se desesperaram. A partir dali não havia mais classes sociais, era cada qual por si. O Paes de Carvalho foi às chamas, transportava grande quantidade de combustíveis como à maior carga daquela viagem. Os cerca de 150 seres humanos a bordo, entre tripulação e passageiros, entraram em numa revulsão medonha, sem ter muito que fazerem pra se salvar. O Vapor foi tomado por uma grande massa de chamas em frente à localidade do Camará, na Ilha da Botija. O Camará é mais uma das pequenas localidades nas áreas geográficas, oficializadas, do município amazonense de Coari. Está a leste da cidade-sede. Camará (kamara) é também mais um vocábulo procedente do dialeto amazônico. De acordo com o “Pequeno Dicionário da língua Geral” (1989) (nheengatu), designa-se naquele vocábulo o significado (em português) a amigo ou camarada. A quem vem subindo, pelo rio, ao sempre emblemático curso fluvial do Solimões, percorrendo os mais de trezentos e sessenta quilômetros que separam a Capital amazonense do município de Coari, o Camará é a fronteira que se faz, geograficamente, entre os municípios de Codajás e Coari (a leste deste). Anísio Jobim (1933) descreve a localidade a época do ocorrido do naufrágio:

O Camará está na parte meridional do Solimões, em terreno de pouca elevação, sujeito as alagações, ficando o nível das águas a três e quatro pés de altura do solo, e causando, como é fácil de imaginar, graves prejuízos aos moradores. Não é esse, porém, o único mal que apresenta este tão lindo lugar. Os constantes esboroamentos de terreno pela ação solapadora das águas têm estreitado, cada vez mais, a faixa de várzea sobre a qual se ergue o povoado, que tem a corre-lhe pelos fundos, perene igapó. A repetição do fenômeno de desagregação de barreiras tem levado muitos de seus moradores a mudarem as suas casas, em geral feitas de madeira, com penosos esforços, mais para o centro à ourela do pântano.

Os moradores daquele lugarejo também acordaram assustados quando viram fumaça, fogo e o naufrágio assustador, tudo ocorrendo diante de seus olhos. Os que poderam correram à beira para montar em suas canoas e barcos, os quais estivessem disponíveis. Assim partiram a socorrer os que tentavam ainda sobreviver àquela tragédia. O Camará é destacado também no romance “Látex, de Marco Adolfs, onde o mesmo narra o trágico acidente ocorrido com aquele Vapor, naquela madrugada de março em 1926. O fato movimentou e comoveu aquela comunidade que repassaria o episódio a várias e várias gerações, durante décadas e décadas, imprimindo o fato à memória coletiva e ao conjunto de narrativas folclóricas locais. A repercussão do acidente também correria o país (de norte a sul), assim como a outros países. Os jornais e revistas da época como, A Reforma (do Acre) e Redempção (do Amazonas), noticiariam o episódio com grandes reportagens. Eram impressos de grande circulação na região naquele inicio do século XX. O acontecido foi trágico à época. Aliás, um barco naufragando com cerca de cento e cinqüenta pessoas a bordo, é sempre um fato trágico e sinistro a qualquer época. O jornal A Reforma, do Estado do Acre, em sua edição de 26 de março de 1926, trouxe a notícia do ocorrido aos acreanos, da seguinte forma:

Excelente viajem fazia o velho gaiola quando pela madrugada do dia 22 na ocasião em que o Vapor demandava pelo Camará uma passageira de 3ª classe, tabagista, ascende o cachimbo, jogando estupidamente para o lado das caixas de gasolina e kerozene que vinham no convés de baixo o phosphosro aceso. Foi dado alarme pelo taifero de que havia fogo e avisado o maquinista do fato (...)

A culpa e responsabilidade do sinistro foi atribuída, segundo o trecho da notícia, pelo antigo jornal, a uma passageira de “terceira-classe”. Ela foi à “culpada” de ser misturada a toneladas e toneladas de combustíveis líquidos e em pó, havia pólvora junto à gasolina. Foi também culpada de ser pobre (3ª classe), tabagista e “incendiária”. Se fumava cachimbo, provavelmente era uma pessoa de idade, pois tal habito é típico aos mais idosos. Os que lotaram o andar de baixo, misturando seres humanos com a carga explosiva de inflamáveis, tornado o barco uma verdadeira bomba-relógio, às linhas da noticia do antigo jornal acreano, nada pareciam ter de responsabilidade, junto às vidas ceifadas pelo incêndio medonho, às águas geladas do Solimões. Certo é que a catástrofe estava anunciada pelo excesso de inflamáveis. Fosse aquele infeliz episódio, com o suposto cachimbo do “tal passageiro”, as cerca de cento e cinqüenta pessoas, a bordo, teriam chegado ao seu destino com uma total harmonia de viagem por aquele rio. Assim deixou registrado Jobim em sua publicação de 1933:

Foi em frente a este povoado (Camará) que sossobrou, preso das chammas de horrível incêndio, que se declarou a bordo, na altura do paraná do Ajurá, o vapor “Paes de Carvalho”, da The Amazon River Steam Navigation Company, Limited na madrugada de 22 de março de 1926. *Anísio (pag. 98)

As explosões foram tão grandes, que segundo testemunhas aos jornais, moradoras do Camará, as labaredas chegavam a 50 metros de altura. O professor Rubens Dário Lisboa Lima, atuante no Camará, foi uma das testemunhas que inclusive salvou três pessoas da morte. No desastre, morreu o comandante João de Deus Cabral dos Anjos, considerado muito experiente com a direção de embarcações daquele porte. O historiador Abraim Baze, aos dias atuais, nos oferece publicação no Portal Amazonas sobre a biografia do comandante que conduzia o Vapor Paes de Carvalho naquele momento de tragédia. Ele também foi uma das vítimas do ocorrido. Seu nome era João de Deus Cabral dos Anjos, casado, e pai de nove filhos. Tinha muita experiência fluvial e já havia comandado outras embarcações pelos rios da Amazônia:

O comandante João de Deus Cabral dos Anjos procurava conter o pânico dos passageiros totalmente desorientados que gritavam e pediam socorro. Começavam então, sob uma desordem indescritível, os primeiros trabalhos de salvamento dos passageiros e da tripulação. Arriaram-se as primeiras balieiras e as poucas canoas que havia a bordo para o desembarque dos passageiros. Foram socorridos pelo Navio Motor “Índio do Brasil” que transportou os náufragos para o Porto de Manaus, desembarcando às quinze horas do dia vinte e dois. O Comandante João de Deus Cabral dos Anjos nasceu em Alhandra, Portugal, no dia quatorze de setembro de 1883. Era filho do Comendador João Ozório Cabral dos Anjos e de dona Gertrudes Cabral dos Anjos. Veio para Manaus com oito anos de idade, aos onze empregou-se a bordo como praticante. Foi mais tarde prático, e em 1914, Comandante, depois de ter submetido-se ao respectivo exame no Estado do Pará. Sempre exerceu sua atividade na “The Amazon River Steam Navegation Company Limited”, tendo comandado os seguintes vapores da mesma companhia: Índio do Brasil, Madeira Mamoré, Tefé, e finalmente o Paes de Carvalho. Contraiu matrimônio em Manaus no dia cinco de junho de 1909, com dona Helena Guedes Cabral dos Anjos, filha do senhor Joaquim Antônio Guedes e dona Maria Rebello Guedes.  Deixou além da viúva nove filhos: Nilce com quinze anos, Elmizia com treze anos, Almerio com onze anos, Cecília com oito anos, Homero com cinco anos, Jorge com quatro anos, Ivanise com três anos, Alfredo Augusto com um ano e Denise com cinco meses. Amou a Amazônia com muito ardor, afinal deixou Portugal ainda criança. Tendo naturalizado-se brasileiro.

Às 11 horas da manhã, daquele mesmo dia, os passageiros sobreviventes foram resgatados, pelo Vapor Índio do Brasil vindo da Villa de Coary. Alguns passageiros foram atendidos no Camará e permaneceram mais alguns dias por lá.   Em meio às vítimas, havia moradores do município, que eram aguardados ansiosamente.  Porém, jamais chegariam com vida naquela localidade. Os que sobreviveram, como o vereador Leôncio Salignac, conseguiu retornar. A tragédia faria os habitantes da Villa de Coary entrar num luto político-social ao resto daquele ano. Tudo que estava sendo esperado foi parar no fundo das águas do Solimões ou consumido pelas chamas, junto ao que restou do velho Vapor. Ao momento que o mesmo começou a afundar, levou junto de si dezenas de pessoas, tragadas pela força do fluxo das águas do rio engolindo a embarcação. Foram devoradas vivas pelas águas tenebrosas do Solimões. A ocorrência do naufrágio ficou sendo um dos piores de toda a história da navegação na Amazônia e da Villa de Coary. O prefeito da Villa naquele período era o jovem escritor manauara, Péricles de Moraes, que já não vinha proferindo uma boa administração ao lugarejo. Ao final daquele ano, seria remanejado ao município de Parintins, de onde viria o novo prefeito. Ao lugar do Camará, aquele fato se tornou um ocorrido dos mais sinistros já vividos pela comunidade. Afinal, eles permaneceram morando ali, próximo ao cenário da tragédia. Com o passar das épocas, o terrível sinistro foi sendo esquecido, pouco a pouco, mas a história o escreveu em suas páginas para que no futuro fosse lembrado e compartilhado como memória e biografia universal da Villa de Coary.

 


O PREFEITO

HERBERT LESSA DE AZEVEDO



Herbert Lessa de Azevedo, foto de formatura na faculdade de Direito do Amazonas, em 1922. *foto da obra de acervo de Araújo Lima – Centro Cultural dos Povos da Amazônia


Quando o ditador militar Getúlio Vargas se suicidou, a 24 de agosto de 1954, deixou em sua carta-testamento uma emblemática frase, que vem sendo repetida (empregada), por vários historiadores e pesquisadores sociais, a definir a trajetória de obra, ao final dos que encerram sua jornada de vida e invenção social. A frase emblemática assinala e destaca, vultos históricos, ao nosso tempo, através das décadas que sucederam a partida de Vargas: “... saio da vida pra entrar na história.” A simbólica frase se casou perfeitamente com o ocorrido na remota Villa de Coary, ao dia 23 de junho de 1927. 27 anos antes de Vargas se suicidar. É um dos grandes fatos que marcam a trajetória do lugarejo naqueles anos da década de 1920. Um jovem político de Manaus, com um futuro inteiro e brilhante pela frente, encontrou nos ares daquele remoto lugarejo um cenário perfeito a efetivar sua carreira política. Sua passagem na história da Villa de Coary daria um novo desfecho histórico às próximas décadas. Seu assassinato se tornaria um “divisor de águas”, político-social, ao cenário cultural da velha Alvelos. Entretanto, o destino havia lhe definido um epílogo deveras avesso aos seus sonhos e pretensões. No dia 12 de janeiro de 1927, Herbert Lessa de Azevedo tomava posse da Villa de Coary, como prefeito designado pelo Estado. Seu antecessor era o jovem escritor amazonense, Péricles de Moraes. Péricles foi designado à Prefeitura de Parintins, onde Herbert havia sido prefeito até o final de 1926. Péricles foi um dos fundadores da Academia Amazonense de Letras. A partir daquele dia 12 de janeiro, os coarienses da Villa poderiam vislumbrar dias melhores a sua pacata comunidade. A gestão de Péricles não havia sido uma das melhores já realizadas até então. O novo prefeito teria muito trabalho pela frente, a demonstrar a que veio. A Villa precisava ser limpa e organizada, esses foram os grandes alvos de sua gestão que duraria pouco menos de seis meses. Entraria na história oficial do lugar como vítima de um terrível sinistro e ato de barbárie. Era véspera do festejo de São João Batista, quinta-feira, 23 de junho. A manhã havia amanhecido bonita com muito sol e frescor. Os moradores estavam a aguardar um dos festejos mais alegres e populares da região. Era começo de verão amazônico. Os habitantes daquela viviam o clima de encerramento do luto, há um ano, ao trágico naufrágio do Vapor Paes de Carvalho, ocorrido à frente da comunidade do lugar do Camará. Dentre os passageiros mortos, havia coarienses, que também sucumbiram naquele momento nefasto. Leôncio Salinagc, que viajava de Manaus à sede da Villa, foi um dos sobreviventes. Era Político de Coary. Contudo, naquele dia de 23 de junho (1927), o povo já havia se recomposto daquela tragédia. Naquela época o ocorrido havia comovido toda aquela comunidade. Mas era hora de comemorar o festejo junino, de celebrar a vida, novamente, ao mais animado e esperado festejo do ano. O mesmo não havia sido comemorado em 1926, por causa do luto, em memória às vítimas do naufrágio. Haveria, na Praça Péricles de Moraes, muita alegria com quadrilhas, fogueiras, soltura de balões e muitas comidas típicas. Tudo havia sido autorizado por aquele jovem prefeito novato à Villa. Até o artista popular, José Luiz de França (o Cearense), poria seu boi-bumbá para dançar ao redor da fogueira com: Caitirina, Nego Chico, Cazumbá e seus vaqueiros. Naqueles tempos, nem havia ainda luz elétrica, mas seria uma noite muito animada e iluminada pelos lampiões da Praça e fogueiras de São João. O prefeito Herbert comemoraria junto à população seus primeiros seis meses de trabalho. Tinha pretensões de conseguir a energia elétrica à Villa Coary, pois havia conseguido a Parintins. Ele veio de Parintins, mas era manauara. Apenas havia estado à frente da Prefeitura daquela cidade em 1926. A Villa de Coary era bem falada pelas calhas dos rios. Naquele tempo o local estava crescendo, havia muita gente chegando, muita produção rural sendo realizada, pesca, coleta, plantações e colheitas. Castanhais e seringais faziam do lugarejo uma comunidade próspera. Assim a Villa ascendia ao restante da região. Grande parte da produção era vendida em Manaus, rendendo grandes ganhos econômicos e financeiros. A outra parte abastecia o consumo do povo. A comunidade vivia os anseios de ser emancipada como uma nova cidade, a qualquer momento, à futura Cidade de Coari. Herbert era um rapaz discreto, atencioso, sempre bem alinhado e atento ao diálogo com o povo. O escritor Araújo Lima, em memorial a Herbert Lessa, publicado em 1930 escreveu: “Era um gentleman, de finíssima educação, inteligente e digno”. O Estado o havia autorizado registrar uma biografia póstuma à Herbert.  Ele tinha um magnetismo que atraia e encantava seus administrados. O povo o admirava.  Carismático, boa-praça, dedicado e trabalhador.  Foi sepultado vestido com seu alinhado terno azul-marinho, era o que mais gostava, segundo consta na obra de Araújo Lima. Naquela época os recursos administrativos eram precários e obsoletos às realidades citadinas. Os prefeitos eram nomeados e deveriam ser exímios administradores da escassa verba. Aquele jovem prefeito havia recebido uma villa carente, desgastada e mal administrada. Em praticamente seis meses de trabalho, organizou toda a parte estrutural da Villa, com limpeza dos terrenos e espaços públicos e de todos os arredores da paragem. Também ampliou as áreas do Cemitério de Santa Terezinha. Mandou derrubar a mata de seus arredores. Estranhamente, empregou grande atenção aquele lugar. Conta Jobim (1933) sobre o zelo do cemitério pela administração do jovem prefeito Herbert Lessa de Azevedo:

Muito zeloso no exercício de seu elevado cargo, mereceu-lhe toda a atenção o cemitério público, mandado bater as entradas e limpar à enchada, o caminho que levava à necrópole. Providenciou para que fosse alargada a área do cemitério, mandando derrubar uma parte do mato alto que o rodeava. O alargamento e outros melhoramentos não se efetuaram por que não lhe deu tempo o destino infausto. Havia de repousar na necrópole coariense por uma fatalidade da sorte, o simpático e heróico prefeito...  *in Jobim.

Assim a necrópole foi cercada de arame farpado, capinada e limpa à enxada. Foi humanizada.  O jovem prefeito estava realizando um bom serviço à pequena Villa de Coary. Poucos administradores haviam chegado aquele cargo como ele o fez. Tinha muito gás e vontade política de realizar.  Aquele manauara veio de uma família tradicional. Seu pai era um admirável homem das Letras e bem posto à política do Estado - o escritor-cronista, Raul de Azevedo. Colaborava com jornais de todo o país escrevendo suas famosas crônicas sociais. Era um político celebrado ao cenário administrativo e literatura regional. Sua esposa, dona Julieta Lessa, manauara, já havia falecido, antes mesmo de Herbert sofrer o atentado.  Em 1900, seu pai fazia parte do governo estadual de Silvério Nery, grande político coariense que havia chegado à administração maior do Amazonas naquele momento.  Embora tudo parecesse está num clima de grande harmonia, naquela bela e distante manhã do mês de junho, mais uma vez a localidade seria assolada por um terrível momento de sombrio sinistro. Às dez horas daquela manhã (uma quinta-feira), as crianças que brincavam “montadas” pelos galhos das mangueiras (plantadas em 1896 pelo Major Augusto Celso de Menezes), na esquina da rua Ruy Barbosa observaram quando os caboclos do Apaurá (antigo lugarejo rural da Villa de Coary) saíram de seu batelão que, estava ancorado no trapiche da antiga ponte de madeira. Todos eles saíram armados, com suas espingardas em punho, rumo à Praça Péricles de Moraes. Logo em seguida, ouviram vários “estouros” e gritos vindos de lá. Os curumins acreditaram que haviam antecipado o dia de São João, por isso começaram a gritar (inocentemente): “Viva São João! Viva São João!” Os tiros da barbárie seriam os fogos de artifícios, à imaginação das crianças apenas. Seu Raimundo Martins, saudoso idoso da cidade de Coari, era um daqueles curumins que brincava pendurado pelos galhos das árvores. O major Deolindo Dantas, oponente político de Herbert, sempre olhando pelas janelas de seu imponente sobrado, observou a ação dos armados. Ficou “curioso” e assustado. Mas logo mandou fechar portas e janelas e se armou de sua espingarda. Horas depois, Deolindo havia mandado preparar sua lancha, a “Alavorada”, para levar Herbert à Manaus. Todavia, o mesmo não resistiu aos ferimentos, vindo a falecer as 16:55 horas daquele dia. Não deu tempo nem de embarcá-lo. Como era de praxe, naquela época da Villa de Coary, a Rua Ruy Barbosa era o local onde morava a elite da cidade, foi lá que Herbert viveu seus últimos momentos vitais. O ocorrido faria o luto social retornar à Villa naquele ano novamente. Ao anoitecer a rua da casa do prefeito estava lotada de gente, vinda de todas as partes daquele lugarejo. As mangueiras plantadas ao longo da rua serviram de abrigo aos populares. Durante toda a noite e madrugada, o corpo do jovem prefeito foi velado, cercado pelo lamento, ladainhas fúnebres e pelas rezas de um povo carente, trabalhador e sonhador. Os mais velhos não se cansavam de falar e relutar: “Era tão jovem meu Deus! Por que fizeram isso com ele?!” Sua família, em Manaus, soube do sinistro através do sistema de telégrafo que naquele tempo já funciona na Villa. Vários tiros o atingiram, seu abdômen foi o alvo maior das balas, por isso não teve como resistir ao ataque. Os ferimentos lhe causaram hemorragias. Tentou se proteger com as próprias mãos que também foram alvejadas. O que ficou dito sobre o alvo do atentado: “seria o promotor e o delegado da cidade, não o prefeito”. Os caboclos assassinos “não sabiam” quem era quem. Entraram no prédio e Herbert estava lá, sozinho. Na prefeitura também funcionava a promotoria de justiça. Houve um corre-corre, até o porteiro foi atingindo. Herbert viu-se só, perante os vinte invasores armados. Dizem que o promotor soube que seria morto, por isso, fugiu da prefeitura, disfarçado, vestido em “trajes femininos” (boatos). Saiu correndo em direção da Praça de São Pedro para não ser alcançado. Dias antes, havia mandado deter uns caboclos do Apaurá, acusados de invasão de terras alheias naquela localidade. Mas Herbert os havia libertado, antes do assassinato. Os compatriotas, após saberem do corrido, vieram tirar satisfação por causa da prisão e de um “castigo” posto a um dos presos. Um dos detidos, segundo relatos populares, havia levado uma surra de chicote de couro de peixe-boi. E assim, seus irmãos rurais cometeram aquele bárbaro homicídio. Dizem que os presos apanharam muito na prisão.  No dia 24 de junho, dia de São João, depois de ter sido velado pelos coarienses da antiga Villa, o jovem prefeito foi sepultado no cemitério que acabara de ampliar, limpar, cercar e humanizar. Um ano depois, à designação do Estado, seu túmulo perpétuo foi construído e situado alguns passos atrás da capela de Santa Terezinha. Para aquele dia de São João, à Praça da Villa, havia planejado acender fogueira, soltar balões, comer o típico da época, dançar quadrilha e até apreciar o boi-bumbá do cearense França. Nada do que foi planejado ocorreria. Jamais havia planejado ser velado e sepultado.  O luto se instalou na cidade, mais uma vez, de forma depressiva e impiedosa. Em maio de 1952, quando faria 50 anos de seu nascimento, a Assembléia Legislativa do Estado prestou-lhe grandes homenagens póstumas.  Muitas ruas do Amazonas ganhariam seu nome, até flores foram depositadas na Praça Alfredo de Sá de Manaus, onde uma herma, a sua memória, fora instala a 24 de junho de 1928. No Cemitério de Santa Terezinha, na Villa de Coary, onde foi sepultado, foi-lhe construído um túmulo perpétuo. Foi-lhe gravado em mármore, pelo pai:

DR. HERBERT LESSA DE AZEVEDO – MANAUS *03/05/1902 – COARY 23/06/1927 / FILHO DE RAUL DE AZEVEDO E JULIETA LESSA DE AZEVEDO – PREFEITO DE COARI – “MORREU EM SEU POSTO, HEROICAMENTE, LUTANDO SOZINHO CONTRA UMA HORDA DE ASSASSINOS.” SAUDADES ETERNAS DE SUA DESOLADA FAMÍLIA E COLEGAS POSTAES. *registro permanente no Cemitério de Coari-Am.

O mármore foi enviado à Villa por Raul de Azevedo, a bordo do Vapor “Cuyabá”. Além da nomenclatura de uma das ruas à Villa, também teria um grupo escolar rebatizado com o seu nome. Era o Grupo Escolar João Pinheiro, localizado na outrora Praça Péricles de Moraes, hoje uma das ruas principais do Centro urbano da Cidade de Coari. E ainda, uma tela a óleo, com sua imagem estampada, seria posta em local de honra ao salão nobre da Prefeitura. Ao passar do tempo e épocas, como é de “tradição”, o nome e a saga do jovem prefeito foram sendo esquecidos na história. Da praça “Alfredo de Sá”, situada em Manaus, onde um busto de bronze foi-lhe instalado (no São João de 1928), nada restou. Nem a herma existe mais. À atualidade aquela Praça se tornou a Rua Visconde de Mauá. O grupo escolar de Coari, com seu nome, não chegou à atualidade, nem mesmo a pintura a óleo com sua imagem. A rua da Villa de Coary, que recebera seu nome em 1928, dez anos depois foi renomeada  como “Dois de Dezembro”. Até o prédio da prefeitura, onde o emboscaram, foi demolido ao final dos anos de 1960. Restaram apenas no bairro de Chagas Aguiar (zona leste da Cidade de Coari), uma única rua com sua denominação. É o vestígio que ficou aos ouvidos e olhares sobre Herbert Lessa de Azevedo. Seu túmulo está hoje esquecido no cemitério ao qual dera tanta atenção e cuidados. E por infelicidade do destino, à sociedade coariense, foi exatamente no cruzamento das Ruas: Herbert Lessa de Azevedo e Vieira Martins (naquele bairro), onde o prefeito Odair Carlos Geraldo, jantando com aliados no antigo restaurante Continental, também sofreria um atentado mortal. O motivo do tal ato foi por questões de ordem particulares ao prefeito. O fato ocorreu em julho de 1994, 67 anos após o primeiro atentado mortal a um Prefeito na história regional da Cidade de Coari. A proximidade daquele ocorrido, à rua que leva o nome de Herbert Lessa, soa apenas ao sentido da coincidência do destino ao cosmo. Odair também faleceu por força do atentado, mas seu corpo foi movido a sua cidade de origem, ao Estado de São Paulo. À outrora Villa de Coary, ficou o luto sócio-político e o vazio no coração do povo que acreditava sempre em seus administradores mais expressivos. A lição que ficaria do passado ao futuro, nessa triste história de violência, seria a do comedimento à tolerância social.  Violência, em épocas mais remotas, parecia ser uma ação isolada e marginal, o que na verdade, só se agravaria aos nossos dias.  Quis o destino, a Herbert Lessa de Azevedo, que sua história se encerrasse, precocemente, à antiga Villa dos coarienses.  Assim como o destino de sua família, a se tornar “órfã” de seu jovem e prodigioso filho e irmão. Herbert nasceu em Manaus no dia 3 de maio de 1902, era solteiro. Além de ser político, era também bacharel em ciências jurídicas e sociais, e ainda, funcionário dos Correios do Estado. Formou-se na Faculdade de Direito do Amazonas em 1922. Era filho do escritor Raul de Azevedo e de Julieta Lessa (falecida antes do ocorrido), tinha duas irmãs: Marilda Lessa de Azevedo e Fernanda Cruz de Azevedo. Era o filho idolatrado daquele nordestino do Maranhão. Naquela época, cogitou-se transportar seus restos mortais à Capital, mas findou-se a permanência de suas relíquias históricas na necrópole do Cemitério de Santa Terezinha, na antiga Villa de Coary. Até hoje, seu túmulo resiste ao tempo e as épocas que se passaram, desde o fatal ocorrido, há mais de 90 anos atrás. Seu pai, tio e uma de suas irmãs estiveram em Coary no dia de finados de 1927.

 


A AVENIDA RUY BARBOSA


Ruínas do antigo prédio da Escola Estadual Instituto Bereano de Coari (o remoto Instituto Popular), situado a Rua Ruy Barbosa. Aquela edificação possuía um segundo piso, na foto já foi demolido. O pastor Albérico Antunes de Oliveira foi o responsável pela fundação do Instituto em Coari à década de 1940. Ao início dos anos de 2000 o governo estadual demoliu o histórico prédio. Também foi a abaixo, junto aos entulhos, parte da memória clássica e educacional da cidade. No lugar daquele, um moderno edifício foi erguido, recebendo a mesma denominação do antigo. Apesar da nova construção (de um contemporâneo pré-moldado), a história e a tradição daquele Instituo não são mais as mesmas. *acervo de Ray Alfaia



Avenida era como se chamava à via inicial da Villa de Coary em 1927. Seus primordiais habitantes de 1874 eram compostos pelos mandatários da época. Não se pode deixar de fora desta obra o roteiro viário daquela via, ao cenário de raízes da Villa, pois sua importância é de fundamental urgência à paisagem histórico-primordial da cidade de Coari. Na década de 1920 foi batizada de Avenida Ruy Barbosa. Se teve outro nome, dificilmente o saberemos, pois desde os anos 20 ficou conhecida com essa nomenclatura. A Ruy Barbosa não o perderia por que curiosamente foi uma via esquecida ao longo da história moderna de Coary. O título de Avenida lhe denotava a condição social dos que lá residiam. Entretanto, com as intervenções urbanas da década de 1930, começou a ser deslembrada, visto à fundação das novas vias ao centro histórico e, também, a algumas questões políticas. “Tudo” na Villa ancestral de Coary começou naquela rua. Foi logo após o local, sentido Centro-bairro, da hoje Escola Estadual Instituto Bereano, que o núcleo inicial da Villa principiou sua instalação em meados do século XIX. O Coronel Gaudêncio Euclides Soares Ribeiro, foi o destacado pela Comarca do Solimões, hoje Tefé, a administrar inicialmente o lugar da Villa de Coary que chegou naquele ponto como o novo Lugar de Alvelos. A história oficial da cidade descrita, de forma didática, apresenta o seguinte enredo:

Pelo decreto nº 146, de 24 de outubro de 1848, Coari figurava como Freguesia ou Colégio eleitoral subordinado ao termo de Tefé com nome de Alvelos. Com elevação do Amazonas a categoria de Província, a Lei de nº 37, de 30 de setembro de 1854, determinou que a matriz da Freguesia de Alvelos fosse mudada para o lugar que o presidente da nova província designasse, junto à foz do lago de Coari. Sem prever as dificuldades da navegação futura, realizou-se a transferência da sede da Freguesia, como foi determinado, para o sítio dos irmãos Tomás e Antônio José Pereira Guimarães... Esta mudança realizou-se depois do ano de 1861. Até então somente o vigário havia cumprido as determinações de Lei, construindo uma capela improvisada no local que a cidade se acha atualmente. Para efeitos civis e eclesiásticos foi considerada a reconhecida Freguesia da Província, por Lei nº92, de 6 de novembro  de 1859. Somente 15 anos depois se tornaria a clássica Vila de Coary.  



Rua 15 de Novembro em 2004. Em 1927 não era uma rua, mas uma praça comercial da Cidade. E ainda hoje continua sendo...



     

Foi entre 1854 e 1861, que o vigário Luiz Gonçalves de Azevedo construiu a primeira igreja católica (improvisada).  Todavia, desde 1774, a Paróquia de Sant’ Ana já havia sido criada, junto às missões que desencadearam as atuais áreas do município. Foi pela iniciativa do cumprimento imediato daquela Lei, por aquele religioso, que a Villa (sede do município) formou-se bem ali. São 244 anos da Paróquia de Sant’ Ana em Coari. A nova sede da Freguesia deveria está posta junto à foz do lago. A escolha do local fora uma forma de se preservar, o cenário original ao igarapé de São Pedro, pois, supostamente, em períodos pré-históricos, desaguava em forma de cachoeira no lago de Coary, bem onde está hoje a feira do produtor rural do município. A ocorrência geográfica, do que foi antes as margens do igarapé, dão a entender que havia olhos d’agua na parte alta da cidade os quais provocavam os sucos desaguadores. Mas olhos d ‘aguas geralmente estão em partes baixas.   A primeira igreja erigida a Sant’ Ana foi situada no alto do local (naquela época), aonde surgiria a Rua Eduardo Ribeiro, de frente ao lago. Era uma pequena igreja estruturada de pau-a-pique, coberta toda de palha. Foi ao redor daquela remota e rústica edificação religiosa que as primeiras casas foram sendo construídas, e assim, o primeiro povoado originou-se, há mais de um século e meio atrás. Em um apanhado de informações, organizado a subscrever a história da cidade, com antigos dados da Câmara Municipal (ano 2000), tem-se o seguinte a ser citado:

A primeira Matriz católica de Coari-Am foi construída pelo vigário José Maria Fernandes, em 1873 (supostamente 12 anos após a instalação da capela de pau-a-pique com cobertura de palha do vigário Luiz Gonçalves), na construção daquela moderna matriz foi empregado: 4000 mil tijolos e 1500 telhas foram gastos também, 16 barricas de cal. Pelas suas proporções era uma das melhores do interior.    



A demolição da Escola Estadual Instituto Bereano de Coari ao início da década de 2000.



Hoje, aquele cenário da antiga matriz abriga a estação metereológica de Coari.  Guarda ainda, os locais de fundação de concreto da edificação primordial da igreja reconstruída de alvenaria. A não se perder pra sempre o lugar original do povoamento urbano, ao município, denominou-se aquele lugar, aos dias de hoje - de Praça de Sant’ Ana. Após a desativação e demolição daquela remota Matriz, o novo cenário escolhido, a sediar a nova edificação religiosa, foi uma área mais elevada, a da atual Praça de São Sebastião – a antiga Praça de São Pedro. A terceira e atual igreja católica, construída à cidade de Coari, está sobreposta no alto da colina da praça central da cidade até os dias atuais. Fora fundada em 1909. É a centenária Matriz de Sant ‘Ana e São Sebastião. Outrora, a Ruy Barbosa iniciava seu percurso às margens da foz do igarapé de São Pedro, e findava nos confins do bairro de Tauá-mirim. Aquele era somente um denso e frondoso castanhal. O Tauá-mirim (pequena aldeia em nheengatu) é remanescente do antigo bairro de Sant’ Ana da Villa de Coary. À esquina que, a Ruy Barbosa faz a convergir com a Rua Cinco de Setembro (antiga Barão do Rio Branco), ainda sobrevive ao tempo e ao progresso o centenário casarão do Major Deolindo Dantas (paraibano da velha cepa). É uma obra inestimável à vista do passado, presente e do futuro histórico de Coari. Os Dantas, na Coari do inicio do século XX, representariam a face política do município, em meio ao cenário administrativo do Estado. Deolindo Alfredo Dantas era Major da Guarda Nacional. Seu filho mais novo, Deolindo de Freitas Dantas (o Dandi), seria eleito Deputado Estadual nos anos trinta do século XX. “Era um orador de grande fôlego” foi o que escreveu o escritor coariense Francisco de Vasconcelos em sua obra memorial (2002). Fora essa projeção aos anos 30 de Coari, de 1899 a 1901, outro Dantas - o Major João Dantas de Oliveira, seria mais um dos administradores da Villa de Coary. Em 1917, Luis Alfredo Dantas faria parte dos subintendentes à Câmara Municipal da velha Villa. O ancestral sobrado carrega o emblema político e histórico à cidade dos tempos dos majores e “coronéis de barranco”. À Villa de Coary, a Rua Ruy Barbosa era o lugar de morada à “elite” primordial. Seus moradores “típicos”, em geral grandes comerciantes, tornar-se-iam os representares daquela sociedade que aflorava àquelas remotas décadas. Autoridades como prefeitos e promotores residiam também na extensão da Ruy Barbosa. O prefeito, Herbert Lessa de Azevedo, foi também morador daquela avenida. Foram lá suas últimas horas de vida. Mas ao final dos anos 20, com a chegada de um novo intendente forasteiro, designado aos comandos administrativos da cidade, começaria uma série de novas mudanças à face daquele remoto lugarejo. Também revelaria à Coary uma nova fisionomia político-social. O intendente Alexandre Montoril (cearense de Assaré), residiria no outro extremo do lugarejo. Naquele tempo, o início da antiga Praça XV de Novembro era o “outro extremo”. Sua casa era situada onde hoje está a agência do Banco do Brasil. Sua visão ao poder desobrigaria o cenário urbano original da Villa, dos arredores do sobrado dos Dantas. Assim, o transferiria às adjacências de sua residência. Foi morar em frente à Prefeitura da Villa, junto à Praça. Tão logo, aquela deixaria de ser a Praça Péricles de Moraes (antiga “1º de Maio”) a se tornar a “Getúlio Vargas”. Não demorou muito para que Montoril transferisse o porto fluvial dos arredores do sobrado dos Dantas à Praça Getúlio Vargas. Aos poucos, desarticularia o cenário tradicional, de chegada e partida à Villa, pois assim tomaria o poder do local e o instalaria na Praça onde morava. Até a antiga ponte de madeira seria demolida para acabar com velhos hábitos do lugarejo. Os caboclos não poderiam mais tomar banho de rio, muito menos lavar e estender roupas por ali, ele os proibiu.  Montoril tanto o fez que instalaria um obelisco, de marco-zero à cidade, na parte sul da nova Praça que fundou e construiu. O justo à história, seria a instalação daquele marco na Praça de Sant’ Ana, onde outrora nasceu a Villa (final da Rua Eduardo Ribeiro com a Ruy Barbosa). Montoril estabeleceria um novo grupo (político) de pessoas que residiriam na XV de Novembro, tornando-a uma rua nobre por várias décadas. O poder e a influência política dos Dantas, dentro da Villa, na rua Ruy Barbosa, terminaria com a chegada de Montoril ao início dos anos trinta. Com a predominação de um novo administrador, a gerir o cenário daquela remota Villa, a Ruy Barbosa findaria no esquecimento.  Com a localização dada pelo vigário daquela remota época, a Villa de Coary nasceria de costas pro nascer do sol (leste), mas com uma vista fantástica de encontro ao lago e seu crepúsculo. Trinta anos, após a fixação do povoado inicial, começaria o movimento de mudança do núcleo central, ao local da hoje rua XV de Novembro. Esse foi o primeiro movimento, de intervenção urbanística e arquitetônica, ocorrida na cidade. Após a primordial operação que deu origem à atual praça central (a Getúlio Vargas), o cenário sofreria com várias outras intervenções. Transformariam a história daquela povoação ao que hoje se tem como cidade e urbe. Ao final dos anos 20, início dos 30, até os anos 60 do século XX, a cidade sofreria com seus maiores impactos urbanos, de acordo com as condições de engenharia daquela época. Em 1932, Coari não seria mais vila nenhuma, ganharia finalmente o predicativo de Cidade. A morte do prefeito Herbert Lessa de Azevedo havia provocado uma demanda política à cidade. Alexandre Montoril, enviado a Villa, em meados de 1927, foi o que assumiria definitivamente a prefeitura, a qual ficou literalmente “viúva” de Lessa. Um mal estar político-social havia pairado sobre a Villa de Coary naquele tempo, enlutada por dois anos seguidos. Por isso se fazia “necessário” mudar espaços, pessoas, idéias e tudo o mais que apagasse da memória as tragédias ocorridas aos últimos dois anos no município. As novas diligências à cidade a fariam apagar a própria memória histórica. Enquanto tudo isso acontecia, a Ruy Barbosa ia sendo esquecida e exprobrada, pouco a pouco, ao restante das modificações modernas. Sua paisagem foi sendo tomada por irregulares edificações e apropriações de seus espaços indevidamente. Dessa forma, se perderia a bela visão ao panorama do lago da frente daquela localidade. A Avenida Ruy Barbosa, a qual nos primórdios de 1874 era o cartão postal da Villa, tornar-se-ia tenebrosa e esquecida à moderna Coari de nossos dias. Quando o Instituo Popular de Coari (hoje Bereano) foi construído naquelas imediações, em meados da década de 1940, ainda havia os anseios populares de se cultivar, naquele local, a raiz da cidade. Todavia, aos poucos, a área foi sendo sufocada perante a beleza do lago. O discreto uniforme escolar, dos alunos disciplinados do clássico Instituto Popular, somava-se aquele cenário remoto como um adereço histórico, colorido pelo verde-musgo das saias e calças. E ainda, equilibrado pelo branco dos jalecos de tergal que seus estudantes de outrora vestiam.  Aquela rua se viu obrigada a dar às costas ao cenário hidrográfico primoroso do lago. O mesmo cenário um dia foi panorama da elite que aos finais de tarde saia a passeio e, a visão de seu pôr-do-sol.  A nova cidade foi esquecendo-se aos poucos de suas origens e raízes primeiras. As inovações propostas ao novo cenário, na década de 30, ocultariam e ofuscariam seu local de nascimento aos dias atuais. Parecia haver certa punição social com os que ali residiam. A Ruy Baborsa passou a ser uma curiosa e intrigante área periférica, em pleno Centro urbano. Mesmo ostentando um clássico prédio (hoje demolido) que narrava um tanto da história da educação, à sociedade coariense, e ainda, um conjunto de casas com características de engenharia de época, ao centro urbano-histórico, o local foi “desprezado” à atualidade. Aquele cenário tornar-se-ia hostil, estigmatizado e fragmentado. O conteúdo e a propriedade de lembranças primordiais da cidade não conseguiram impor-se a mantê-lo como um campo de origens e história aos coarienses atuais. As tragédias, do Vapor Paes de Carvalho e do assassinato do prefeito Herbert Lessa, seriam usadas como pano de fundo às intrigantes mudanças urbanas de época. Os primeiros habitantes da ancestral Villa de Coary tiveram o privilégio de olhar para o lago com mais harmonia e humanidade. Poderam contemplar seu alvorecer social com toda delicadeza que a natureza urbana daquela época lhes brindou. Aos nossos dias aquele momento apenas passou, e tão somente, como um começo sem relevâncias. Caso contrário já se teria rebuscado e reconstruído aquela face primordial da clássica Coari. A denominação de “Ruy Barbosa” àquela via foi aplicada nos anos vinte, uma vez que a morte daquele escritor ocorreu em 1923. Ele estava com 74 anos de idade. Praticamente a mesma idade da instalação do lugar da Villa ao município. O grande escritor da história literária do Brasil foi autêntico, politizado e um intelectual-observador ativo da sociedade e de suas questões políticas. A denominação, à Avenida primordial de Coari, veio como homenagem póstuma, naquele período em que tudo parecia ser mais glorioso ou, assim o faziam parecer (?). Na sintética obra didática, de Alpheu Tesariol - “Literatura”, temos um pouco da trajetória e características do citado vulto à história de Coari:

Ruy Barbosa tem um estilo altiloqüente, rico de imagens. Grande estudioso da língua. Gosta do arcaico e do novo e os emprega com perfeição. Deve-se buscar em Ruy a grandeza da palavra. Nasceu em Salvador (BA-1849) e morreu em 1923. Estudou Direito em Recife e terminou em São Paulo. Grande defensor do abolicionismo e da república. Exerceu a jurisprudência, teve uma vida política ativa e escreveu obras, onde confessa ser um patriota sincero. Em 1893 foi para Buenos Aires, Portugal e Inglaterra. Escreveu nessa época Cartas de Inglaterra (1895). Foi ministro da Fazenda da República. Candidatou-se duas vezes a Presidente da República, saindo-se derrotado. Representou o Brasil em Haia. Sucedeu a Machado de Assis, como Presidente da Academia brasileira de Letras... 

 

 

A PRAÇA CORONEL GAUDÊNCIO EUCLIDES SOARES RIBEIRO


Principal Praça da Villa de Coary, foto de 1928. Receberia várias nomenclaturas no decorrer das épocas e das várias administrações políticas: 1º de Maio, Coronel Gaudêncio (Gaudêncio Euclides Soares Ribeiro), Péricles de Moraes, Epitácio Pessoa, e, finalmente, a denominação que lhe foi conferida a 20 de setembro de 1938 (Praça Getúlio Vargas), por decreto de Alexandre Montoril.  Atualmente o banco Bradesco ocupa o local da prefeitura antiga com um moderno prédio. 



As praças instaladas em qualquer cidade do mundo são espaços democráticos à permanência dos que vivem, moram, visitam ou conhecem o local onde se encontram. São construídas e fundadas a promover o comércio, divertimento, pontos de encontro e celebrações cívico-sociais. Não importa se estão localizadas numa grande cidade do mundo, como a Praça Vermelha de Moscou (Rússia), ou num “lugarejo” qualquer do interior na Amazônia. Denotam várias eras aos habitantes e viajantes, por isso, muito mais que um lugar de encontros e celebrações, contam e recontam a história da cidade onde estão fundadas. Por isso representam o marco à identidade de determinado lugar. Maria Evany do Nascimento (2013) em sua: “Monumentos Públicos – Centro Histórico de Manaus” resume o contexto à praça:

Durante toda a história não houve uma cidade que não tivesse uma praça. Esses logradouros públicos eram projetados cuidadosamente para atender as necessidades do tempo e do lugar onde eram abertos. Nas praças aconteciam todas as decisões políticas da Grécia; as mortes pela Inquisição na Idade Média; as apresentações musicais, festas e comemorações políticas e populares até os nossos dias. Nossa época moderna, no entanto, criou lugares específicos para essas comemorações, para atender a um público consumidor e pagador de seu entretenimento. A criação desses espaços não anulou a criação das praças, porque essas constituem espaços para respirar dentro da dinâmica das cidades.

Em meados do século XIX, precisamente por volta de 1854, ocorreria a instalação definitiva do núcleo de povoamento urbano a “nova Alvelos”, a qual, vinte anos mais tarde, se tornaria a clássica Villa de Coary. Naquele remoto cenário hidrográfico, de um lago intacto, livre da poluição, da “modernidade” e das irregulares ocupações, aquele singelo âmago encontraria climatização e ordenação suficientes a ser condecorado como uma nova cidade. O local “pertencia”, até então, aos irmãos Tomás e Antônio José Pereira Guimarães. Na verdade, as terras não tinham donos definitivos, todas “pertenciam” ao Império, cedidas apenas a alguns colonos que, as explorava e demarcava, aos futuros municípios. Se houvesse necessidade de povoamento o Império indenizaria os posseiros provisórios. Geralmente o precário indenizatório não rendia muito.  Após serem compensados, aqueles poderiam viver no local como habitantes comuns, se assim o desejassem, entretanto sem ter mais os antigos direitos sobre o sítio. Foi dessa forma que, à mente de alguns, surgiria aquele velho pensamento provinciano de posse: “Fui o primeiro a morar nessas terras, sou o fundador.” Naquele tempo (séc. XIX), o governo do Brasil ainda estava sobre o regime da Monarquia. Éramos um reino de extenso território à América do Sul. Tudo pertencia ao Reino. A Villa de Coary seria oficializada pelo governo em Manaus, no dia 1º de maio de 1874. Mas à cidade isso só ocorreria no dia 2 de dezembro daquele ano. Praticamente, 25 anos, após a instalação primária do núcleo inicial de povoamento, a Coari, se conquistaria um título, o qual avalizaria sua permanência naquele ponto geográfico à posteridade. Segundo a obra de Anísio Jobim, a Villa de Coary em 1873 já abrigava uma considerada população em seus entornos:

Em 1873, um arrolamento procedido apresentava um total de 2.078 habitantes livres e cinco escravos, sendo 1.006 homens e 1.072 mulheres, 2.023 brasileiros e 55 estrangeiros. *in Jobim.

Não foi necessário o título oficial de villa chegar a aflorar o desenvolvimento. A velha localidade era construída pelos coarienses daquelas épocas com toda euforia. A partir de 1861 as características de uma pequena cidade já começariam a ser desenhadas às margens do lago de Coary. A primeira via de deslocamento de trânsito, sitiadora do porto de embarcações e passeio público, estava sendo talhada. Aquela primária estradinha daria origem à primeira rua do lugarejo, à clássica Avenida Ruy Barbosa. Ninguém sabe ainda afirmar qual foi o seu primeiro nome. As primeiras edificações de alvenaria eram erguidas, uma a uma, deixando para trás o cenário primitivo das velhas e estigmatizadas palhoças de barro (casas de aldeados) cobertas de palha-branca. Aquelas novas edificações seriam sedes da administração pública, comércio de estivas, residência dos administradores, do Pároco e dos grandes comerciantes daquele lugarejo. Todos esses formavam um conjunto urbano pelos arredores da primeira igreja erguida em honra à padroeira católica daquele lugar. A igreja foi elevada no local da então Praça de Sant´Ana. Essa era à frente da cidade naquela época. Até o final dos anos 20 essas características permaneceriam. Mas a nova igreja, desde 1909, suas obras eram fundadas à Praça de São Sebastião. Aquela catedral tem hoje seus 110 anos de fundação. Jobim consegue nos apresentar aquele ano como única data relativa à fundação da solene catedral de Coari:

Quando D. Frederico Costa passou em Coari (...) a igreja de São Sebastião ainda estava em obra, como ressalta em sua carta pastoral escrita em 1909. In Jobim, pg. 83.

A construção da nova Matriz representaria o crescimento populacional, razoável à Villa. Ao final da primeira década do século XX Coari ostentaria uma população de 7.891 habitantes.  A Praça de Sant´Ana, à época da chegada de Montoril (final dos anos 20 ), demarcaria o bairro de Sant´Ana (daria origem ao atual bairro de  Tauá-mirim), seria o lado oposto do Igarapé de São Pedro (ao sul). Do outro lado do igarapé (ao norte), onde está hoje a Praça Getúlio Vargas, rua Independência, XV de Novembro e Cinco de Setembro ficava o bairro de São Sebastião. Sediava a Catedral de São Sebastião (na antiga Praça de São Pedro).  A Rua Eduardo Ribeiro estava sendo talhada ao lado direito da primeira capela, situada a Rua Ruy Barbosa. A Praça de Sant’Ana não conseguiu se firmar como o local portuário da cidade. Então, o canto, onde foi erguido o sobrado do Major Deolindo Dantas, assumiria o local portuário as últimas décadas do século XIX, à boa parte dos anos vinte.   Os moradores mais humildes foram deslocados a residirem mais adentro do lugar (áreas periféricas), formando novos sítios e chácaras, os quais, mais tarde, dariam origem as novas ruas e bairros da Villa (como o Tauá-mirim e o Chagas Aguiar). O desenvolvimento daquele lugarejo era evidente e próspero a toda região. Aquela população de indivíduos mais humildes foi deslocada cada vez mais à mata adentro.  E assim surgiriam os bairros de Chagas Aguiar (antiga Estrada), Pêra, Duque de Caxias, Tauá-mirim (antigo Sant’ Ana) e Espírito Santo (o popular Morro).  À vista do Igarapé de São Pedro estava à ponte de madeira que ligava os primordiais bairros da localidade, assim nos diz Jobim:

A localidade é formada por dois bairros formados pelo igarapé de São Pedro que no verão seca completamente e no inverno toma bastante água, atingindo a uma largura de sessenta braças. Na estação invernosa torna-se esse igarapé excelente fundeadouro para as pequenas embarcações e mesmo para os vapores que ali vem encostar. Esses dois bairros estão ligados por uma grande ponte de madeira de lei que assenta sobre arcadas de alvenaria.    Mede essa ponte 102 metros de comprimentos sobre 3 de largura, e é guarnecida de singelo gradil de madeira em toda a sua extensão. E este é um dos pontos mais freqüentados de Coary. *in Jobim

A clássica ponte oferecia aos habitantes daquelas épocas o costume europeu, civilizado, de passeio ao final de tarde. Foi construída a muito esmero sobre aquele Igarapé, em 1896, pelo superintende Major Augusto Celso de Menezes. Este foi um dos primeiros a se preocupar com a paisagem frontal da Villa. As árvores que se via na Praça Getúlio Vargas e Rua Ruy Barbosa foram plantadas na administração daquele Major. Além da ponte, rearborizou toda a orla da cidade, mandou instalar um pequeno farol a balizar as embarcações que chegavam à noite. Celso também instalou 40 lampiões que delineavam toda a orla da cidade, sendo os mesmos postos a partir da Rua Ruy Barbosa à Praça Getúlio Vargas, à época ainda era denominada de Praça Gaudêncio Euclides Soares Ribeiro. Naquele momento, em Manaus, estava sendo construído o salão nobre do Teatro Amazonas. O uso da madeira regional, como piso daquele salão, inspirava alguns administradores ao glamour, pelo consumo gomífero. A Villa de Coary ostentava uma orla muito bem apanhada, apesar de ser uma localidade do interior. À noite, toda orla ficava iluminada, inclusive a ponte, pelas chamas bruxuleantes dos 40 lampiões aplicados às margens da paisagem do lago. Todo o iniciar de noite os lampiões eram acesos, com toda pompa, à presença dos moradores que saiam ao passeio vesperal e permaneciam nas ruas até o escurecer. A energia elétrica não existia, por isso, nos lares da época, se usavam das antigas lamparinas, lampiões e antigas velas de cera. O Amazonas vivia naqueles instantes os anseios à bele epoque, pois estava sendo estruturado em Manaus, ao período, uma nova metrópole ao mundo ver. A praça principal da Villa, naquele momento, era considera da atual Praça até os extremos da Ruy Barbosa. A Ponte que ligava um canto a outro da orla também estava localizada naquele contexto. Era um logradouro amplo, de ligeiro estilo europeu. Coari viveu naquele final de século seu momento “veneziano”. Não havia no interior do Amazonas outra Praça com uma ponte em suas extensões urbanas. As canoas que ali encostavam servia ao passeio da elite, pelas margens do lago, ao pôr-do-sol. Residir às margens daquele, na antiga Villa de Coary, era um sonho de consumo, apenas e, tão somente, aos que podiam adquirir aquele privilégio. Em geral, as altas autoridades locais, administradores públicos, os donos de comércio de estivas e os comerciantes de produtos regionais (dentre os quais, a nobre borracha). Foi assim que toda orla da cidade foi sendo sobrepujada e ocupada pela elite daquela época. A Avenida Ruy Barbosa era exterminada ao norte pelo extinto Igarapé de São Pedro. Naquele ponto, o sobrado dos Dantas foi construído ao final do século XIX, impondo a soberania político-social ao restante do lugarejo. Era a única residência de dois andares localizada na Villa. Nas sacadas das janelas, no segundo piso, com vista para todos os ângulos do lugarejo e do lago, o major Deolindo Dantas assistia o alvorecer de Coari ao início do século XX. Seu casarão delimitava o poderil socioeconômico maior à Villa. Era o marco do poder daquele lugarejo. Mas apos construir o novo Porto de chagada e partida a cidade, Montoril constói a Villa Alvaro Maia ( que com o passar do anos se tornou propriedade da família Ribeiro ).  O antigo porto de chegada e partida estava situado bem naquela subida, à terra firme, às margens do São Pedro. Os que chegavam, pela primeira vez, ao ver o elegante sobrado, sabiam que havia “gente importante” residindo ali. O poder político da família Dantas começaria em Coari a partir de 1899, com a nomeação do Intendente municipal João Dantas de Oliveira. Nesse meio tempo, em Manaus, um coariense ilustre era projetado a administrar os destinos do Estado. Chamava-se Silvério Nery:

Dr. Silvério José Nery nasceu no município de Coari, a 8 de outubro de 1858, sendo filho do major reformado e seu homônimo, Silvério José Nery e da senhora Maria Antony Nery. Silvério Nery, nome que o tornou conhecido nos meios políticos amazonenses, assumiu o governo do Estado do Amazonas no período de 23 de julho de 1900 á 2 de dezembro de 1903, quando passou o cargo ao seu substituto legal, monsenhor Francisco Benedito da Fonseca Coutinho, que concluiu o mandato até o dia 23 de julho de 1904, data imposta pela Constituição Estadual para o término da gestão. Morreu a 23 de junho de 1934 em Manaus, tendo o Dr. Aristides Rocha pronunciado um emocionante discurso na hora dos funerais, conforme informa o escritor Agnello Bittencourt no livro Dicionário Amazonense de Biografias. *Jornal do Comércio de 2006

 

A influência dos Dantas, ao cenário político da Villa, seria interrompida quando Alexandre Montoril fosse nomeado o novo Intendente (prefeito), ao final da década de 1920. Montoril chegou em 1927 encarregado de investigar o assassinato do prefeito Herbert Lessa de Oliveira. Daí pra frente seria não se demoraria a ser destacado como o novo prefeito da Villa de Coary. O último Dantas de que se têm notícias, a ocupar um grande cargo político, foi o filho do rico major Deolindo, eleito deputado estadual à década de 1940 (o popular Dandi). Deolindo era tão rico (e vaidoso) que mandou estampar seu nome na calçada à frente de seu sobrado. O intuito era impedir a passagem de qualquer um pela mesma. Puro orgulho. Em 1917, Luis Alfredo Dantas era mais um remanescente daquela família que compunha o corpo de vereadores da Villa. É a nova influência de Montoril à cidade que a modificaria, completamente, tanto o cenário político quanto urbano. Era a típica ambição nordestina que guiava a vaidade de Deolindo e Montoril. Ambos eram nordestinos. O novo núcleo de povoamento seria instalado pelos arredores de sua residência à atual Praça Getúlio Vargas. As novas intervenções urbanas de Montoril desagregariam os valores históricos ao lugar inicial da Villa aos nossos dias. O igarapé de São Pedro separava os locais de morada dos oponentes políticos: Deolindo (bairro de Sant’ Ana) e Montoril (bairro de São Sebastião). Do alto de sua janela, na sacada do imponente sobrado, Deolindo avistava a casa de Montoril na Praça que estava sendo moldada a sua nova representatividade política. Da frente de sua residência, Montoril enxergava o sobrado de Deolindo sendo esquecido no tempo, junto à velha história da antiga Villa. A chegada de Montoril demarcaria o alvorecer de Coari, como uma nova cidade ao Estado, a ser explorada e moldada a um novo tempo. As mudanças seriam rigorosas a um povoado que detinha ainda velhos costumes regionais. Decretos impositores com proibições a várias atitudes e hábitos do lugarejo, naquelas épocas, foram estabelecidos e impostos. Na frente da cidade, onde havia os passeios de final de tarde, não se podia mais lavar roupas, muito menos estendê-las por ali; não se podia pescar, pular n’agua e nem tomar banho de rio, muito menos, consumir bebidas alcoólicas às margens do igarapé. Após as vinte e uma horas, era proibido, a qualquer cidadão, permanecer pelas ruas e calçadas, muito menos ingerindo bebida pela rua. Quem possuía terrenos pelas redondezas da Praça deveria mantê-lo limpo e cercado, caso contrário a Prefeitura o confiscaria. Muitos foram confiscados. Nos dias de comemoração das datas cívicas, o povo era “convocado” a comparecer à Praça, a cantar o hino nacional e à audição das oratórias dos administradores. Os que se recusavam, recebiam o “convite” pela voz de policiais e de outros emissários à celebração. Essas medidas agradavam apenas aos seguidores do mandatário, ao povo em geral não. Como muitas mães de família precisavam das áreas do igarapé central, a lavagem de roupas ao sustento dos filhos, não cumpriam os decretos. A guarnição de polícia de época não dava conta de prender tanta gente, principalmente à noite. Então, o que findou sendo resolvido por Montoril foi acabar com o cenário dos ocorridos. Assim sendo, os “desordeiros” teriam que buscar outros rumos. Foi assim que começou os projetos ao aterramento do igarapé de São Pedro, demolição da ponte à bele epoque e de todos os outros adereços necessários aos ajustamentos disciplinares. O povo reclamava, mas de nada adiantava. Havia os que invocavam os nomes de seus antigos administradores, como o dos Dantas, mas apenas irritava a Montoril: “No tempo do seu Deolindo todos podiam fazer isso aqui!” Nessa “disputa”, ganharia Montoril e perderia o centro histórico. Sua grande ação de iniciar os aterramentos a se anular a velha Praça Coronel Gaudêncio, provocaria a ambição da nova elite a um crescimento constante e desordenado. Montoril foi o primeiro administrador público a intervir nos espaços urbano-históricos de Coari, à era moderna da cidade. Quando chegou a Villa, ao final dos anos 20, a praça central era denominada com o nome de Péricles de Moraes. Este é o nome do escritor consagrado do Amazonas e foi nomeado prefeito constitucional de Coari a 13 de abril de 1926. Foi prefeito antes de Herbert Lessa. Péricles de Moraes morou naquela praça a partir dos anos 20 (século XX):

Péricles de Moraes é amazonense de Manaus, filho do político Severo José de Moraes e D. Evarista Mello Moraes. Fez seus primeiros estudos em Manaus e os chamados Humanidades, em Belém do Pará. Foi professor, jornalista, Político, Escritor, Acadêmico, foi estilista por excelência. Foi prefeito municipal de Coari em, e de Parintins em 1926. Foi fundador da Academia Amazonense de Letras e, por vários anos, presidente da mesma. Em agosto de 1956 a Academia publicou em sua revista, no Jubileu Literário, A trajetória do escritor e de sua vida.   *Foto de Péricles de Moraes em 1952, última foto feita do escritor. *Epitácio Pessoa era a denominação da Praça Getúlio Vargas, antes de Péricles de Moraes. Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa nasceu em Umbuzeiro, na Paraíba, em 23 de maio de 1865. Teve uma grande trajetória na vida política do país. Em 1919 chegou à Presidência da República. Seu governo foi marcado por crises sociais e políticas que anteciparam o fim da República velha. Aos 7 anos perdeu os pais, por isso foi educado pelo tio materno, Henrique Pereira de Lucena, na época governador de Pernambuco. Foi educado no Colégio Pernambucano, depois se formou em Direito na faculdade de Recife em 1887. O escritor Anísio Jobim se formaria na mesma instituição no começo do século XX. Ao deixar a presidência Epitácio assumiu o cargo de juiz na Corte Internacional de justiça, em Haia, na Holanda. Lá ficou até 1930.   Epitácio era tio de Fernando Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas. Morreu em 13 de fevereiro de 1942. *acervo da internet

Em geral, aquela Praça se tornaria o local de morada dos prefeitos da época. Anterior a todas essas denominações, aquele logradouro foi chamado, originalmente, de Praça 1º de Maio (referência ao dia de emancipação da Villa e do Município, em 1874). Esta denominação seria esquecida na época da proclamação da República. Coronel Gaudêncio, o que administrou Coari, após aquela proclamação, em 1889, daria seu nome aquele logradouro. Segundo Anísio Jobim:

Gaudêncio era um governante de muito prestigio da política local, trazia uma tradição do tempo da monarquia, como um dos chefes mais influentes. Era advogado provisionado e proprietário no município. Depois foi eleito Deputado ao Governo do Estado. A principal Praça de Coari tinha o seu nome como uma consagração aos seus serviços; mas há poucos anos mudaram-lhe o nome para Epitácio Pessoa.



Rua Ruy Barbosa nos anos de 1920 da Villa  de Coary.



Em 1938, por decreto municipal do governo de Montoril, a história da cidade perderia grande parte de suas características clássicas a dar início uma trajetória moldada pelos domínios e ostentação dos novos governos. Depois de Montoril a Praça continuaria com a mesma denominação dos últimos 80 anos, porém, com várias intervenções constantes em seus entornos. Mais um nome e, personalidade, que denominou a Praça central da velha Villa, se destacou à história da antiga Villa: Epitácio Pessoa:

Epitácio Pessoa era a denominação da Praça Getúlio Vargas, antes de Péricles de Moraes. Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa nasceu em Umbuzeiro, na Paraíba, em 23 de maio de 1865. Teve uma grande trajetória na vida política do país. Em 1919 chegou à Presidência da República. Seu governo foi marcado por crises sociais e políticas que anteciparam o fim da República velha. Aos 7 anos perdeu os pais, por isso foi educado pelo tio materno, Henrique Pereira de Lucena, na época governador de Pernambuco. Foi educado no Colégio Pernambucano, depois se formou em Direito na faculdade de Recife em 1887. O escritor Anísio Jobim se formaria na mesma instituição no começo do século XX. Ao deixar a presidência Epitácio assumiu o cargo de juiz na Corte Internacional de justiça, em Haia, na Holanda. Lá ficou até 1930.   Epitácio era tio de Fernando Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas. Morreu em 13 de fevereiro de 1942. *acervo da internet

Todavia há também uma trajetória posterior a chegada de Montoril em relação à principal Praça de Coari. Desde 1874, receberia mais de três denominações até se estabelecer a que se conhece hoje. Aquela nova denominação, atribuída por Montoril, ficaria sendo mesmo a de sempre: “Praça Getúlio Vargas”. Até hoje é a denominação mais conhecida dos coarienses. Depois que ganhou essa alcunha não a perderia mais. Perderia apenas suas características físicas primárias como: o marco-zero (obelisco de 1940), o busto de Getúlio Vargas (final da década de 1930), coreto à música (construído em 1937), as árvores plantadas às últimas décadas do século XIX, o chafariz azul (anos 60) a elegante ponte de madeira sobre o Igarapé de São Pedro, o próprio igarapé... Todos esses elementos, através de uma longa história, foram instalados ou/e retirados daquela praça, conforme o capricho e a presunção dos governantes de cada época da cidade. Naquele tempo, não havia proibições ao batismo de locais públicos com as personalidades ainda vivas. Os falecidos, como o prefeito Herbert Lessa de Azevedo, eram totalmente esquecidos naquele auge do poder. Entretanto, em 1952, a Assembléia Legislativa do Estado formulou uma homenagem póstuma ao prefeito morto em Coari em 1927, mas com o passar das épocas, também, essa foi esquecida aos dias atuais:

Cinqüentenário do nascimento do Prefeito Dr. Herbert Lessa de Azevedo – O Amazonas comemorou a 3 de maio último o cinqüentenário de nascimento do Prefeito Herbert Lessa de Azevedo, assassinado a 23 de junho de 1927, em defesa da terra e da sua gente, por vinte indivíduos alcoolizados, vindos em batelões do rio Apaurá, e que assaltaram a cidade e a Prefeitura, sob o pretexto de questões de terras, com as quais a autoridade municipal nada tinha, e matar diversas personalidades locais. O Dr. Herbert Lessa de Azevedo defendeu a cidade e a sua Prefeitura, caindo morto, varado por diversas balas. O Amazonas rendeu-lhes todas as homenagens – uma herma com o seu busto em bronze na Praça Alfredo Sá, em Manaus, obra do escultor A. Zany; uma rua com o seu nome na capital; o conselho municipal autorizou o Prefeito Dr. Francisco Pedro de Araújo Lima, o autor de Amazônia, a publicar um livro com tudo que se referisse ao moço amazonense tendo o In Memórian aparecido em 1930; a Assembléia Legislativa, o Poder judiciário, e todo o Estado renderam-se provas de gratidão. O município de Coari, importante cidade do rio Solimões, prestou-lhe grandes homenagens, - o seu nome no grupo escolar e na praça central; o seu retrato a óleo no salão da Prefeitura Municipal; enterramento acompanhado de todas as autoridades, famílias e povo e sepultura perpétua. Todos os municípios do Amazonas, sem exceção, deram a escolas, praças e ruas o nome do prefeito assassinado no cumprimento do seu dever. O Dr. Herbert Lessa de Azevedo era bacharel em ciências jurídicas e sociais, funcionário postal, tendo sido secretário de seu pai, o escritor Raul de Azevedo quando este era o administrador dos Correios do Amazonas e Acre, Prefeito de Parintins e Coary. Tinha 25 anos de idade quando foi assassinado. *fonte jornal diário da tarde, maio de 1952.

A Prefeitura de Coari, citada na notícia do antigo “Jornal da Tarde” de Manaus, encontra-se demolida a mais de sessenta anos. A tela a óleo, ao jovem prefeito morto, não se tem notícias muito menos o grupo escolar com o seu nome. À cidade, apenas uma das ruas do bairro de Chagas Aguiar possui seu nome. Até hoje continuam as intervenções que promovem o esquecimento à história e memória social, deixando o local cada vez mais sem identidade e referências cronológicas. O que também é corriqueiro em todo o país. O cenário da praça primordial de Coari seria esquecido mesmo para sempre. E ainda ficaria a questão: Qual seria mesmo seu cenário original?! A mesma teve seu panorama tantas vezes modificado que findou perdendo sua analogia para sempre. Todas as intervenções, provocadas por Montoril, destoariam ao momento inicial da cidade. Deixaria um legado de mal-entendidos históricos causando a impressão de que toda a biografia, à fundação da cidade, havia começado ali naquela Praça. Daí se pode perceber como um administrador, sem visão de preservação à identidade da história pública, é capaz de “corromper” a história memorial em si e, de toda uma cidade. Contudo, Montoril teve seus grandes méritos, conseguiu desenvolvê-la e ampliá-la. Passou por cima do que não conhecia, pois não era coariense, deu à cidade a cara que o quis. A rua XV de Novembro “passou a existir” por que ele foi residir na mesma. E assim foi moldando um novo cenário aos anseios daquela nobre época e também os de seus próprios. As intervenções de Montoril causariam às futuras gerações sensação de que Coari nasceu na Praça Getúlio Vargas e não na Rua Ruy Barbosa. Ao local da Praça, onde fica o sobrado de Deolindo, Montoril foi dando cada vez menos atenção. Aquele local chegou aos nossos dias esquecido e desamparado, situação que tomou conta de todo o percurso histórico da Rua Ruy Barbosa. A velha Praça Gaudêncio Euclides Soares Ribeiro, iluminada pelos nostágilcos postes de lampião (a querosene) do tempo da Villa e da bela epoque, traçada por uma elegante ponte de madeira, jamais seria recordada à memória dos coarienses do futuro. Os projetos da modernidade têm essa função (dilaceradora): apagar da memória dos povos suas raízes, identidades sociais e história primária.  Além de abocanhar, também, a condição humana de ser e de se viver como homem típico de um lugar. O implante de idéias, emprestadas dos grandes centros urbanos, e dos projetos da globalização, tem ainda a capacidade de “idiotizar” a essência da coletividade aos lugares mais remotos do planeta, suplantando anseios à modernidade que auxiliam o destroçar a originalidade dos povos. Quando se apaga uma história à mente de uma coletividade, rapidamente se impõem e se implantam novas ordens sociais, culturais e outras idéias de filosofia e política. Essas novas correntes esvaziam todo o sentido de origens primárias daqueles. Assim surgem as novas gerações, sem memória e sem história, sem respeito e, desconhecedores da ancestralidade de seus entes sociais. Essas novas gerações, desprovidas de suas defesas patrimoniais, tornam-se alvos fáceis aos anseios correntes de dominação. Tornam-se cativos das falsas idéias de desenvolvimento e progresso, pois a educação, produção cientifica e pesquisa não são estimuladas. Toda grande nação desenvolvida só cresceu e se estabeleceu por que investiu em patrimônio memorial e produção cultural, também impiedosamente em educação. Assim conseguiu diminuir pobreza, analfabestimo, desigualdade humana e social. Em países subdesenvolvidos, como Brasil, esses fatos são todos recorrentes à atualidade: pobreza, analfabetismo, desigualdades e, ainda, a intolerância social constroem o cenário inovador aos remotos lugarejos da nação.

 

O CENTRO HISTÓRICO DE COARI


Antiga Praça de São Pedro, hoje a Praça de São Sebastião. Centro histórico de Coari em 1927. * foto da obra de Anísio Jobim



Um centro histórico, a qualquer cidade do mundo, é o local onde começa seu núcleo de povoamento e suas edificações primordiais. É a área clássica, onde se instalam seus monumentos de época e, as aplicações de características sólidas e universais cujo sempre narrarão à raiz popular de sua gente, às suas futuras gerações. O centro histórico de uma cidade é o seu “registro de nascimento”, assim como cada um de nós tem o seu. Não se pode modificá-lo senão perde-se a identidade.  Modificar, indevidamente, o documento de registro de nascimento a qualquer sujeito dentro do território nacional (e também internacional) é crime grave - de “falsidade ideológica”. Então, se houver intervenções institucionalizadas, dentro de um espaço público, a memória daquele deverá ser preservada à posteridade.  Como patrimônio clássico, a ser preservado, o centro histórico da cidade de Coari-Am, compreenderia toda a área central: das margens do igarapé do Espírito Santo (de trás do mercado municipal na Rua Independência) até os limites da Rua Eduardo Ribeiro (próximo do lago de Coari). Porém, à atualidade, apenas restou à memória social e cultural daquele lugar, imaterialmente. Em 1932, quando a antiga Villa de Coary recebe seu predicativo de Cidade, ocorre uma corrente política de anseios à realização e modificação do cenário tradicional da outrora Villa. Não houve apego ao que a mesmo fora em outras décadas, por isso havia uma vontade político social em dinamizar o antigo cenário a um conjunto inovador de obras. As divergências políticas, entre os grupos de caciques, Alexandre Montoril e Deolindo Dantas, pode ter sido um dos fatores as intervenções da velha Villa. Um outro fator, foram os acontecimentos trágicos ao município, ocorridos na década de 20 daquele século. A Villa de Coary parecia ter anseios a esquecer o que de ruim os anos de 1920 haviam lhe provocado. Aquela década chegou trazendo as crises, econômico-financeiras, do final da primeira grande guerra. Em seguida, os acontecimentos de sinistros do naufrágio do Vapor Paes de Carvalho (1926) e, o assassinato de Herbert Lessa de Azevedo (1927), provocou uma onde depressiva social. Foram duas tragédia, subseqüente, difíceis de serem superadas. As intervenções de Montoril, o prefeito da nova cidade em 1932, dariam um novo gás e estímulo social ao lugarejo. Não bastava ter apenas um título de cidade no papel, era preciso ter uma nova face que a representasse ao restante da região do Solimões. Montoril tanto o fez que, em 1937, uma das revistas de época do Estado, a Cabocla, apresentava as obras e mudanças promovidas por ele. “Naquele tempo” não se pensava em preservação de cenário histórico e muito menos, manter as características de fundação de lugar algum. Por isso o cenário da antiga Villa de Coary foi sendo esquecendo. Muito mais, os opositores de Montoril residiam num dos principais pontos daquele cenário de origem: a Avenida Ruy Barbosa. O que restou, pois sempre resta, a atualidade da cidade de Coari, como obra e memória conta e reconta as evoluções aplicadas ao Centro Histórico atual. Vários prédios, casas e, a praça símbolo da cidade, se não foram descaracterizados foram demolidos, ao longo dos anos e décadas dos séculos XX e XXI. Dessa forma não há mais tantos pontos seculares a serem rebuscados. Sempre já existe um algo novo, instalado, onde no passado foi uma outra coisa. O local aonde foi edificado o casarão do Major Deolindo Dantas é um dos poucos lugares de preservação histórica à cidade. O Grupo Escolar, Francisco Lopes Braga, situado na Praça de São Sebastião, e o conjunto arquitetônico daqueles espaços, também são locais a serem sempre preservados. Ao passado, o Centro da cidade era dividido em dois pequenos bairros: Sant’ Ana e São Sebastião.  Após intervenção, à moderna infraestrutura, à paisagem clássica, aplicou-se um novo caráter urbanístico ao resultado de todas essas interferências arquitetônicas, à originalidade do cenário da cidade. Muitos aterros foram feitos, aqueles converteram remotos e magníficos igarapés às novas ruas, e essas ruas deram nova ordem ao cenário atualizado da cidade. Foram àqueles aterramentos todos que designariam o novo panorama, o qual se tem hoje pelo Centro daquela cidade. Os igarapés do Espírito Santo e o de São Pedro foram grandes sucos líquidos, os quais tiveram seus cursos isolados, ou totalmente aterrados. O de São Pedro foi o mais afetado, hoje não existe mais. Restaram apenas galerias de esgoto, enterradas sobre toneladas e toneladas de terra, por onde o mesmo passava nos primórdios da outrora floresta nativa e sítios da cidade. Sua foz estava no lago de Coari, onde hoje está à atual Praça Getúlio Vargas. Sempre vai haver um algo novo aonde antes havia um algo clássico. O outro igarapé ainda existe (e resiste), felizmente, é o do Espírito Santo que adentrava pela divisa do bairro de Chagas Aguiar, com o Centro da cidade, vindo pelas partes baixas do local denominado de “Alto-do-Bode”. Chegava até a parte que se situava do lado (baixa) do tradicional e, clássico colégio católico, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Com o aterramento daquele trecho, naquela parte baixa, alongou-se o percurso da Rua 15 de Novembro até se cruzar com a Rua Gonçalves Lêdo. Por décadas, o serviço ficou abandonado pelo poder público municipal. Por isso, praticamente, não se considerava, como parte da Rua XV de Novembro, o trecho daquela remota baixada. Foi necessário aguardar toda a década de sessenta passar a se fazer os ligamentos atuais. Aquele aterramento (da baixada do colégio N. S. do P. Socorro) foi iniciado nos anos setenta, mas somente em meados dos anos noventa receberia, finalmente, galerias de esgoto e pavimentação. Foi o prefeito Odair Carlos Geraldo quem finalizaria a obra (1993) cujo desamparo permaneceu por décadas e décadas seguidas. As altas ladeiras que se tem hoje, pelo Centro urbano de Coari, identificam os locais (em suas partes baixas, por onde se cruzavam os limites dos extintos igarapés. São exemplos desses vestígios ruas como: Gilberto Mestrinho (que desce na direção da Praça Getúlio Vargas); a baixada da Rua XV de Novembro, indo em direção a estação de tratamento de água da cidade. E o maior dos exemplos: a alta ladeira da Rua Dois de Agosto (a antiga ladeira da Cá), bem ao lado direito do atual prédio da prefeitura municipal – o Palácio Dois de Agosto. Analisando essas grandes intervenções urbanísticas, provocadas dos anos sessenta pra setenta, podemos reconstruir, no imaginário, como seria a paisagem original do lugar aonde se resolveu assentar a cidade de Coari. Aquela paisagem natural (original) era totalmente voltada a um cenário de igarapés, rodeado por muita natureza nativa, sendo que os sucos daqueles escorriam por toda aquelas áreas onde o Centro da cidade foi instalado. Com a reordenação paisagística, desintegrou-se o cenário que antes formava dois bairros, e o transformaram em um Centro único. Este novo núcleo começa na rua que beira às margens do lago de Coari (no igarapé do Espírito Santo, por trás do atual mercado municipal), subindo até a Rua Eduardo Ribeiro. Esta é a rua que faz o limite do Centro, com os outros bairros, a oeste do Centro clássico da cidade. As principais ruas daquele núcleo, redenominadas, receberam terminologias que identificam datas históricas, de grandes acontecimentos, tanto do país e Estado quanto do próprio município. Tudo iniciando na Praça que, possui o nome do ex-presidente militar: Getúlio Vargas. A denominação de Getúlio Vargas foi atribuída àquela praça em 1938. Foi Alexandre Montoril quem mudou o nome, pois antes, se chamava oficialmente de “Péricles de Moraes”. O decreto municipal, de nº 30, de 20 de setembro daquele ano, extinguiria o antigo nome. A praça foi construída para celebrar a condição de Vila que Coari recebeu em meados do século XIX. Vem do tempo do Lugar de Alvelos. Aquele local é mais antigo que a própria cidade, pois foi fundado por ocasião da elevação de Lugar à Villa em 1874. Entretanto, o local era mais estreito e menos representativo quanto o é ao hoje. Na verdade, a Praça se estendia até o inicio da Ruy Barbosa, tendo a antiga ponte de madeira como seu prosseguimento artificial ao cenário. Atualmente, o maior monumento que se ostenta, pelos espaços daquela área, é a estátua do Cristo redentor (católico). Se no futuro ocorrerem às previsões, de estatísticas, a que a maioria da população do país tornar-se-á evangélica, aquela sofisticada imagem (de cunho católico) correrá o risco de desaparecer dos espaços daquele Centro Histórico. As denominações neo-petencostais (e também as tradicionais), não têm reminiscência de cultivar monumentos religiosos como os católicos. Desse modo pode-se ocorrer (no futuro) uma nova intervenção naquele cenário alegórico, de adereços e monumentos, ao ambiente do centro histórico daquela cidade. Um dia, num momento mais harmonioso e humano, junto ao meio ambiente, houve uma paisagem de muitas árvores e de muito mais verde naqueles recintos da cidade. Tudo foi dissolvido quando a sociedade se tornou mais “asfalto e concreto”, digo: “fria”. Então pode-se haver uma nova e grande mutação naquele cenário, ao futuro, se aquele monumento católico tiver de ser retirado. Enquanto isso o monumento segue como ponto turístico ao município. Apesar dessas suposições, parece que a falta de estilo ou exagero de caprichos a se homenagear o presidente Vargas, no cenário daquela Praça, tornou-se algo meio que piegas naquela década. Praticamente, a toda cidade, fundada no interior do Estado naquele período, firmou o nome do ditador em alguma de suas Praças ou Avenida principal. Barcelos, Urucurituba, Itapiranga, Tefé e Carauari são cidades que também ostentam o nome do ditador militar, em uma praça ou rua de suas áreas urbanas históricas. Não faltam naqueles municípios, também, logradouros com o nome de Eduardo Ribeiro. As grandes questões e acontecimentos político-sociais são os grandes agentes definidores, em nosso país, dos nomes e das caracterizações dos logradouros, com a denominação de seus “heróis” ou “vultos históricos” relevantes. O militarismo do período revolucionário (anos 30), e o dos anos sessenta, ainda nos marcam a memória social, pela lembrança nominal impressas nesses locais, ao passeio público. Nós, enquanto sujeitos do ocidente do mundo (de países subdesenvolvidos), somos ainda reféns de doutrinas político-religiosas que não nos permitem afirmar nossa identidade social, a própria autonomia humana de ser. É preciso mais investimentos em educação a sermos mais livres. Infelizmente não os temos.  As ruas, do centro histórico de Coari-Am, ou pelos menos as que mais se destacam, em termo de celebrações e fatos, são: Independência - alusiva ao sete de setembro de 1822 e, ao 7 de agosto de 1932; XV de Novembro - alusiva a proclamação da República brasileira em 1889; Cinco de setembro - alusiva ao reconhecimento do Estado, à categoria de província (a 5 setembro de 1850); Dois de agosto, elevação de Coari à categoria de cidade (1932); Dois de dezembro, dia em que o município recebeu o camarista que homologou, na cidade, sua elevação à Villa do segundo reinado, de 1º de maio do ano de 1874. Todavia cada uma dessas já teve pelo menos dois ou três nomes anteriores. Alguns nomes de vultos históricos, do Estado e do país, também denominaram ruas naquele núcleo urbano: Eduardo Ribeiro e Gilberto Mestrinho (ex-governadores do Estado); Benedito Ruy Barbosa (escritor brasileiro); e Marechal Deodoro (militar de destaque da proclamação da República), foi o primeiro mandatário pós-Império. As ruas menores, mas não de menor expressão, na área de mobilidade urbana, praticamente todas foram denominadas com nomes de habitantes ilustres da cidade de Coari-Am. Aqueles habitantes, de alguma forma, contribuíram ao desenvolvimento sócio-político do lugar. São personalidades como agentes públicos, políticos e professores: Américo Leitão, Maria Higina, professor Góes e Travessa Raimundo Motta.  Para representar os nomes dos antigos bairros que antecederam os locais que hoje conhecemos apenas como Centro, temos a Praça da Matriz de Sant’ Ana, denominada de São Sebastião.  Aquela era a parte alta da cidade e, até a década de 1950, era o bairro de São Sebastião. O bairro de Sant’ Ana ficava na parte “baixa” da cidade, do trecho compreendido a partir da Dois de Dezembro (iniciada na antiga Praça 1º de Maio) até a atual Eduardo Ribeiro. Bem no limite do Centro com o Tauá-mirim, onde está instalada a Estação Meteorológica da cidade. Ali nasceu a Vila de Coary... Foi naquele local que se ergueu a primeira igreja católica em séculos remotos (século XIX). Mais tarde, a inspiração e invocação a antiga igreja, foi transferida aonde se encontra atualmente a Catedral de Sant’ Ana e de São Sebastião. Sobre a Igreja Matriz da cidade, Anísio Jobim e Francisco de Vasconcelos, em diferentes épocas, nos dão testemunho do percurso de construção daquela sacra casa do Senhor e de Nossa Senhora.  A igreja está instalada por lá a muito mais tempo do que possamos imaginar. A Catedral “nasceu” junto a Vila de Coary, viu o tempo correr e passar. Batizou milhares, uniu em matrimônio outras centenas, velou ilustres e anônimos, ofereceu à Comunhão a outros tantos.  Assim se torna uma edificação presente à memória social e ao panorama urbano daquela cidade. Sem a Catedral, Coari não “existe” aos atuais coarienses, e vice-versa. Seu valor de lembranças está atrelado à veia urbana da cidade, a uma questão de arquitetura e comportamento de época, muito mais que o da religiosidade em si. Embora seja o símbolo histórico, maior, à fé católica na cidade. Mas um dia, não a tínhamos, até que se resolveu construí-la. Sua fundação á cidade denotaria nova identidade aos ares de Coari.  Anísio Jobim, em sua publicação de 1933, ora sobre a mesma:

A criação oficial da Paróquia é de 1774, segundo um mapa organizado pelo Governo em 1860 (...) A actual matriz de Coary dedicada a São Sebastião, foi erguida mediante subscrição popular. Foi um gesto piedoso, animado, e dirigido pelo Padre espanhol Victor Merino (...). E a egreja ergueu-se no alto da colina, sorrindo aos espaços azuis, toda garrida, elegante, a sua torre a prumo, dominando a redondeza (...) Ladrilhos de fino mosaico, em parte, presente do Senador Sylverio Nery, filho de Coary, do Dr. Francisco Satyro Vieira Marinho e outros. 

O texto está de acordo com o português daquela época, escrito na obra de Anísio Jobim. A Rua Padre Victor, do Centro da cidade, é uma referência ao padre que empreendeu, primordialmente, a construção daquela Catedral. Padre Victor Merino. Silvério Nery foi um grande idealizador de monumentos ao Estado. Foi dele a proposta do monumento (de 11 de maio de 1883), em homenagem ao primeiro governador da provinha do Amazonas – Tenreiro Aranha, que até hoje está instalado na Praça 5 de Setembro – a popular Praça da Saudade do Centro de Manaus-Am. Todavia, ao início dos anos 30, aquele era localizado na atual Praça Tenreiro Aranha (onde se comercializa artesanato regional – Centro comercial de Manaus). Francisco de Vasconcelos nos remonta à igreja e aos tempos de sua infância, aos anos trinta do século XX.  O local onde a igreja foi erguida é um ponto alto no Centro da cidade. A quem chegasse pelo lago, logo a veria ainda de dentro da embarcação de viagem. Além da predominância daquela igreja à história da cidade, havia um trabalho paisagístico e arquitetônico a causar um singular impacto visual aos que chegassem pelo rio, e a contemplassem, ainda de dentro das águas do azulado lago. Daquele modo, causaria sempre uma notável referência de identidade, a todos os olhares. Tanto do habitante nato quanto dos que vêm pela primeira vez à cidade. Aquela figura arquitetônica sempre imprime uma eloqüente referência citadina. Até hoje, quando se chega a Coari, de barco, se busca o contato visual à mesma, por entre os modernos prédios que já se erguem a sufocar sua lírica imagem, a de singular e bela Catedral. Vejamos o impacto de Vasconcelos, ao rever a Matriz de sua Coari de infância, no momento que retorna à cidade no final dos anos noventa (1997). Assim nos revela em sua obra:

A igreja, também, embora conserve sua nave original, mudou muito, pelos acréscimos que recebeu em ambos os lados, tomando ares de basílica (...). Os altares parecem ser ainda os mesmos. Mas não vejo os afrescos pintados por Irmã Georgeana, uma das quatro freiras americanas que ali chegaram quase ao fim da década de 40. Externamente, também sofrera alterações, com o acréscimo de duas torres laterais.

Pelas memórias de Vasconcelos, percebemos que a Matriz da cidade nem sempre foi do jeito que a conhecemos. E quanto à história daquela santa padroeira, que muitos não conhecem, mas é venerada pelos coarienses católicos desde que Coari-Am começou a existir, universalmente, temos o seguinte enredo, narrado da obra de Nilza Megalhe, em seu - O Livro de Ouro dos Santos:

Casada com São Joaquim, é a mãe da Virgem Maria e avó materna de Jesus Cristo. Certo dia, quando rezava em seu jardim, apareceu-lhe um anjo de Deus dizendo: Ana o senhor escutou tua súplica. Conceberás e darás à luz uma menina, que se chamará Maria, e de tua prole falar-se-á em todo o mundo. Ana então prometeu a Deus oferecer sua filha ao Senhor, para que permanecesse ao seu serviço. Quando a filha completou três anos, apresentou-a no templo, para que ela se dedicasse ao serviço do Altíssimo. O Imperador Justiniano mandou erguer uma capela à Sant’ Ana em Constantinopla, no ano de 550. Somente no Século XVI foi instituída sua festa e escolhido o dia votivo de 26 de julho, por bula do Papa Gregório III. Por isso costuma-e chamar julho o mês de Sant’ Ana. A devoção a Sant’ Ana era muito comum no período colonial brasileiro e, além de várias paróquias erguidas sobre a sua proteção, são inúmeras as imagens da mãe de Nossa Senhora em diversas igrejas do Brasil. Ela é protetora das mulheres casadas, principalmente futuras mães. Ela protege as mães durante o parto, para que sejam rápidos e felizes, e ajuda as estéreis a gerarem filhos. Na iconografia religiosa ela quase sempre aparece com Nossa Senhora menina, algumas vezes no seu colo, mas geralmente de pé, dando á mão a sua filha, ou sentada, ensinando-a a ler, recebendo o título de Sant’ Ana mestra.

O crescimento da população, praticante da religião católica, provocaria a ampliação do maior templo religioso do município, através das décadas que se seguiriam, a partir da saída de Vasconcelos da cidade, ocorrida em 1949. Antes não possuía as estruturas laterais que hoje ostenta. Era mais simples, e de única nave. Todavia, a imagem da vista da Igreja Matriz de Coari, também ficou registrada nas páginas das obras literárias das irmãs “Filhas de Maria”. Vasconcelos nos brinda com rápidos trechos da obra “Sangue Redentor nas Trilhas da Esperança” da Irmã Evelina Trindade. A impressão daquelas jovens religiosas, entusiasmadas pela chegada à nova missão em Coari (no Natal de 1947), nos acalora também à memória e ao coração católico:

De repente alguém vê a torre da igreja. Nós estamos ansiosas para ver a cidade erguendo-se na floresta. Mais próximo entramos a navegar no Lago de Coari. Agora podemos ouvir os foguetões estourando e o sino da igreja tocando e o povo vindo aos montes em direção das margens da vila, a qual fora construída sobre uma elevação, semelhante a uma colina apresentando bonita vista (...)

Sobre a visão da cidade, deixaram o seguinte testemunho:

A cidade de Coari permanece na escuridão e quieta durante as noites, exceto quando há luar. Se vocês pudessem ver a lua tropical, pois sabemos que nem podem imaginar o quanto é bela. O céu parece bem perto de nós aqui; as estrelas são também muito brilhantes, isto talvez por que o céu toma um banho de chuva (chovia muito na época) quase todo dia.

O trabalho de construção, da sacra figura arquitetônica da igreja, provocou aqueles argumentos ao passado, ao se avistar a imagem da mesma, como a maior efígie daquela cidade. Se as missionárias chegassem hoje no município, ficariam assustadas com o “aglomerado” urbano que se fez pela orla. Somado ao imponente templo católico, guia-se também à visão, à subida da Rua Marechal Deodoro, ao sereno e imponente templo da Igreja Batista de Coari. O templo está presente na história há pelos menos 80 anos.  Assim como o primeiro, é uma obra que conjuga o cenário do local, aonde foi fundado, ao cruzamento das ruas Gonçalves Lêdo e Marechal Deodoro. De fora, impôs um ponto inovador ao cenário educacional da sociedade coariense. Da fundação da igreja, viria o colégio estudantil Instituto Bereano, ao meio social urbano do município. A dinâmica foi da iniciativa do memorável pastor Alberico Antunes de Oliveira. Somente com o moderno processo de aterramento dos igarapés centrais, foi- se pensando, como se reordenaria os logradouros aquele novo panorama que se formava a Coari. Um exemplo, foi à instalação de uma feira definitiva aos produtores rurais, como a que hoje se tem. O primeiro projeto não foi bem estruturado, por isso chegou a ruir. A construção foi realizada onde presentemente está assentada à atual, ao Centro da cidade. Foi erigido na gestão do prefeito Evandro Aquino, nos anos de 1980. Até então, a feira do produtor rural teve vários paradeiros. Pasmem, os que hoje vivem na Coari moderna (a do petróleo e do gás), mas um dia, na Coari dos anos setenta e oitenta, já tivemos uma feira instalada ao lado esquerdo da Escola Estadual Francisco Lopes Braga (pela Rua Dois de Agosto). Estendia-se a feira até a frente daquela referida escola, próxima da Rádio Educação Rural de Coari.  Depois, a feira mudou de lugar, desceu até o início da Rua Cinco de setembro, indo terminar, praticamente, à frente da Escola Estadual Instituto Bereano de Coari. A feira do produtor rural funcionava assim, sem definição e sem paradeiro, em décadas passadas.  Ao passo que a cidade ia crescendo “não” se sabia aonde por as novas estruturas, ao bom funcionamento das novas ordens, ao progresso desordenado, cujo mesmo se instalava por todos os cantos do Centro daquela Cidade. Tudo foi sempre meio que “sem definição”. Não havia muita amplidão administrativa, aos que, por muitas vezes, não souberam conduzir a explosão demográfica em torno do Centro histórico da cidade. A Praça da Matriz, onde se realiza o tradicional arraial, em honra aos padroeiros católicos, já foi também palco de outros grandes eventos do município, durante décadas e décadas. Festival Folclórico, Festival da Música Popular (extinto), Aniversário da Cidade, Comemoração ao dia da criança, Dia das mães, Palco da extinta Festa da Banana, local de concentração aos desfiles cívicos da semana da Pátria e do Amazonas... Enfim, tudo acontecia naquela praça, durante décadas e décadas.  Quando a Getúlio Vargas foi edificada, a cidade ganharia uma nova identidade (e perderia a antiga), pois aquela, num passado longínquo, era apenas um areal. Entretanto, foi naqueles espaços que, tudo, começou a ser festejado em Coari-Am. A cultura da cidade se manifestava naqueles ares num passado mais remoto quando aquele grande areal se assentava às margens do lago de Coari, à frente da cidade. Quando a Villa foi instalada, em 1874, surgia, durante o período da vazante, uma bela praia naquela área. Estendia-se dos domínios do bairro de Tauá-Mirim até se alcançar os limites do atual bairro de Chagas Aguiar. Com o trabalho de adaptação da paisagem, às vias de cidade, todo o panorama natural foi sendo eliminado, a se dá lugar ao progresso, o qual os habitantes daquelas épocas (assim como os de hoje), tanto almejavam. Não se pode esquecer, que antes de ser Villa, Coary era o “Lugar de Alvelos”. Naquele momento de Lugar, o local já possuía: edificações ao comércio e outros serviços administrativos, etc. O clássico prédio da prefeitura da cidade, demolido à década de 1960, veio da época do Lugar de Alvelos. Todavia, os habitantes daqueles tempos aspiravam à condição de Lugar à Vila. Depois que o conseguiram, o novo anseio era de que a Vila se tornasse uma próspera e soberana cidade, às margens do caudaloso rio Solimões. Cinqüenta e oito anos depois, o objetivo foi alcançado no dia 2 de agosto de 1932. Apesar de tantas interferências, à paisagem original da natureza, nenhuma administração pública municipal (tanto do passado quanto do futuro), conseguiu ainda requalificá-la a um conjunto mais apreciável. O que antes foi pensado e arquitetado, a esses locais históricos, findou por ser esquecidos pelas novas representatividades sociais. Ainda não se conseguiu atualizar as margens que restaram dos igarapés (os primordiais da cidade) a um panorama mais saudável. Hoje se vê: lixo, lama e revoadas e mais revoadas de urubus (principalmente na época da vazante do rio). Os coarienses do futuro perderam o controle urbanístico do local, uma vez que os do passado começaram a organizá-lo e a construí-lo. Apesar de tanta ostentação urbana, pela detenção de jazidas de petróleo e reservas de gás natural, a cidade não conseguiu se adequar a um moderno contexto dinâmico de lugar pluralizado. As novas e “inovadoras” formas de movimento administrativo, não conseguiram redesenhar, uma face realmente representativa, aos novos tempos. Os espaços do Centro comercial da cidade foram “sufocados”, dando assim uma falsa idéia de inovação à urbanização. É eloqüente o inchaço arquitetônico, de paisagem urbanística, que se instalou sem maior primor em relação à ocupação de locais históricos naquele cenário. Fachadas, beirais, casas, calçadas, pisos, estética arquitetônica, vegetação, praticamente nada foi valorizado a se resguardar à memória clássica de Coari-Am, a das épocas líricas (a da Vila) e a do começo de cidade, a de 1932. A grande Catedral da histórica Praça de São Sebastião (Coari-Am) é cortejada e venerada por sua resolução arquitetônica, por isso conseguiu chegar aos nossos dias como um dos símbolos mais atuais e concretos de passadas épocas. Prova, que apesar de ter sido construída e edificada em ocasiões remotas daquele lugar, cumpriu seu papel social e memorial ao futuro. Em sua produção, à posteridade, os que a ergueram souberam imprimir (de forma imponente e inteligente), a marca do povo coariense daqueles tempos aos dias atuais. Quanto ao ícone de São Sebastião, sempre impresso na memória pela igreja católica, temos o seguinte enredo a se construir a história do mártir ao aprendizado e memória religiosa universal:

Nascido em Narbona no século III (provavelmente em 250), foi educado em Milão, terra de sua mãe. Alistou-se como legionário e devido a sua bravura foi nomeado chefe da guarda Pretoria pelo imperador Diocleciano. Aproveitava-se de sua situação privilegiada para converter à fé cristã soldados e prisioneiros. Denunciado ao imperador, este tentou demovê-lo de sua fé, oferecendo-lhe cargos e presentes. Como Sebastião não se deixou intimidar pelas tentadoras ofertas, o monarca sentiu-se traído e ordenou que ele fosse despido, atado a uma árvore e morto a flechadas. Deixado como sem vida, uma viúva, chamada Irene, chegou ao local para dar-lhe sepultura condigna e notou que o mártir ainda respirava. Retirou as flechas de seu corpo e tratou de suas feridas. Curado, Sebastião voltou a se encontrar com o imperador e reprovou a sua crueldade. Foi então preso e morto com pauladas e bolas de chumbo, diante da população, no dia 20 de janeiro de 288 (aos 38 anos de díade) em Roma. São Sebastião é muito popular no Brasil, pois é orago de 144 paróquias e dá o seu nome a sete municípios brasileiros. É padroeiro da cidade do Rio de Janeiro e titular da respectiva arquidiocese. É representado icnograficamente seminu, atado a uma árvore e com o corpo coberto de setas ou de chagas produzidas por elas. * Nilza Botelho Megalhe – O Livro de Ouro dos Santos

Os dois santos católicos, caracterizadores da fé primordial aos coarienses, têm origens remotas, datam de períodos antigos a instituição e fundação da própria igreja católica no mundo. A aplicação do contexto desses sujeitos, ao conjunto sacro da religiosidade de Coari-Am, devota à lembrança popular sobre, o aspecto de identidade social, apenas, além também do que seja religioso ao povo.

...não é possível falar de Coari sem que venha à lembrança o velho sobrado dos Dantas. Onde parece que o passado pediu pousado para sempre. Quantos sonhos ali vividos em épocas de fastígios? E as desilusões acumuladas, quantas terão sido? O sobrado dos Dantas reconstitui, aos dias atuais, a única referência dos tempos de que ora me ocupo. Tudo mais foi destruído ou “renovado”.  Como é o caso específico da antiga Prefeitura e do velho coreto que, ao lado de outras construções da época, foram postas abaixo, cedendo vez à modernidade, nem sempre de bom gosto e, quase sempre, violadora do que seria lícito recordar. Assim, com todo o encargo histórico do que foi e do que representou, no sobrado, hoje apenas o passado se faz presente com sua imensa carga de lembrança que, a pouco e pouco se esvaem...   

Por mais de sessenta anos, o Centro histórico de Coari sofreu com as intervenções de aterramento, em seus cenários clássicos. Atualmente a cidade está em nova fase de estrutura. O Centro está em “repouso”, enquanto isso, outros locais da cidade começam a ser redesenhados e talhados a um novo começo de uma Coari que vive seus dias de uma cidade rica e próspera.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

- PARTE II -

 

 

 

 

 

Síntese Histórica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Síntese Histórica do Cenário Amazônico-Universal à Antiga Villa de Coary

a.C

2.000 a C - Hebreus e fenícios teriam vindo à terra de Ofir (Amazônia), em busca de ouro e outros minérios preciosos à construção do templo do Senhor em Jerusalém. No rio Japurá encontram ouro.  Para se chegar até lá passam pelas áreas do hoje município de Coari. Ao rio que navegaram batizaram de Solimões em homenagem e alusão ao sábio rei semita, Salomão;

 

d. C.

499 d C – Um monge budista, Hoei-Shin, regressou de uma terra que distava 8. 000 milhas náuticas a leste da China. Chamou aquela terra de Funsang; por que as árvores dali eram imensas e o povo (que andava despido) não conhecia o ferro. A África não era, seria a Amazônia?

 

Século XV

1492 – No dia 12 de outubro, o italiano Cristovão Colombo, a bordo das caravelas Santa Maria, Pinta e Niña chega à América (em Cuba), assim redesenha o mapa do planeta. As idéias folclóricas, que pairavam sobre os oceanos e sobre as cabeças dos navegadores do velho mundo, eram dissipadas. Os abismos imaginários, os que supostamente tragariam as embarcações não existiam. Do outro lado do oceano havia de verdade outras terras com milhares e milhares de pessoas. A princípio, Colombo acreditava ter chegado as Índias, por isso chamou aqueles habitantes de “índios”. O equívoco permanece até hoje.

 

Século XVI

1500 – Em fevereiro, o espanhol Vicente Yañes Pizón, que tinha comandado a caravela Niña da expedição de Colombo, navega o litoral nordeste do Brasil. Talvez, a costa de Pernambuco e Ceará. Aquele acidente geográfico deu o nome de Santa Maria de La Consolación. Aos ferozes nativos que, encontra por ali, denomina novamente de índios, como fez Colombo oito anos antes em Cuba. Sua expedição captura 36 daqueles nativos; À mesma época a vinda de Pizón, viria à expedição de outro espanhol, Diego Lepe. Singrou os mesmos lugares da expedição anterior. É atacado pelos nativos, em resposta a captura dos 36 sujeitos pela expedição de Pizón.  A réplica de Lepe é imediata aqueles nativos enfurecidos. Os tiros de arcabuzes vindo de sua caravela provocam o primeiro massacre de índios no Brasil. A 22 de abril, o português Pedro Álvares Cabral aporta na Bahia. A partir dai os portugueses disputariam com os espanhóis o direito às novas terras. Mais tarde a nova terá encontrada pelos europeus se duplicaria, haveria duas Américas: a do sul e a do norte;

1538 Diogo Nunes, um mameluco português a serviço da Espanha, chega á região de Tefé onde os Aisuari constituíam a rica província de Machiparo. O espanhol Pedro de Anzures lidera uma expedição a descer os rios amazônicos vindo dos Andes. Naquele tempo o “leste” do país pertencia a Portugal e o “oeste” à Espanha. Os espanhóis começam sua saga a conquistar as terras baixas da grande floresta. Aquela 1ª expedição conta com 300 brancos e 4.000 mil índios. Os rigores da selva os obrigam a voltar. Sofrem com doenças terríveis e, fome, por desconhecerem por completo o ambiente amazônico.  143 espanhóis morrem, metade dos índios também. Os brancos sobreviventes comem os próprios cavalos para não passar fome, os índios os cadáveres de outros índios mortos.

1541 – Em fevereiro, o espanhol Gonzalo Pizarro tenta mais uma expedição a explorar a selva amazônica. Sua expedição é pouco menor que a de Anzures. 4.220 homens, sendo 4.000 índios e 220 brancos. Os cavaleiros viajavam armados e encouraçados. Há milhares de lhamas ao transporte de alimentos, 2.000 porcos e 2.000 cães de caça para atiçar sobre os índios. A expedição dura quase um ano. Muitas adversidades ocorrem igualmente à anterior de 1538. Ocorrem mortes, doenças, conflitos e a frustração por não encontrar o que buscam: ouro e outras riquezas naturais.

1542 – No dia 1º de janeiro a expedição do espanhol Francisco de Orellana, junto ao cronista Frei Gaspar de Carvajal, chega à Amazônia. Denomina o rio que navega com seu próprio nome. Passa pelas áreas dos municípios de Coari e Codajás ao final do mês de maio. No dia 3 de junho Orellana chega ao encontro das águas, em Manaus. O nome daquele rio, de águas escuras como tinta, foi atribuído por Orellana naquele mesmo dia. No baixo Amazonas (ainda no mês de junho), após ser atacado por bravos nativos, muda o nome do rio que recebera seu nome ao inicio da expedição, a “rio das Amazonas”. Acredita ter sido atacado por “mulheres-guerreiras”. O novo nome atribuído é em alusão às amazonas gregas da Capadócia. Séculos depois, aquele nome batizaria a todo o Estado.

1560 – A expedição de Pedro de Ursua vinda do Peru passa nas áreas dos limites territoriais entre Coari e Tefé (no remoto lugar do Ipixuna). Naquele local a tripulação eleva dom Fernando de Gusmão a príncipe do Peru. Há uma trama criminosa durante a expedição, Ursua e sua amante são mortos pela espada sanguinária de Lope de Aguirre. Após isso acontecer, dias depois, aclamariam ao novo príncipe.

1562 – Juan Alvarez Maldonado seria mais um espanhol a tentar encontrar ouro e canela nas terras baixas da Amazônia.  Sua expedição vem bem provida, com bastante comida e soldados. Mas ocorre uma divisão durante o percurso, há muitas mortes durante os conflitos.  Os que sobrevivem são capturados pelos índios.   Maldonado só conseguira retornar ao Peru em 1565... Após essas expedições todas as tentativas de se adentrar á selva só retornariam 75 anos depois, com as novas demarcações de Portugal á Amazônia.

 

Século XVII

1637 – O português Pedro Teixeira começa a demarcar as altas terras da Amazônia aos domínios de Portugal.

1639 – No dia 16 de agosto Pedro Teixeira se apossa das terras do alto Solimões em nome do Rei Felipe IV.  A região começaria nas frondes do município de Tefé e terminaria na fronteira com o Peru.

1650 – Pedro Pecador e Laureano de La Cruz iniciam e abandonam a conquista espiritual da Gran Omagua ao rio Amazonas.

1654 – No dia 9 de abril nasce no reino da Boemia (atual República Tcheca) numa família de nobres, o futuro padre jesuíta, Samuel Fritz.

1669 – A fortaleza de São José do rio Negro é erigida.

1673 – Fritz estuda Humanidades e Filosofia, depois, ingressa na Companhia de Jesus fundada por Inácio de Loiola em 1540.

1686 – Samuel Fritz chega à província de Quito na América do Sul. Quase duzentos anos depois de toda uma trajetória de expedições à procura de ouro, canela e outras mercadorias produzidas pela floresta. Os espanhóis dominam a região do alto Amazonas através de seu sistema de catequização às aldeias, realizado pelos padres jesuítas em suas missões religiosas. 

1688 – No dia 15 de outubro Fritz funda no Solimões a Missão de Santa Tereza.

1689 – Ao início de fevereiro, reiterando as pretensões da Espanha (antigo Reino de Castela) às terras altas da Amazônia, Samuel Fritz funda sua última missão religiosa no rio Solimões, a dos Yurimágua. Junto com os aldeados constrói uma pequena capela sobre a invocação de Nuestra Senhóra de Las Nieves. Há três anos Fritz vinha fazendo esse trabalho de fundar missões. Naquele último aldeamento ficou muito doente e quase veio a falecer. A língua geral (nheengatu) era oficializada por Carta Régia como a língua oficial da Amazônia. Deveria ser ensinada pelos padres aos colonos e filhos destes.  Era praticamente a língua oficial do Brasil naquele período.

1691 – No dia 13 de outubro quando Fritz retorna do Pará, após quase dois anos detido pelos portugueses, chega à missão dos Yurimágua e descobre a capela que foi construída incendiada pelo descuido de um nativo. Entre os escombros, encontra a imagem de Nuestra Senhóra de Las Nieves, pintada numa pequena tela. O incêndio não a consumiu e se conservou prodigiosamente intacta. (Isso ocorreu em áreas do município de Coari).

 

Século XVIII

1708 – Samuel Fritz é expulso das áreas de suas missões pelos portugueses. Os frades Carmelitas reivindicam suas antigas áreas, e as delimitadas por Pedro Teixeira à nova catequização dos nativos. O carmelita José de Madalena transfere o núcleo do último aldeamento de Fritz às áreas do município de Codajás-Am. Entre os portugueses, se começa a ouvir falar sobre as investidas de um grande guerreiro, Ajuricaba.

1725 - Aos 71 anos de idade, morre Samuel Frits na missão dos Xeberos, no dia 20 de março. 

1728 - No rio Negro, o índio Ajuricaba, feito prisioneiro dos portugueses, se entrega às profundezas daquele para não ser humilhado, torturado e condenado à morte nas prisões do Pará. Torna-se um ícone da resistência étnica à invasão branca.

1758 – No Brasil a língua geral começa a ameaçar as expansões comerciais e sociais de Portugal. Por isso, a 17 de agosto daquele ano é proibida de ser articulada em todo o país, pelo Decreto do Marquês de Pombal - ministro do Rei de Portugal. A partir do Decreto não se pode mais articular nheengatu em público. A pena, à desobediência, é a prisão ou o corte da língua do falante boca-a-fora. Todas as denominações indígenas de lugares são modificadas à nomenclatura portuguesa.  Coari passa a ser chamada de Alvelos e Tefé, de Ega.

1759 – O Coronel Joaquim de Melo e Póvoas, primeiro Governador da Capitania do São José do Rio Negro (hoje Manaus), eleva o remoto aldeamento dos carmelitas portugueses à categoria de Lugar, com o nome de Alvelos. Fica dito - Lugar de Alvelos.

1774 – Em Alvelos é criada uma Paróquia sobre a invocação de Nossa Senhora de Sant’ Ana. Ao final do século, no rio Negro, a antiga Fortaleza de São José é reduzida a Lugar da Barra do Rio Negro.

Século XIX

1822 – No dia 7 de setembro é proclamada a independência do Brasil. De proprietário, Portugal passa a ser freguês.

1833 – Alvelos é elevada à categoria de Freguesia de Nossa Senhora de Sant’ Ana de Coari. Isso ocorre por que a Comarca do Rio Negro muda de nome a Alto Amazonas, por decreto de 25 de junho. O lugar da Barra, à mesma data, passaria a se chamar: Villa de Manaus.

1848 - Apesar da denominação de 1833, Coari figura com o nome de Alvelos, subordinado ao colégio eleitoral do Termo do município de Tefé. No dia 24 de outubro a Villa de Manaus, pela Lei 146, é elevada à categoria de cidade com o nome de Cidade da Barra do Rio Negro.

1850 - No dia 5 de setembro o Amazonas é elevado à categoria de Província.

1854 – A Comarca do Alto Amazonas é elevada à categoria de Província pela Lei de nº 37, de 30 de setembro. A “Freguesia de Alvelos” é instalada junto à foz do lago de Coary. O primeiro administrador daquele lugar foi o Tenente-Coronel Gaudêncio Euclides Soares Ribeiro, “o Coronel Gaudêncio”. O Vigário da Vara era o Ver. Luiz Gonçalves de Azevedo.

1856 – Dia 21 de agosto o Deputado Estadual João Inácio Rodrigues do Carmo apresentou um projeto mudando o nome da Cidade da Barra do Rio Negro à Cidade de Manaus, no dia 4 de setembro do mesmo ano se tornaria a Lei de nº 68, sancionada pelo presidente da Província Dr. João Dias Vieira.

 1858 - Dr. Silvério José Nery nasce no município de Coari, a 8 de outubro, sendo filho do major reformado e seu homônimo, Silvério José Nery e da senhora Maria Antony Nery. Silvério Nery, nome que o tornou conhecido nos meios políticos amazonenses, assumiu o governo do Estado do Amazonas no período de 23 de julho de 1900 á 2 de dezembro de 1903.

1859 – Para efeitos civis e eclesiásticos, Alvelos é reconhecida como Freguesia da Província por Lei de nº 92, de 6 de novembro.

1861 - A sede da velha Freguesia é transferida à sede do sítio dos irmãos Tomás e Antônio José Pereira Guimarães. Naquele sítio, adornado de grandes castanhais, surgiria a Villa de Coary. O Vigário daquele momento constrói a primeira capela, de pau a pique, em honra a Nossa Senhora de Sant’ Ana.

1873 - O Vigário José Maria Fernandes reconstrói, de alvenaria, a primeira igreja Matriz na futura Villa de Coary. Foram empregados à construção: 4.000 tijolos, 1.500 telhas e 16 barricas de cal. Pelas suas proporções era uma das melhores do interior do Estado à época. Hoje não existe mais. Foi demolida.

1874 - Alvelos é elevada à categoria de Villa com a denominação do lago onde foi localizada, Coary. Pela Lei de nº 237, de 1º de Maio. A instalação da Câmara municipal e da Villa foi realizada somente a 2 de dezembro. A partir de então passa a ser chamada de Villa de Coary.

1877 – Nasce, na cidade alagoana de Anadia, o escritor Manoel Anísio Jobim. Escreveria a monografia “Coari, Panoramas Amazônicos”, a publicaria em 1933. Ao início do século XX viria para o Amazonas a ser juiz em Itacoatiara. Depois, o seria também da Comarca de Tefé.

1882 – Ocorre um projeto de Lei criando a Comarca do Solimões com os Termos de Coari e Codajás. A Comarca da Villa seria suprimida.

1884 – O Amazonas liberta todos os seus escravos negros.

1888 – O Brasil liberta todos os seus escravos.

1889 – A República é proclamada no dia 15 de novembro, tendo como primeiro mandatário, Marechal Deodoro da Fonseca. O Amazonas passa a ser chamado de Estado do Amazonas.

1890 – A Comarca da Villa de Coary é suprimida.

1891 – O Termo da Câmara ressurge é elevado à Comarca no dia 10 de abril. O Termo judiciário, em 15 de novembro, ao mesmo ano.

1893 - Nasce Alexandre Montoril no dia 31 de janeiro, na cidade de Assaré, no Estado do Ceará. Dezenove anos depois chegaria ao Amazonas. Forma-se em Odontologia em 1920, na Faculdade do Amazonas (hoje UFAM).  Em 1913 sentou praça na força policial do Estado e logo chegaria a Coronel, morreu em Manaus, nos anos 70, pobre e doente.

1896 – O superintende da Villa, Major Augusto Celso de Menezes, constrói sobre o igarapé de São Pedro a bela ponte de madeira de 120 metros de comprimento, por três de largura, ao passeio público e ao acesso mais eficaz entre os bairros de Sant Ana e São Sebastião. Ligaria aos dias de hoje: Praça Getúlio Vargas à Rua Ruy Barbosa.

 

Século XX

1909 – A grande Catedral Católica da Villa de Coary, em honra a Sant’ Ana e a São Sebastião, é fundada pela iniciativa do Padre espanhol Victor Merino à Praça de São Sebastião (antiga Praça de São Pedro).

1913 – A Comarca é novamente suprimida, a Villa de Coary é subordinada à de Tefé por Lei de nº 741, de 30 de outubro. Nesse período a Câmara de Tefé constrói a primeira capela na área do cemitério. Denomina aquela necrópole de Cemitério de Santa Terezinha em alusão à Santa Tereza de Ávila, padroeira de Tefé-Am.

1916 - Pela Lei de nº 844, de Reorganização Judiciária de 14 de fevereiro, a Comarca é reinstala à Villa de Coary pelo Juiz de Direito e amazonólogo, Doutor Manuel Anísio Jobim. Foi no dia 8 de junho.

1922 - A Comarca foi extinta novamente, pela Lei de nº 11, de 7 de fevereiro. A Villa de Coayi fica dependente da Comarca de Manacapuru.

1924 – Pela Lei de 1220, de 10 de março, a Comarca da Villa foi novamente restaurada.

1926 – O escritor Péricles de Moraes é nomeado superintende da Villa de Coary em 13 de abril. O navio Vapor, Paes de Carvalho, transportando 150 passageiros, vindo de uma longa viagem de Belém passando por Manaus, indo em direção à Cruzeiro do Sul no Acre, se incendeia, explode e naufraga. O sinistro ocorre à frente da localidade do Camará, na subida do rio Solimões, à madrugada de 22 de março. João de Deus, comandante da embarcação, morre durante o desastre junto a mais da metade dos passageiros e tripulação.

1927 –. O jovem Intendente da Villa de Coary, Herbert Lessa de Azevedo, é assassinado a tiros nas dependências da Prefeitura. O crime ocorre às dez horas da manhã do dia 23 de junho. Comunitários da localidade do Apaurá são os que atentaram contra o jovem prefeito. Herbert veio de Parintins, mas era de Manaus. Assumiu a Prefeitura no dia 12 de janeiro, mas por infelicidade do destino tem a administração interrompida precocemente pelo atentado mortal.  No dia 13 de julho, Alexandre Montoril é nomeado Prefeito militar de Coari.

1931 – Nesse período de Revolução (era Vargas) a Villa de Coary foi mantida como município do Estado pelo Ato de nº 45, de 28 de novembro.

1932 - A Villa de Coary é elevada à categoria de Cidade pelo Ato de nº 1665, de 2 de agosto. No dia 7 de agosto o termo seria instalado, com solenidades, nas dependências da antiga prefeitura da Villa pelo Prefeito Municipal Capitão Dr. Alexandre Montoril. A partir daí Montoril faria um longo governo, por quase 17 anos. A Villa seria dissolvida dando lugar a uma nova cidade, mudaria totalmente sua identidade.

1933 – Nasce a 14 de abril, em Coari, o escritor Francisco de Vasconcelos. Foi morador da Rua independência, nos anos 30 e 40 do século XX. É o segundo e raro escritor a escrever e a resgatar a memória e identidade histórica de Coari ao cenário regional. Dentre suas várias obras mais conhecidas, como “O Palhaço e a Rosa”, lançaria sua singular: Coari, “Um Retorno às Origens”, ao Início do século XXI.

1934 – Nasce em Coari o escritor, cronista e contista, Erasmo Linhares.  Em 1967 conquistaria o 2º lugar no concurso “Cidade de Manaus” para conto, instituído pelo movimento literário do amazonas: Clube da Madrugada.

 

1936 - No dia 19 de março é instalada a primeira Câmara municipal de Coari-Am a um triênio. Os primeiros vereadores são: Américo Vespúcio Leão, Henoc Siqueira Cavalcante (o presidente), João Rocha Linhares, Ataliba José de Lima e Manoel Antônio Damasceno. Após o encerramento daquele mandato a cidade ficou sem vereadores por oito anos. A didatura militar comandaria os destinos do país.

1937 - O Grupo Escolar Francisco Lopez Braga é fundado em Coari à Praça de São Sebastião. Sua denominação é uma homenagem, do Prefeito Alexandre Montoril ao seu primeiro professor no nordeste. Aquele grupo ostenta em sua fachada o ano de emancipação da Villa à categoria de Cidade: 1932.

1938 – Montoril Constrói a Ponte Álvaro Maia que ligaria o final do que hoje é a Rua Independência ao lugar do Alto do Bode (atual Rua Gonçalves Lêdo). Aterra a praça principal da Cidade e a reinaugura com nome de Getúlio Vargas a 20 de setembro. Constrói posto de saúde e uma maternidade. Reabre novas ruas à cidade, dentre elas, a clássica XV de novembro. E ainda, reorganiza o Cemitério de Santa Terezinha, pois a capela, construída pela antiga Comarca de Tefé, havia desabado. Rumores indicam jazidas de Petróleo nas áreas do município.

1943 – Os padres Redentorista, vindos dos EUA, chegam a Coari a dedicar à educação da cidade um novo olhar. Cornélio Ryan, José Elworty, João Mc Cormick, André Joerger e Jaime Martin são os novos padres da cidade. 

1945 – Por iniciativa da Igreja Batista de Coari, pela pessoa do Pastor Albérico Antunes de Oliveira, o “Instituo Bereano” é fundado na Rua Ruy Barbosa, em plena ocorrência da segunda grande-guerra mundial.

1947 – No dia 25 de dezembro chegam as irmãs católicas, adoradoras do Preciosíssimo Sangue, à cidade. Seriam as primeiras professoras a ensinar e a educar várias gerações de Coari.

1949 - Por iniciativa dos Padres Redentoristas, vindos de São Louis (Mississipi – EUA), a Escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é fundada a 26 de abril. O padrão de estrutura do colégio estudantil é o mesmo das escolas norte-americanas. Amplos, arejados, dependências não apenas às salas de aula, mas a todo um complexo que contempla a educação como a deve ser. Espaço para biblioteca, auditório e salão de confraternização, quadra poliesportiva e cultural, administração, etc. Apesar do excelente modelo implantado bem no Centro da cidade, nunca, nenhuma administração pública local, buscou aquele padrão à rede de estrutura escolar ao futuro da cidade. Fosse assim, hoje, Coari seria uma cidade com grandes colégios histórico-educacionais a instalar educação acadêmica em suas grandes estruturas. 

1952 - A casa paroquial e o Seminário Redentorista são fundados em Coari. No mês de maio, em Manaus, a Assembléia Legislativa rememora o nascimento de Herbert Lessa de Azevedo, seria seu aniversário de 50 anos. Muitas honras são lhes prestadas postumamente.

1955 – Pesquisadores vasculham e perfuram algumas áreas do município e encontram petróleo na localidade do Boã. Depois, resolvem fechar o poço usando 1.200 sacas de cimento. Por todo o interior de Coari há rumores de marcos indicando onde pode haver perfuração.  A Praça principal da cidade guarda um daqueles marcos.

1960 – Alexandre Montoril retorna à Administração da Prefeitura da Cidade.

1964 – A Rádio Educação Rural de Coari é fundada pelos padres Redentoristas a 26 de julho. O primeiro programa foi transmitido das 12:00 às 15:00 horas daquele dia. O Prefeito Clemente Vieira Soares é eleito na cidade. Em sua 1ª administração (1964 a 1968), Coari viveria inovadoras e profundas mudanças em sua estrutura física.  Novos aterros seriam executados. Novas ruas, pavimentações, escolas e praças seriam construídas pelos arredores do Centro inicial daquela cidade. Entre as escolas construídas, destacam-se: o Inês de Nazaré e o João Vieira.

1971 – Morre no dia 13 de junho, em Manaus, aos 94 anos, o escritor alagoano Manoel Anísio Jobim. Em sua obra histórica tem-se a única face literária de Coari às décadas do início do século XX, e às futuras gerações coarienses.

1973 – No dia 13 de abril, morre Dom Mário Roberto Anglim, primeiro Bispo daquela Prelazia. À cidade, é eleito o 1º Prefeito de denominação evangélica: Enedino Monteiro da Silva, membro da Igreja Batista de Coari-Am. Foi também proprietário da tradicional Drogaria do Povo de Coari. Em junho, ocorre o I Festival Folclórico da cidade.

1974 – No dia 31 de março acontece um golpe militar no Brasil. A Ditadura regeria a política de todo o país aos próximos dez anos.

1975 – Coari recebe a instalação de empresas estatais a configurar uma nova cara aos próximos 25 anos finais do século. Chegam à cidade: o Banco do Estado (antigo BEA - hoje privatizado, atual Bradesco), Pólo da Universidade do Amazonas (antigo CRUTAC), Companhia Geradora de Energia Elétrica (antiga Celetramazon), a unidade Mista de Coari é construída (o hospital), junto, o Aeroporto e o atual Cás do Porto também são construídos.  À instalação de todas essas entidades eram necessárias mutações ao cenário urbano histórico.

1977 – É re-eleito à Prefeitura Municipal de Coari-Am Clemente Vieira Soares. Permaneceria por seis anos no poder (até 1982). Mesmo assim não conseguiria concluir todas as suas emblemáticas obras à cidade. A Praça Getúlio Vargas é mais uma vez modificada, perde as características da época do aterramento feito por Montoril. O antigo coreto é retirado, em seu lugar surge um moderno chafariz em cor azul. O busto de Getúlio Vargas desaparece do cenário também. Algumas árvores, plantas no final do século XIX (1896) são preservadas.

1987 – A cidade começa a se mobilizar, ao direito de se obter junto a Tefé, roialites financeiros, à exploração de petróleo na Província do rio Urucu.

1989 – O professor Evandro Aquino de Oliveira, eleito Prefeito, constrói: a ponte de concreto que ligaria o Centro da cidade ao bairro de Chagas Aguiar, a estrutura moderna da Feira do Produtor rural (antiga área de aterramento do igarapé de São Pedro). Em dezembro, realiza a I Festa da Banana.

1993 – A ponte de Evandro Aquino é interditada. Suas bases são reestruturadas e assim é reinaugurada.

1994 –. A Praça Getúlio Vargas sofre novas intervenções em seu entorno. Perde a vegetação de época (árvores plantadas em 1896) cedendo seus espaços a uma capela religiosa. Sobre essa capela é instalada uma estátua de 15 metros de altura, réplica do “Cristo Redentor” carioca. Em todo o século XX aquela seria uma das grandes aplicações aquele logradouro público. O médico paulista, Odair Carlos Geraldo, jantando com amigos num restaurante do bairro de Chagas Aguiar, sofre um atentado e morre horas depois em Manaus. Havia sido eleito Prefeito da cidade em 1992. Após um dos funerais mais depressivos à história moderna de Coari, seu corpo é conduzido a seu Estado de origem.

1995 - A Universidade Federal do Amazonas implanta os cursos de Licenciatura Plena em Pedagogia e Letras, no Campus Avançado da cidade, em parceria com a Prefeitura Municipal administrada por Jamil Moraes.

 

Século XXI

2000 – Se encerra o mandado do Prefeito Roberval Rodrigues da Silva.  Conteve dois mandatos: 1983 a 1988 e, 1997 a 2000. Após o governo de Roberval novos rostos surgiriam ao cenário político da cidade. Dá-se inicio, na Cidade de Coari, uma grande e longa disputa pelo poder. O município havia adquiro o direito aos roialites financeiros junto à exploração do petróleo em Urucu. Todos os investimentos à cidade se ampliam. Empresas de cacife internacional são instaladas na zona urbana à construção da base de Travessia e do poliodulto Coari-Manaus. É eleito Prefeito, Adail Pinheiro, o qual mudaria a face da cidade a um novo tempo de prosperidade. Sua administração, aos tempos modernos, seria emblemática. Infelizmente, se envolve em vários crimes e escândalos de corrupção. As acusações fazem sua administração desmonorar. É preso e condenado.  A lhe suceder, em 2016, seu filho é eleito prefeito. A partir dos anos de 2000, Coari sofreria com sua nova investida econômica e sociocultural.  Fica sendo conhecida pela região uma das mais ricas do interior do Estado, senão a mais rica. Grandes mudanças são fomentadas as várias áreas de desenvolvimento educacional, hospitalar e de segurança. Junto ao bojo, a sua nova pompa, o agravamento dos problemas e mazelas sociais são também notícias às mídias: regional e nacional. A disputa pelo poder, à cidade, é marcada por terríveis conflitos político-partidários. Muitas manifestações ocorrem, em decorrência de novos escândalos de corrupção, à má administração pública às rendas e serviços.  As mazelas sociais à cidade inflamam-se. Os dias pacatos da antiga Villa de Coary, fundada em 1874, se esvaem ao seu novo cenário globalizado à modernidade. Sua história e memória não são preservadas. Sua identidade regional vive o risco de ser dissipada. As características atuais da cidade são as mesmas de qualquer centro urbano brasileiro.  A Praça Getúlio Vargas passa por novas mutações, entre elas, a perda do obelisco instalado em 1940, importante monumento social, que configurava o marco-zero ao início de fundação da cidade...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1932


*sobrado dos Dantas na esquina 


A CIDADE DE COARI

Era noite, 7 de agosto de 1932. Na pequena Villa de Coary, localizada à margem direita do lago que, lhe emprestara o nome no rio Solimões, vivia-se nos últimos cinco dias momentos de grandes e renovadas expectativas.  Desde o dia 2 daquele mês havia sido decretada em Manaus a elevação daquele lugarejo a uma nova categoria. A Villa estava instalada ali desde 1854, mas a partir daquela noite, receberia um novo caráter político de identidade social ao seu cenário regional. O Decreto do Governo do Estado, pelo Ato de nº 1665, de 2 de agosto de 1932, lhe dava a condição e status de Cidade do Estado do Amazonas. Ser cidadão de uma cidade, ao povo daquele lugarejo, naquelas alturas dos anos trinta, representaria a sua grande independência sócio-política. De uma vez por todas se tornaria um lugar autônomo, detentor de seus direitos sociais e de seus deveres, políticos e comunitários. A autonomia citadina faria a palavra villa ser retirada do dialeto cotidiano  daquele lugarejo. Aquela noite de sete de agosto de 1932 ficaria na história municipal da Cidade de Coari como o “dia da independência estadual aos coarienses”. No salão nobre da Prefeitura municipal, localizada naquele momento à Praça Epitácio Pessoa (outrora Péricles de Moraes), várias personalidades da época lotavam todos os espaços livres daquele recinto a celebrar e a sacramentar a Ata à resolução citadina.  Naquele momento a população do município, em si, era de pelo menos sete mil pessoas. Contudo, na Villa, sede do município, havia cerca de dois mil e duzentos habitantes. Dentro da prefeitura, que estava com sua lotação total, havia menos de 100 pessoas, envolvidas no solene momento de instalação do Termo e, de assinatura àquela Ata celebrativa. Pela Praça, outras centenas notabilizavam o acontecimento histórico daquele ano. O prefeito daquele episódio, em Coary, era o Capitão Alexandre Montoril. Já se fazia presente no cenário local há pelo menos cinco anos, desde o trágico assassinato de Herbert Lessa de Azevedo, ocorrido em 1927. Montoril seria o responsável pela segunda grande intervenção urbanística em Coari, a partir das intervenções do Coronel Augusto Celso de Menezes, do ano de 1896 (final do século XIX). Os acontecimentos sociais, de caráter trágico, nos anos 20 do século XX, deixaram no seio daquele lugarejo um clima de pesada carga dramático-depressiva. O prefeito havia dado inicio à reorganização da sede do município, entretanto, suas intervenções não agradariam a todos, havia os opositores.  Na Ata da celebração, à nova condição da cidade, por exemplo, não consta o nome da família Dantas, maiores opositores do governo de Montoril. O documento aqui expresso foi transcrito da obra de Anísio Jobim:

Considerando que a Vila de Coary é hoje o centro de maior lavoura do Estado, possui edifícios públicos, ruas e praças bem traçadas, estação de rádio telegrafia e estação elétrica;

 

Considerando que sua população ordeira e laboriosa ascende a mais de 1200 almas, integradas no município cuja renda monta a mais de 100.000$000 anuais,

R E S O L V E:

Art. 1º Fica elevada a categoria de cidade a atual Vila de Coary.

Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário.

Palácio Rio Negro, em Manaus, 02 de agosto de 1932.

 

 

Waldemar Pedrosa

Secretário geral do Estado, no Exercício da Interventoria Federal

 

ATA da Sessão Cívica Realizada em Coari-Am, Comemorativa de Sua Elevação a Categoria de Cidade

Aos sete dias do mês de agosto de 1932, no salão nobre da Prefeitura Municipal de Coari-Am, às vinte horas, reunido o povo desta cidade, representado pelos seus principais elementos sociais, para em Sessão Cívica festejar a elevação de Coari à categoria de cidade, conforme Decreto de nº 1.665 de 02 de agosto deste ano, do Exmo Senhor Waldemar Pedrosa, digno secretário geral do Estado, no exercício da Interventoria do Amazonas. O Prefeito Militar, Capitão Alexandre Montoril, abriu a sessão e, em seguida concedeu a palavra pela ordem aos oradores inscritos. Doutores: Raimundo Santos – promotor público, Henoch Siqueira Cavalcante e Dolabela Balbi, todos os oradores foram delirantemente aplaudidos, tendo-se ouvido no decorrer das orações, repetidos vivas aos senhores: Capitão Tenente – Rogério Coimbra. Dr. Waldemar Pedrosa e ao Chefe do Governo Provisório da República. Na ocasião foi levantado pelos oradores referidos, a idéia da criação de uma cooperativa de proteção a lavoura e a pecuária, ficando marcada para o próximo domingo, dia 14, uma reunião para ser a mesma fundada. Encerrou-se a sessão com o Hino Nacional cantado pelos alunos da professora Benvinda Gonçalves Nogueira. E para constar eu, Francisco Braga, servindo-se de secretário, escrevi e subscrevo.  Alexandre Montoril, Raimundo Santos, Henoch Siqueira Cavalcante, Júlio Augusto Bezerra, R. Barreto da Fonseca, Dolabela Balbi, Edgar de Paula Rodrigues, Naif Moraes, Manoel Antônio Damasceno, Cesarina Ponce, Damascena, Benvinda Gonçalves Nogueira, Eliza Montoril, Raquel Pinto Rodrigues, Veridiano Frazão Rodrigues, Clotilde A. Leitão, Jamil Cador, Manoel de Souza, Américo Vespúcio Leitão, Luiz Anastácio de Souza, Raimundo Montoril Junior, Francisco Silva, Júlio Bezerra Gonçalves, Lindolfo Sales da Silveira, Naif Salim, Paulo Issa Curo, Antônio Abnader, Alfredo Vieira Soares, José de Souza, João Pereira da Costa, Admar Escaname, Esmerindo Pedro Vieira, Agostinho Freitas, Diva Nogueira, Francisco Gonçalves, João Inácio, José Máximo de Miranda, Antônio Serpa do Amaral, Horizontina Lopes da Silva, Paulo Nogueira da Rocha, Francisca Silveira Martins, Hortência Chaves Peres, Alzira Maria dos Santos, Francisco Rodrigues dos Santos, José Chyspim de Almeida, Raimundo Alves Monteiro, Rogério Solimões Santos, Pedro Ferreira de Paiva, Clotário de Assis Bezerra, Joaquim Rodrigues de Araújo, Álvaro Ponce da Silva, Raimundo Anastácio de Souza, Antônio Borges Cardoso, Izídio Ferreira Lopes, Pedro Rocha da Silva, Júlio Chyspim, João da Rocha Linhares, Antônio Alves de Melo, Aretiano Firmino Boaes, José Silvério, Raimundo Sebastião, Geraldo Cintra, Jorge Antônio de Moraes, Pedro Severiano de Souza, Machado, Moisés Azulay e Shalon Chamy. * dados catalogados da obra de Anísio Jobim de 1933.

A partir daquela noite, aos coarienses da velha Villa, estaria validado o título de “cidadão coariense”. Alexandre Montoril estava na cidade, como intendente, desde meados de 1927. Por isso, suas ações à emancipação do lugarejo, como cidade do Estado, haviam lhe rendido frutos. Sua permanência no poder, por tantos anos, o tornou um novo mandatário da Cidade. Isso desagradava aos antigos coronéis da Villa. Mas era uma espécie de “briga entre cachorro grande”. Em cinco anos, constituiu um novo grupo político ao poder e ao comando de Coari. O antigo grupo da Ruy Barbosa, comandado por Deolindo Dantas, perdia espaço e força. A nova elite, desde sua chegada, se formou entre os grandes comerciantes e intelectuais daquela cidade, residentes na antiga Praça XV de Novembro. Tão logo a transformariam na atual rua XV de Novembro. Em meados dos anos trinta, havia muitas obras em andamento pelo Centro histórico de Coari. As nomenclaturas dos antigos logradouros públicos foram sendo modificadas pouco a pouco. O tradicional porto, de embarque e desembarque da cidade, foi reloucado ao Centro, à Praça Epitácio Pessoa. Foi-lhe instalado um pequeno farol ao balizamento dos Vapores que passavam à noite pelo Solimões. Deu-se o início da escavação, à enxada, da rua Péricles de Moraes (hoje Gilberto Mestrinho), com o intuito de prolongar os espaços da Praça principal, em direção ao lago de Coary. Enquanto tudo isso ia acontecendo, ao novo panorama da recém-criada Cidade, o local da velha elite ia sendo esquecido, pouco a pouco também.  Tudo a ver com a disputa pelo poder entre os Dantas e Montoril. Por causa do entrave, a Rua Ruy Barbosa chegou à atualidade sem grandes feitorias em seus contornos geográficos. Arrastou por décadas um histórico de exclusão. Em 1937 a administração daquele Capitão militar é destaque na antiga revista do Governo do EstadoCabocla. Uma série de inaugurações rodeava a cidade naquele momento. O Grupo Escolar João Pinheiro, um dos primeiros da antiga Villa, foi demolido da Péricles de Moraes. Um novo prédio escolar foi construído à Praça de São Pedro, mas não seria mais o “João Pinheiro”. Seria o Grupo Escolar “Francisco Lopes Braga”. A antiga Praça havia sido desfeita e desarborizada a se tornar a moderna Rua 15 de Novembro. Foi uma das primeiras a ter luz elétrica e esgoto na cidade. Afinal Montoril morava ali. Quatro Praças rodeavam Coari nos anos de 1930, sendo que uma recebia menos atenção dos administradores: a antiga Praça de Sant’ Ana, nos altos do bairro de Sant’ Ana (hoje o Tauá-Mirim). Atualmente a rua Eduardo Ribeiro demarca a antiga Praça, próximo ao cruzamento da rua Ruy Barbosa. A Praça Epitácio Pessoa (atual Getúlio Vargas), XV de Novembro (hoje apenas rua) e a Praça de São Pedro, hoje de São Sebastião eram as grandes áreas de identidade histórica ao passado da velha Villa. Em 1938 a face do antigo vilarejo já não mais lembrava os anos finais da década de 1920. As tragédias ocorridas naquele período já estavam sendo esquecidas pela população. Tudo “graças” à ação inovadora das modernas obras do prefeito Montoril. A nova primeira rua da cidade ganharia o nome de Rua da Independência. Aos dias de hoje, soa como referência a 7 de setembro (também), o que na verdade dos fatos, tem a ver com a celebração da Ata da cidade, a 7 de agosto de 1932. Por isso não foi chamada de “Sete de Setembro”. A antiga Praça do comércio da velha Villa, a partir daquela época, tomaria a identidade da Rua 15 de Novembro. E assim, as outras vias iriam sendo redenominadas: a antiga Péricles de Moraes, seria a que conhecemos em nossos dias como Gilberto Mestrinho. A principal rua da Praça, a qual passava do lado direito da antiga prefeitura, a mais longa da Villa, se estendia até os confins do bairro de Sant’ Ana (hoje Tauá-mirim). Aquela fora re-denominada como Dois de Dezembro. À época, um decreto do Estado, de 24 de junho de 1928, lhe dera o nome de Herbert Lessa de Azevedo. O Foi desconsiderado pelo novo prefeito da cidade. A rua nova, Barão do Rio Branco, também ganharia nova nomenclatura. Chegou à atualidade com o nome de Cinco de Setembro. A tendência e o capricho militar do Capitão Alexandre Montoril, o fez redefinir a identidade dos lugares e ruas ao Centro Histórico da cidade. A identidade original da antiga Villa, naquela década, foi modificada da forma que o quis. Até o nome da Praça da Catedral, São Pedro, passaria a se chamar São Sebastião (padroeiro católico dos militares). Todas as novas denominações representavam tendências alusivas ao sentido bélico e ao militarismo. Surgiria naquele momento a rua Marechal Deodoro, o “grande” militar da proclamação e primeiro mandatário da República brasileira (proclamada em 15 de novembro de 1889). Dessa forma, em Coari, foram surgindo às novas denominações de ruas aos bairros, com alcunhas de militares: Major Zeca, Coronel Gaudêncio, Capitão Silva, Coronel Maurício, Bairro Duque de Caxias e etc. A cereja do bolo de Montoril, em meio às empreitadas de reidentificação urbana dos logradouros de Coari, aos tradicionais espaços públicos, foi decretar, a 20 de setembro de 1938, a nova denominação da principal Praça de CoariPraça Getúlio Vargas. Trocou a nomenclatura de um velho presidente ao da nova época. Há 80 anos, foi assim chamada, e não perdeu mais aquela nomenclatura. Contudo, para por aquele nome, construiu ali um clássico coreto, um obelisco marcando sua permanência no poder da cidade e, uma herma, com um busto de bronze em homenagem ao ditador Getúlio Vargas (tudo dissolvido à atualidade). A ambição de se perpetuar no poder fez Montoril se deslumbrar em Coari. Por mais de duas décadas a cidade esteve em seu comando. Apesar disso, seu poder era limitado, pois os recursos as suas obras assim também o eram. De qualquer forma ele foi ousado realizando bastantes obras à cidade. No cemitério de Santa Terezinha ergueu a nova capela que até hoje lá está. A antiga, construída pela jurisdição de Tefé, ao final do século XIX desabou. Montoril construiu também a primeira mureta da frente e, o necrotério público, aos velórios e espera dos “acatólicos” – assim os eram dito aquela década. A construção da ponte Álvaro Maia, no final da Independência, ligando-a ao Alto do Bode (hoje Gonçalves Lêdo), foi também um dos grandes marcos de sua administração. Em geral, “pouco” ficou de todo aquele legado fundado por Montoril. Um administrador dificilmente olha pelas obras de seu antecessor. Estupidamente as abandona (assim abandona o povo). Um dos momentos do entrave de Montoril foi esquecer de zelar à área inicial da cidade, a rua Ruy Barbosa e Praça de Sant’ Ana. Chegaram aos nossos dias sem grandes molduras (ou nenhuma). O escritor Francisco de Vasconcelos conseguiu, em sua obra, sintetizar a trajetória de Alexandre Montoril, do nordeste onde nasceu ao falecimento em Manaus nos anos setenta do século XX. Assim nos escreveu Vasconcelos:

De ascendência lusitana, Alexandre Montoril nasceu dia 31 de janeiro de 1893, na cidade de Assaré, no Ceará. Era filho de Joaquim e Luiza Montoril. Tinha três irmãos: José, Antônio e Maria. Em 1898, seu pai transferiu-se para o norte – Pará, deixando-o em companhia da mãe e do irmão José. Teve infância pobre, trabalhando como ferreiro. Não satisfeito com essa profissão, dedicou-se a arte de ourives. Ainda no Ceará (Crato), para onde se transferiu com sua mãe, foi fiscal da prefeitura (cobrador de impostos na feira). Em 1907, morreu-lhe a mãe, sendo acolhido, então, pelo irmão José. Em 1909, transferiu-se para Macapá, onde tinham passado a morar dois de seus irmãos, não demorando a acompanhar o pai nos trabalhos de um seringal no Tapajós. Em 1910, morrendo-lhe o pai, e sendo acometido de beribéri, aguardou o fim do fabrico e voltou ao Ceará, logo se restabelecendo. Era, então, época de grandes conflitos políticos, “o povo contra Governo”, contenda da qual saiu vitorioso o famoso caudilho cearense, Franco Rabelo. Em dezembro de 1912, chegou ao Amazonas e, em 1913, sentou praça na força policial do Estado, onde fez rápida carreira, chegando ao posto de coronel. Em 1916, ingressou na faculdade de odontologia de Manaus, diplomando-se em 1920. Foi delegado de polícia em Tefé (1920/22), em Maués e em Eirunepé. Em 1923, contraiu núpcias com Elisa Oliveira e, nesse mesmo ano, foi nomeado interventor em Itacoatiara, no rápido governo revolucionário de Ribeiro Júnior, expressão maior no Amazonas, do movimento tenentista que dominou o Brasil na década de 20. Em 13 de janeiro de 1927, foi nomeado Prefeito Militar de Coari, sendo, então, promovido a capitão, passando para a reserva remunerada. Embora, posteriormente, tenha alcançado as patentes de major, tenente-coronel e coronel, sempre foi conhecido por Capitão Montoril, como o é lembrado. Esteve à frente da prefeitura de Coari, oficialmente, nos períodos de 1933 a 1940 e de 1941 a 1950. Deputado Estadual nos anos de 1941 a 1950. Deputado Estadual nos anos de 1951 a 1959 elegeu-se Prefeito em 1960, mandato que se encerrou em 1963. Morreu em Manaus, pobre, vivendo dos proventos de oficial reformado da Polícia Militar e de honorários que modestamente cobrava de sua profissão de dentista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O PREFEITO CLEMENTE VIERIA

“Clemente Vieira vem ai pra alegrar o povo de Coari!”

Era esse o verso da cantiga que anunciava Clemente Vieira Soares, como candidato à Prefeitura da Cidade de Coari, ao final dos anos de 1970. É um dos grandes e populares prefeitos da memória político-social da cidade. Foi um tópico à parte, ao município amazônico de Coari, do tópico que o Governador Eduardo Ribeiro foi a Manaus-Am, ao final do século XIX. Quando Clemente Vieira é eleito prefeito, em meados dos anos sessenta, começaria um novo tempo à cidade. O cenário sofreria com grandes intervenções que transformariam o lugar, sem igual, aos dias de hoje. As intervenções de Vieira seriam conseqüências das de Montoril. Todavia, muitas obras de Montoril seriam extintas na gestão de Vieira.  Dessa vez, ocorreriam não apenas no Centro Histórico, mas em vários bairros da localidade. O major Augusto Celso de Meneses havia urbanizado a frente da Villa em 1896, nos anos de 1930 fora Montoril o interventor. Clemente, aos anos sessenta e setenta, seria o baluarte da situação no século XX. Supõe-se que as obras de aterramento, no Centro da Capital amazonense, praticadas no final do século XIX, serviram como exemplo e inspiração (ou parâmetro arquitetônico) às transformações urbanísticas, praticadas pelas administrações de Clemente Vieira e Montoril. Alexandre Montoril, intendente da cidade no período revolucionário (década de 1930), foi o que deu início às operações, “inexplicáveis”, de aterramento à área central. As interferências de Montoril se tornariam o núcleo das idéias que desconfigurariam o cenário da outrora Villa de Coary. As mediações urbanísticas à continuidade da Praça Getúlio Vargas, em direção do lago, começariam com ele. Ao início da década de sessenta ele retornou à prefeitura, mas logo em seguida daria início à nova administração de Clemente Vieira. Vieira seguiu o plano de Montoril, com mais ênfase, teve que continuar de onde ele começou. Quando Coari foi elevada à cidade, em 1932, todos os serviços urbano-administrativos funcionavam na Praça Getúlio Vargas (antiga Praça Péricles de Moraes): o Mercado Municipal, a Prefeitura, a Promotoria, o Cartório, a Biblioteca pública e todo o comércio, em geral, estavam ali instalados e centralizados. O porto flutuante, de embarque e desembarque, também foi deslocado ao meio de toda aquela dinâmica urbana. Francisco de Vasconcelos, guardador literário da memória subjetiva da cidade, nos descreve um pouco da originalidade e dinâmica daquela praça em sua rara obra: “Coari, um Retorno às Origens”:

A “Praça Getúlio Vargas”, bem ampla, sobretudo em sua extensão, era sem dúvida a cara da cidade. Vista do lago, divisava-se claramente o prédio da Prefeitura com suas muitas janelas, que ficava na esquina da Rua da Frente (hoje Dois de Dezembro). No lado oposto, ou seja, no lado direito de quem descia a rua, a casa da família Abnader. Toda ela, lembro-me perfeitamente, pintada de amarelo. Ligada à Prefeitura e dela fazendo parte, destaca-se estreito prédio de dois andares, em cujo pavimento térreo me recordo de ter havido incipiente Biblioteca Pública.  Logo a seguir vinha o Mercado Municipal, prédio de duas largas portas, a ele seguindo-se algumas casas residenciais. *Vasconcelos

Montoril começou a escavar onde hoje está a Rua Gilberto Mestrinho (antiga Rua Péricles de Moraes), e assim, reutilizou toda a terra (retirada daquela) ao aterro da nova praça. Mais de trinta anos depois foi à vez de Clemente Vieira, o qual transformou o restante da paisagem da cidade ao que hoje se conhece. Foi ele quem aterrou todos os igarapés que cortavam as várias áreas do Centro. A paisagem que se tem hoje à cidade, em nada nos lembra a imagem remota, da Coari dos anos trinta e quarenta, no século passado. A que Francisco de Vasconcelos nos fala em sua recente obra e que muitos a desconhecem. A visão de Clemente Vieira Soares presenteou o futuro da cidade, com o cenário, no qual, os coarienses dos anos 70 começariam a nascer. A partir daquela década, principiaria uma nova era urbanística municipal. Apesar de ter sido eleito a dois mandatos municipais, Clemente Vieira não conseguiu concluir todas as obras emblemáticas que projetou. Alguns prefeitos como: Roberval Rodrigues da Silva, Evandro Aquino de Oliveira e Odair Carlos Geraldo as concluiriam. O que Clemente nos legou, foi obrigatória, aos futuros administradores a conclusão. Se assim não o fizessem a cidade estaria com um cenário “incompleto”. Não seria o que hoje o é. A Feira do Produtor Rural e a “área final” da Rua XV de Novembro foram obras dos prefeitos: Roberval Rodrigues, Evandro Aquino e Odair Carlos Geraldo (em seus respectivos mandatos). Entretanto, “todas” iniciadas por Clemente. Foram nos mandatos de Odair Carlos Geraldo e Jamil Moraes que a Praça Getúlio Vargas sofreria, mais uma vez, com novas intervenções urbanas. Durante toda a história daquela Praça, por mais de quatro vezes, já houve grandes modificações ao cenário clássico-original e mudança de sua nomenclatura. A originalidade do entorno daquela perdeu-se, junto às aspirações de alguns administradores públicos. Uma das maiores intervenções sofridas, aos dias de hoje, à Praça, foi a instalação de uma imagem (gigante) do “Cristo Redentor”, por sobre uma capela erguida a Nossa Senhora de Aparecida (Padroeira do País). Isso significa dizer quê, o que se tinha como resquício do passado, ao local, deveria ter sido preservado, como fato cultural à história da projeção daquela área de raiz à face da cidade modernizada. As atuais intervenções têm sua importância histórica também, pois traduzem os anseios às novas épocas. Contudo, não se podia aniquilar o que já se tinha implantado, como obra e adereço urbano que contam e/ou narram sua trajetória. Tudo deveria ter sido melhor aplicado, sem retirar (ou interferir) o que já se tinha como história. Cada vez que se introduz ou se subtrai elementos daquele local, abre-se sempre um novo vazio. A admissão de novos dados sobre aquele cenário nunca nos deixarão revisar o que foi e como foi o panorama da história inicial à mesma. Árvores plantadas no final do século XIX, obras aplicadas (como o antigo coreto), o busto de bronze de Getúlio Vargas, um antigo chafariz azul, tudo foi retirado a se dá “novo” aspecto a um dos locais mais emblemáticos e históricos da atual Cidade de Coari. Essas intervenções, desavisadas, compõem-se num grande exemplo de aniquilação e extinção à memória-social e ao patrimônio público. O jogo de espaços cronológicos cujo constituiu o Centro e, o bairro de Tauá-mirim, determina a gênese da cidade, de forma histórica. A urbe nasceu naqueles espaços físicos, todavia deveriam ser sempre preservados. Jamais conseguiremos reconstruir ou, reconstituir, a personalidade original daqueles ambientes novamente. Apesar de muitos lugares serem simples e nos ajudarem a recompor um pouco do perdido, não nos aludimos, de forma fiel, a esses detalhes depauperados. Entretanto, são riquíssimos os detritos que definem o sentido real à história e memória local. Apesar de toda intervenção empreendida pelo prefeito visionário (Clemente Vieira) terem sido de fundamental importância, à estrutura da cidade, a única homenagem póstuma que a cidade lhe creditou foi à doação de seu nome ao mercado público-municipal.  Por sua ação inovadora e progressista, “Clemente Vieira” mereceria homenagens mais louváveis. Aquele mercado está situado à Rua Independência, no Centro daquela cidade, “de costas” pro lago de Coari. O processo de desmemorização, provocado pelas interferências dos contextos históricos nos locais de raiz, à cidade, provoca o desaparecimento dos rastros dos que a fundaram e a construíram no passado. Esse processo esvazia o sentido humanitário de predominância à inteligência social e, à dinâmica de se aprender e de se ensinar sobre a constituição histórico-estrutural. Também, renega o mérito a muitos coarienses, principalmente os que a ajudaram formar sua história urbana e social. O nome de Clemente Vieira Soares, fica na via da história da cidade, como um dos visionários que ousou e realizou a construção do novo cenário urbano à Coari do amanhã. Fazer isso, aos dias de hoje, é algo nulo e improvável. Afinal, o que tinha de ser feito ele o fez em seu momento de rematar à história da cidade. Foi um político intrépido à estrutura urbana e ao futuro.

 

AS VÁRIAS COARIS

À biologia, várias fases são necessárias a se formar os traços típicos à vida, a cada um de nós. A concepção é a primeira fase, antes do nascimento. Depois que nascemos, temos longos 12 anos a percorrer pela infância, e somente assim, chegar à adolescência. A partir daí, seis anos vai ser o tempo a chegada à maior idade. Enfim, 18 anos nos são dados, antes de nos tornarmos efetivamente quem deveremos ser. Depois dos 21 anos, estamos aptos a assumir nossas marchas particulares, a sermos realmente quem o somos ou nos tornamos. As antigas fases ficam como lição ao nosso percurso subjetivo: Infância, juventude e mocidade.  Como organismos, nossa identidade assim é definida à vida toda. A uma cidade, povoada de milhares e milhares de habitantes, durante décadas e décadas, o desenvolvimento não ocorre tão delineado quanto no processo da vida. As cidades, muitas vezes, ganham várias identidades, outras vezes as perdem e assim nunca mais as encontramos. Ao nosso organismo encontraremos sempre algo que caracterizou nossa cavalgada biológica: um brinquedo de infância, uma música romântica da adolescência ou uma roupa da moda, à fase da juventude despojada.  Mas à cidade, nunca se recuperará o clima e a serenidade de outras épocas vividas. Porque a vivemos em várias épocas e em vários momentos da sua história. As Coaris do passado devem ser reelaboradas na imaginação, por um contexto figurativo, a todos os momentos, décadas e períodos de sua existência. Não há como recuperá-las, se assim não o fizermos, pois já sepultamos a maioria delas, senão todas. Primeiro, por ser Coari, primordialmente, a floresta intocada dos povos étnicos (nossos antepassados), depois a chegada de seus exploradores brancos: as conquistas, os aldeamentos, o Lugar e a Villa. E finalmente a Cidade emancipada. Percurso esse longo e complexo da nossa história. Por isso, várias Coaris. Pouco ficou daqueles períodos primitivos e distantes. Mas o lugar ficou. E pelo navegar dos barcos no rio, pouco vai ficar de nossas épocas também. Todavia, ficamos, e podemos recontar tudo de novo como o foi. O cenário original, de Lugar, foi remanejado, foi transformado na Vila de 1874. Depois chegou à cidade oficial, com anseios de ser grande e imponente, dentro do lago. Por isso foi posto a baixo o cenário urbano primeiro do lugar. Mas não deu tão certo a empreitada por que hoje a cidade está mais complexa. Agora, as duas primeiras décadas do início do século XXI, pôe-se abaixo o cenário recriado, pós-colonização, a se sustentar uma imagem comercial urbana à ambição, ostentação, pompa, suntuosidade e opulência. Nesse passo (largo até demais), a cidade devasta sua memória de Aldeia, de Villa e de seu municipalismo clássico, o do início do século XX. Essa propensa atualização, constituída pelos conceitos da modernidade econômica, ditada e imposta ao ocidente do mundo, não nos permite, às localidades regionais, o bom trato as nossas memórias históricas. Porém, é uma devastação “necessária” aos novos anseios populares. Foi essa a forma que, o lado oriental do mundo, encontrou a impor suas idéias universais de mercado (progresso e consumo). Assim o novo mundo (ocidente) entende que modernizar é “aniquilar” o antigo a se estabelecer e regular o “novo” ao meio em que se habita.  O primeiro porto comercial, de embarque e desembarque fluvial, da antiga Coari, ao início do século, foi no local do antigo igarapé de São Pedro, depois o mudariam à Rua XV de Novembro (Praça Getúlio Vargas). Por fim a Rua Independência, aonde até hoje se encontra.  Mas ao momento de instalação da Villa, em meados do século XIX, o porto ficava as margens da clássica Avenida Ruy Barbosa. Foi lá que a antiga Villa começou a nascer. Os índios “aldeados”, pelo padre Samuel Fritz, não se encontravam no mesmo local onde a cidade está hoje. Aliás, o primordial aldeamento nunca foi naquele local. Provavelmente permaneceram mais acima (ou mais a baixo?) pelo rio Solimões. Anísio Jobim, “raro” e “único” escritor da Coari antiga (que era nordestino e não coariense), nos descreve o ponto da remota localização:

A posição em que está este povoado, não offerece proporção para o seu desenvolvimento; é açoutado de ventanias fortes, o solo é árido e a distância em que está da foz do rio difficulta o acesso, principalmente no tempo da secca, por haver uma cachoeira na parte mais estreita da bahia que só permite passagem a montaria. (Anísio. Pág., 18 e 19)* português da época

Ao lermos esse trecho, transliterado da obra de Anísio (com o mesmo português da época), observamos de que forma a situação era vista por alguém de visão, de ordem e de progresso, ao local da Coari do início do século passado. Quando abancamos uma rápida leitura sobre as datas destacadas, em relação à evolução historiográfica, e ainda, da seqüência de episódios históricos, a organização e reorganização político-social, sobre o município, fica a impressão de que tudo foi projetado num “estalar de dedos”. Do momento do aldeamento, em 1689 no século XVII à convenção de cidade em 1932, tudo nos parece resumido numa “piscada de olhos” ou num “sopro de vento” sobre o rio Solimões. Entretanto, da projeção da conquista da região (pelos missionários portugueses), do avançar dos pretensiosos estrangeiros, das transformações do Império à República, até a elevação do Estado do Amazonas à categoria de província, a pequena Aldeia e Villa seria sempre subjugada e jurisprudenciada de acordo com os regimentos impostos pelas sedes dos governos vigentes (daquelas épocas). Por isso, tantas mudanças e termos (atribuídos e desatribuidos), até finalmente a seqüência, oficializada, da emancipação da cidade antiga ao patamar de independência sócio-política.  O 2 de agosto, de 1932, não é apenas e tão somente o momento pomposo e glamoroso de se festejar o “aniversário daquela cidade”, mas sua ascensão (física e política) a sua própria área geográfica. Ascensão, essa proferida por seus representantes legais e administrativos, a cerca dos assuntos pertinentes ao cerne da cidade. Todo esse processo histórico levou seus bons duzentos e quarenta e três anos, acertados, a ser constituído.  Hoje (2017), somando-se a idade da localidade atual (02/08), obteremos a quantia de trezentos e vinte oito anos (completos), de existência e fundação regional.  Se a cronologia da história oficial fosse registrada, a partir desses fundamentos, essa Coari de hoje teria a idade histórica de 328 anos de construção e identidade cultural (e a tem). Todavia, comemora-se apenas sua fundação de Cidade, derradeira, desde 02/08/1932. As outras fundações históricas foram apagadas das comemorações sociais da cidade, aliás, pouco devem ter sido comemoradas. A Coari de 1874 e a de 1932 não tiveram tempo nem chance de comemorar data nenhuma ao hoje. Não chegaram aos nossos dias. Os dados que são repassados, de forma didática, para se “aprender” sobre a fundação histórica do município censuram alguns aspectos relativos ao processo da tal história, como realmente possa ter sido. Mesmo assim, alguns daqueles não são apontamentos fidedignos, os quais possam ser digeridos como carga final da verdade (a qual se almeja), enquanto contexto próprio à seqüência histórica dos acontecimentos e dos fatos oficiais. Ser educado num país subdesenvolvido acarreta-se isso. Os interesses são - a formação do cidadão como “função”, não privilegiam o “pensamento” subjetivo e pesquisa científica. Fritz não foi o primeiro (nem o único) a percorrer essas cercanias onde se originou a Coari dos tempos novos.  Quando por aqui aportou, o rio Solimões ainda nem tinha esse nome, era chamado apenas de Amazonas. E quem tinha batizado esse rio, foi ainda Francisco de Orellana, o qual também batizou o rio Negro de “negro”. Primeiro, Orellana havia posto o próprio nome no rio, (rio Orellana), mas depois que se defrontou com a suposta tribo das “mulheres guerreiras” (as Icamiabas – do Nhamundá), ele as comparou com as “amazonas da Capadócia", e assim, mudou o nome a rio das Amazonas. Com o tempo (e o machismo corrente), ficou apenas “rio Amazonas” - masculinizado. Ninguém sabe ao certo como as etnias antigas denominavam seus rios, ou até mesmo se era necessário denominá-los. Os Yorimã, que mais tarde foram chamados de Yolimã (e só depois de Sorimã e Solimões), emprestaram o nome (de sua etnia) ao rio de águas turvas e barrentas. Tudo isso só foi acontecer no final do século XVII.  Aquelas mudanças, de nomes e confusões de articulações (de pronúncias das palavras indígenas), têm haver com as diversas línguas estrangeiras que se misturavam no centro da selva (uma “torre de Babel” amazônica): o espanhol (castelhano), o português (lusitano) e ainda, o alemão - articulado por Samuel Fritz. A língua de nossos antepassados deveria causar grande dificuldade de pronúncia aos estrangeiros naquele tempo. Aliás, quando qualquer um começa a conhecer uma nova língua, passa por esses constrangimentos e fase infantil de articulação. Aquela velha e fantástica teoria de que o vocábulo “solimões” seria proveniente do nome do rei “Salomão”, é um genial paralelo à imaginação mitológica a qual se constituiu sobre a suposta presença (muito remota) de Hebreus e Fenícios no remoto cenário da região amazônica. Dizia-se que aquele rei veio navegando pelos mares, até os amplos rios amazônicos, em busca de pedras e metais preciosos à construção do templo de Deus em Jerusalém... Foram mesmo várias Coaris e épocas que jamais voltarão, a não ser pelas letras.

 

A OUTRA HISTÓRIA OFICAL

Ao iniciar os anos noventa, século XX, o Governo do Estado do Amazonas lançaria um surpreendente trabalho didático, com o intuito de apresentar as escolas estaduais um singelo apanhado literário. A obra evidenciaria às crianças, em formação educacional, a origem de suas cidades e identidades étnicas. Foi à série denominada - Descobrindo nosso Município. A iniciativa foi sublime, entretanto o trabalho não se multiplicou e, com o passar das décadas, tornou-se obsoleto. A obra havia sido editada junto a Secretaria de Educação e Cultura do Estado (SEDUC), pelo seu núcleo de recursos tecnológicos. O trabalho apresentava, de forma didática, o percurso da história oficial da fundação das cidades e dos municípios do Estado. A partir daí, não se teve outras edições, atualizadas, daquela série de estudos regionais às crianças. Essas iniciativas, raras e louváveis, constroem as vias do processo de manutenção à memória cultural, política e social, ao futuro do patrimônio cultural das cidades e mundo. Se o Estado do Amazonas já é remoto ao restante do país, por estar localizado no centro hidrográfico da floresta Amazônica, Coari é então o “coração” do Amazonas. A área do município coariense é de 57.230 Km², localizado bem no centro do Estado. Só se chega àquela cidade de barco ou de avião. Não há vias terrestres ligando aquele lugar a outros municípios, assim é a realidade da grande maioria das cidades no interior do Amazonas. Seus limites geográficos são: ao norte e nordeste com o município de Codajás; ao sul e sudeste com Tapauá; a leste com Anorí; a oeste e sudeste também com Tefé; e a noroeste com o remoto município de Maraã.

A denominação da cidade, “Coari”, é uma palavra étnico-amazônica que descende do nheengatu e quer dizer: pequeno buraco ou buraquinho (furinho). Coara é buraco, adicionando-se o sufixo diminutivo “I” temos: Coari.  Sem a vulgarização significa apenas: “uma pequena passagem”.

Octaviano Mello narra em sua obra que, o ilustre Cônego Ulisses Penafort, no seu precioso livro “Brasil Pré-Histórico”, o significado da palavra coari ou huari, a qual denomina o lago a frente da cidade de mesmo nome, significa = rio de ouro. O citado nome pode ter se originado do linguajar “quíchua” – coya, cory – rio de ouro ou de huary-yu, rio dos deuses. O quíchua é um dialeto peruano falado até hoje naquele país. Na verdade, antes de ser denominada a cidade, o rio e o lago que a banham já haviam adquirido aquela denominação. No passado, era assim, alguns locais “ganhavam” os nomes dos lagos e dos rios aonde eram assentados. Segundo Anísio Jobim, a “boca do lago” (foz) de Coari, que dá acesso ao rio Solimões, foi um “furo” pequeno, por onde entravam pequenas embarcações e canoas, mas o processo de terra caída (erosão fluvial do solo), pela força da correnteza do Solimões, alargou a entrada, a qual chegou aos nossos dias com quase dois quilômetros de extensão, diz Anísio:

“A boca desse lago era antigamente no lugar Tonassal. Mas o Solimões na sua actividade cyclopica de construção e reconstrução, obstruiu essa boca, hoje coberta de aningaes, oiranas e araçá do igapó, e veio abrir outra, um quilômetro mais abaixo que é o atual desaguadouro do lago”. (pg. 29)

A fundação da história oficial do município de Coari, ao cenário do Estado do Amazonas, percorre um longo caminho pelos anais de acontecimentos políticos, geográficos e sociais, relativos e inerentes ao restante da região e do país, e até do próprio mundo.  Mas isso apenas se apreciado pela visão da etnia branca - a do conquistador europeu. As etnias morenas, que aqui se encontravam, quando as brancas chegaram, ficaram em desvantagem na história por desconhecerem a escrita gráfica, caso contrário, teríamos a versão dos fatos pela variante daquelas também. Se olhada por outro prisma (o da própria floresta Amazônica), passaremos primeiro pela vida mítico-selvagem dos povos, os que já habitavam todas essas áreas geográficas, muito antes da aportada de qualquer invasor, descobridor ou seja lá quem fosse. Por muitos séculos, havia um lado do mundo ainda “incógnito” ao momento “civilizado” do homem, do branco-europeu. A terra ocidental, chamada de América (pelos brancos) e de Pachamama (pelos morenos e peles vermelhas), ainda estava totalmente às margens da obscuridade, do conhecimento corrente, livre da ganância dos brancos. E tudo isso, a muito mais tempo do que os meros quinhentos anos da história que nos “ensinaram”. Quando Colombo chega à América do Norte (antiga Patchamama), a 12 de outubro de 1492, antes do fatídico 22 de abril de 1500 - de Cabral, não havia “registro” algum sobre essas terras pelas correntes de informações da Europa. Naquele tempo se dizia que ninguém conseguiria cruzar os mares a essas direções, pois se defrontaria com um grande “abismo” no final do horizonte oceânico. O planeta, na mente “quadrada” do branco europeu, não era redondo.  Um precipício, descomunal, era o que se encontraria em além-mar. Colombo resolveu se arriscar, e mesmo chegando do outro lado da esfera, não puseram seu nome à nova terra encontrada. Hoje seríamos “sul-colombianos” e não “sul-americanos”. Quem recebeu as honras já foi o outro navegador, Américo Vespúcio. A Mestra-professora amazonense, Neide Gondin, em sua obra, “A Invenção da Amazônia”, nos apresenta com melhores pesquisas e abstrações, as idéias da etnia branca sobre o pré-tempo, à viagem de Cristovão Colombo:

Especulava-se sobre a existência do antimundo. Confirmadas, mesmo, antes de Platão, somente a Ásia (Asu, por onde sai o sol), Europa (Ereb, por onde o sol se oculta) e África (Afar, a seca, por onde o sol caminha), que os gregos chamaram Líbia. Havia a crença de que a terra era mais extensa do que o mar-oceano, como dissera Aristóteles, e os limites, eram fixos: Sídon na Fenícia e o ponto Euxino no mar Negro em direção Leste, as colunas de Hércules e o Mar Tenebroso para o Oeste, a Trácia para o Norte e Típia e Abissínia ao Sul. Ao todo, simplificando em termos geométricos, é um disco plano cujas bordas eram formadas pelo rio Oceano, que rodeava as três partes. Ainda em 1457 o mapa de Toscanelli – celebrizado por ter sido utilizado por Colón – conservava os três continentes banhados por um oceano único. O formato redondo da terra era questão há muitos resolvida pelos doutos, principalmente árabes, mas o imaginário ainda estava povoado pelas histórias de um mar tenebroso que subitamente cessava e nessa zona limítrofe habitavam monstros que engoliam as caravelas dos arrojados viajantes.

Enquanto isso, em Patchamama (hoje América), as idéias das etnias que aqui já se encontravam, percorria o mundo de outra forma. Enganam-se os que imaginam que aqui, nesse lado do planeta, tudo era mesmo só um grande “paraíso”. Essa “invenção” cristianizada (ou arrumação), de paraíso terrestre, foi coisa do europeu inebriado pelas terras achadas. Aqui, antes da chegada dos brancos, já ocorriam guerras entre os clãs de várias etnias. Tribos e mais tribos disputavam jurisdição e monopólios. Já existia também até escravidão. Os membros das tribos que perdiam uma guerra se tornavam servis aos guerreiros vencedores. Havia civilizações imensas, por toda costa de Patchamama, somavam-se milhares e milhões de pessoas. Os primeiros conquistadores espanhóis se assustaram, ao ver tanta gente, quando aportaram por aqui. A eles a América só passou a existir a partir de 1492 – ano da viajem de Colombo. Na região do atual rio Solimões, onde hoje está Coari, no Amazonas, o povo Omágua estendia seus aldeiamentos por um território muito extenso. Chegavam praticamente até o atual Peru. Havia 50 aldeias de Omáguas, segundo Fritz, foram reduzidas a 38 missões. Essa parte da história não dá para contar muito, pois quase “nada” ficou registrado daquele povo. O “índio” só passou a existir nas escritas pelas vias dos cronistas e navegadores do século XVI. É precisamente nesse período, o da tal da história (a oficial), que começa a acontecer pra nós (coarienses) e a outras cidades do interior do Estado, a oficialização da nova terra e dos novos povos. Disseram que fomos “descobertos”. As mais remotas teorias, da chegada e da presença dos estrangeiros a essas planícies, nos fazem sair daquele mundo estreito (ostracismo), das decorebas de escola (dos anos setenta, oitenta, e noventa). Tínhamos que “ostentar” na memória: nomes, datas e fatos (ditos históricos) dos grandes vultos universais. O afunilado ensino de nossas origens nos fora negado naquele momento. Faziam-nos pensar que “aprendíamos”, e hoje, quase não colhemos muitos frutos do que se “estudou” naquele tempo. Lógico, frutos mais saborosos, pois houve um “ensino” e não se pode e nem se deve negar isso. Independentemente daquele momento, buscamos um entusiasmo novo a fim de se redescobrir o que nos negaram naqueles instantes mornos e arcaicos de aprendizado. Mas, talvez, não nos negassem, talvez tenham faltado material e registros novos, aos nossos antigos mestres. Por isso seremos sempre instigados a realizar uma viagem, muito maior, no sentido de se encontrar novas respostas às questões de um tempo o qual nos é tão remoto. Os cenários da Coari antiga, dos primeiros, são revestidos pela originalidade das terras intactas (pré-histórica), com seus igarapés e lagos totalmente virgens. E ainda, de uma fauna e de uma flora livres da exploração e da ganância da etnia branca.  Se olharmos com o poder mais aguçado da imaginação, conseguiremos transformar as partes altas da cidade de Coari (a de hoje), em locais cheios de vegetação típica. Tendo como base, essas partes altas, podemos imaginar os igarapés adentrando na floresta, outros desaguando no lago. Na imaginação, tiramos do caminho toda civilização que existe hoje. Na frente desse cenário todo, o azulado lago, que em remotas épocas de verão expunha uma exuberante faixa de areia, às belas praias das costas panorâmicas. No fundo do lago, as criaturas mais inimagináveis que as velhas lendas da região nos narram. Como habitantes humanos, naquele cenário “remoto”, apenas a presença de sua gente, tipicamente perfeita (e despida), suas ancestrais e reais etnias. Estas não tinham recebido ainda o cognome equivocado (de índios), dado pelos da etnia branca. Essa é a Coari de 1500, 1492 e de 10.000 anos atrás. Assim como em todo o continente, nossas áreas regionais estavam, um dia, livres da intervenção de estrangeiros e exploradores brancos. Isso quase nunca se fala. Nossos anseios, primeiramente, passam pela regra das datas e dos acontecimentos que fizeram a cidade tornar-se o que é atualmente. Talvez, se a história viesse sendo ensinada por essas vias, seríamos mais sensíveis às realidades dos antepassados. Quando se fala das antigas etnias, os repudiamos por serem “índios” – o que ninguém quer ser aos dias de hoje. Primeiro, nos ensinam a aniquilar a história primordial, depois, a passar por cima do meio natural, e assim vai-se direto às normas de nomes, datas, “descobridores” e de acontecimentos. A imaginação é desprezada na hora do ensino e do aprendizado a esse campo da história. O imaginário nos faz mais sensíveis ao mundo e às pessoas. Mas em geral, somos educados sem imaginação, tudo pelo contrário.  Desprezamos os ancestrais habitantes, estes, pela corrente do ensino, são meros e secundários figurantes que tiveram suas terras invadidas, saqueadas e sua cultura tribal destruída ou suprimida - os “famosos” e desconhecidos: “primeiros habitantes”. Quer dizer, alguém veio e depois os expulsou. Estranho, os primeiros habitantes do Japão foram japoneses e, não teve outros, até hoje são japoneses e falam japonês. A história oficial, posta em nossas mentes, é a do que saqueou, destruiu, explorou e exterminou. Esse é o “herói” da nossa história: o navegador, o descobridor, o desbravador. Inclusive falamos a língua deles. Tiveram sorte por saber ler e escrever... As outras etnias, as supostas tribos primordiais da região: os Iuri, os Mauá, os Solimões, os Irijú, os Catauxis e os Omágua (povos históricos da região), são meramente secundários coadjuvantes daquele primordial ato, o da etnia magna – a branca européia. Na prática, sabemos pouco sobre as etnias ancestrais. O que nos ensinavam no passado era sempre algo de caráter muito infantil ( lúdico ), e de proposital desafeto à cultura pura e nativa. A princípio, o que de maior fica em nossas mentes, são as canções, em “homenagens” ao dia do “índio”, entoadas, como forma de celebração às honra e memória, aos nativos, pelas escolas do passado:


Os índios de nossa terra

Eram selvagens e valentes,

Comiam caças e peixes,                                                                          

Frutas, raízes e sementes.

Acreditavam num deus,

Tupã assim o chamavam,

Porém, o sol e a lua,

Eles também adoravam.

Usavam arcos e flechas

Nas guerras e nas caçadas,

Chamavam a casa de oca,

Ao chefe de sua tribo:

Cacique ou Morubixaba...


A canção (de domínio público) era até simpática, fora isso nada mais nos pontuava, com maior propriedade, sobre a cultura de nossos ancestrais primordiais (será que os japoneses tolerariam cantar isso?!). Assim foi o modo de se ensinar, por muitas décadas, e por todo o país, sobre a cultura “indígena” (a étnico-regional). Era uma forma intencional de desarticular, a todos nós, o que a região e seus habitantes já foram um dia de verdade. Quanto menos aprendíamos daqueles povos menos ainda deixávamos de apreender sobre a selva. O conceito às etnias ancestrais, na região amazônica, era reduzido, como se as mesmas fossem um sujeito “acaipirado” da mata ao hoje em dia. Foi somente com a produção musical e poética, praticada pelos compositores do emblemático Festival Folclórico de Parintins-AM (aos anos 90 do século XX), que o Estado despertou a uma real imagem e resgate cultural, à ancestralidade da região amazônica. Somente com a veiculação da produção poética, musical, artística, coreográfica e da cênica daquele espetacular evento, o “amazonense” se viu e se reconheceu representado, pelo espetáculo inusitado dos parintinenses. Na poesia da toada “Índio”, do compositor amazonense Emerson Maia, o Festival consagrou à identidade regional a todos os sujeitos humanos e atuais da grande floresta:


Eu sou um índio.

Sou um índio guerreiro.

Sou também feiticeiro,

Mas eu não quero guerra.

Quero a paz na terra.

A selva pra caçar

E o rio pra pescar.

Eu sou um índio,

Pense nisso seu branco.

Já tirar-te o encanto

E o esplendor da floresta,

Quase nada me resta.

Eu só quero viver,

Ver meu filho crescer...

Me deixe em paz seu moço

Ou eu fico louco

Revendo os limites

Pra viver minha nação.

Não preciso do seu “saber”

Por que isso me faz sofrer.

Eu já tenho a pureza

Da mãe-natureza pra sobreviver.


Toada de Emerson Maia.


A poesia da musicalidade da toada, historicamente e politicamente corretas, aos dias atuais, pôs o caboclo cantando na primeira pessoa do singular, “eu” – pronome de consciência subjetiva, de afirmação, de ancestralidade e razão à identidade regional. A nova poesia, contrasta com a antiga cantiga didática, citada em terceira pessoa (excludente), parágrafos atrás. O amazonense “resgatou” seu “lado de índio” ao encontro real de sua miscigenação histórica.  A pequena cantiga “didática” (aquela citada parágrafos atrás) foi dissolvida frente à grandeza, beleza e oportuna e inteligente poesia da toada de boi-bumbá. A nova toada denotava denúncia, resgate social, político e cultural, reconstruindo e revisando a problemática sócio indígena, de forma sensível e humanizada, à atualidade, da grande floresta ao mundo. O escritor amazonense, Márcio Sousa, enobrece ao Festival do boi-bumbá em sua obra, História da Amazônia:

O boi-bumbá sempre foi utilitário e se passou a ser grande produção, é porque, a partir do final do século XX, as manifestações do rústico ganharam uma batalha imponente. A descompressão política, trazida pelo Estado Democrático, tirou a polícia das manifestações populares, e, em Parintins, como tem ocorrido sempre, o povo ocupou imediatamente o espaço. (...) O melhor de tudo é que o Festival de Parintins faz anualmente a revisão orgulhosa do imaginário amazônico, seduzindo a todos os brasileiros e muitos outros estrangeiros. E se ainda conserva fragmentos de um mundo rústico em aparente processo irreversível de extinção, o que se vê é um espetáculo que clama a plenos pulmões a vontade de um povo. Trata-se de uma ousadia.

 

 

AS OBRAS DE JOBIM E VASCONCELOS


O Grupo Escolar João Pinheiro, à praça Getúlio Vargas (à época Praça Coronel Gaudêncio) pode ter sido o primeiro grupo a ser construído na Villa de Coary. Em 1927, com o assassinato do prefeito Herbert de Azevedo, recebeu o nome de Herbert, por Decreto municipal de nº 76 de 1º de agosto de 1927. Foto de 1928. *acervo de Araújo Lima

O conjunto arquitetônico da Praça de São Sebastião, no Centro histórico da Cidade de Coari-Am, conjugou durante décadas as maiores características modernas ao cenário urbano daquele lugar, sendo o maior grupo de edificações ao panorama atualizado daquela cidade. A igreja Matriz, a casa paroquial e o colégio de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro eram os maiores e, emblemáticos edifícios daquela urbe, até o final da década de 90. Atualmente, já existem outras edificações monumentais, que representam “a nova Coari”, assim sendo, requalificam o conceito da modernidade urbana que se instala à atualidade. Resta saber agora se essa nova arquitetura conseguirá ser representativa, à história da cidade, daqui a noventa ou cem anos. Sobre a construção daquele patrimônio histórico-religioso, à cidade, o escritor regional, Francisco de Vasconcelos, o qual nasceu no município e viveu sua infância na Rua Independência (nos anos 30 e 40 do séc. XX), relata em sua obra - “Coari, um Retorno às Origens” que chegou a ver os próprios padres redentoristas (provindos dos EUA) darem início as obras daquele conjunto, aos idos anos de 1940: “Os próprios redentoristas começaram a cavar as fundações do que hoje é o Colégio, o Seminário e a residência paroquial”. Assim escreveu Vasconcelos. Os padres arregaçaram as mangas e as negras batinas a enfrentar o glorioso sol e calor da Amazônia. Naquela época a atual Catedral já estava de pé. A obra de Vasconcelos, concebida ao final dos anos noventa, e publicada ao inicio dos anos de 2000, é um raro e singular resgate memorial ao que Coari fora antigamente.  Aquele autor, que hoje reside em Brasília-DF, saiu da cidade aos dezesseis anos de idade (final dos anos quarenta), para morar e estudar na Capital do Estado. Após cinqüenta anos, retorna, resolve visitar a urbe de sua infância. Porém, ao chegar, depara-se com um lugar “moderno” e adornado de uma nova estrutura, a qual, praticamente, não preservou a memória histórico-municipal daquela cidade de sua época de menino. A Coary clássico-lírica, aquela dos anos 30 e 40 do século passado, foi “totalmente” devorada pela Coari dos dias atuais. Após a publicação de Anísio Jobim, do ano de 1933, não se lia e nem se via nada escrito sobre os causos e origens da cidade, como fez Vasconcelos ao início dos anos de 2000 (séc. XXI). Aquele autor é ilustríssimo agente do tempo, uma testemunha viva da Coari pós-municipalizada, a dos anos de 1932. Sua obra nos oferece uma sutil abstração sobre as primeiras três décadas da cidade ao início do século passado. Vasconcelos nasceu a 14 de abril de 1933 em Coari. Sua obra contemporânea é o único elo literário que nos será legado a visitar aquela subjetiva cidade, a dos anos 40 no século XX. Suas memórias traduzem um resgate à subjetividade, à cidadania da Coari antiga (século XX) ao nosso tempo. A reconstrução extraordinária da memória local é de extrema urgência ao patrimônio material e imaterial (aos nossos dias), realizada por Francisco de Vasconcelos. Apesar disso a obra de Anísio Jobim, Coary – Panoramas Amazônicos, publicada no início dos anos 30, consagra o amazonólogo e juiz de Direito, como único autor capaz de ter-nos deixado informações, melhores organizadas daquele tempo de Vila e Aldeia. Sobre Anísio Jobim, está publicado no Portal Amazonas, com informações de Ruy Lima, breve biografia sobre o mesmo, a qual se pode destacar aqui alguns pontos de seus diversos requisitos como um homem das Letras, Política, Justiça e da pesquisa sócio-cultural às coisas e cidades do Amazonas:

Manoel Anísio Jobim nasceu na cidade alagoana de Anadia, no dia 27 de março de 1877. Quando veio para o Amazonas, diferentemente de muitos outros nordestinos desalentados, foi para ser juiz na cidade de Itacoatiara. Estava com 33 anos, era 1910. Ele se formou na tradicional Faculdade de Direito de Recife aos 25 anos de idade. No Amazonas, além de ser juiz, ocupou vários cargos políticos e também foi professor da faculdade de Direito. Sua obra de pesquisa ao Amazonas é extensa, pois escreveu várias monografias sobre vários municípios do Estado. Anísio também ocupou a cadeira de nº 22 da academia amazonense de Letras. Faleceu em Manaus, a 13 de junho de 1971, aos 94 anos.





Escola Francisco Lopes Braga, construída para extinguir o Grupo Escolar João Pinheiro em 1935.



Através de sua obra se conhece fatos muito antigos e “perdidos” do município, como sobre a fundação da Paróquia de Sant’ Ana, ocorrida no remoto ano de 1774, século XVIII. Anísio ainda nos premia com dados históricos da igreja Matriz da cidade, de como foi fundada e qual o seu fundador. Conseguiu expor aspectos: históricos, humanos, geográficos, econômicos, curiosidades e fatos de grande relevância antropológica, da qual nem fazemos idéia. Desde a primeiríssima e única edição da obra de Jobim (em 1933), nunca mais houve interesse da parte do poder público (Estadual e Municipal), a uma segunda edição e atualização da mesma, de extrema relevância ao patrimônio cultural, não apenas à cidade, mas à própria região amazônica. A obra de Francisco de Vasconcelos nos brinda e, nos alerta, sobre o descaso com nossa história e memória cultural. Um dos momentos mais marcantes da obra, é sua histórica participação na inauguração da Escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, sendo um dos primeiros alunos matriculados naquele “colégio” estudantil. A leitura daquela obra nos faz caminhar por sobre tempos e períodos, às remotas Coaris, indo ao encontro das lembranças do tempo corrido e passado. Assim nos conta e nos re-apresenta nossa história urbano-social, de épocas mais remotas. É lamentável redescobrir todo um cenário que está ameaçado de desaparecer à posteridade. Vasconcelos narra ao hoje, em sua obra, à inauguração do famoso “Colégio Perpétuo Socorro”:

Finalmente, no dia 26 de Abril de 1949, às dezesseis horas, no salão de honra do prédio onde já funcionava a escola, achando-se presente o diretor do colégio de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Padre José Elworthy, a diretora da Escola Normal Rural, Irmã Maria Serafina e o corpo docente... Foi inaugurada a escola admitida, oficialmente, por ato do então Governador do Estado, Dr. Leopoldo Amorim da Silva Neves. Na ata irmã Serafina deixou expressamente registrado que a Escola já vinha funcionando desde março daquele ano, com matrícula de quinze alunos, cuja relação não posso deixar de transcrever, até mesmo por que encontro-me nela inserido. Foram, assim, pioneiros, da Escola Normal Rural de Coari, por ordem Alfabética: Calil Mussa Dib, Dulcídio Cruz da Silva Moraes, Ednéia de Almeida, Francisca Cavalcante Grim, Francisco Marques de Vasconcelos Filho, Hugo Cruz da Silva Moraes, Isabel Brasil Freitas, Joaquim Pereira Filho, Leonísia Sales Bastos, Luiz Freitas de Moraes, Maria Inácia Barreto, Maria Nazaré A. Silva, Marlene Diniz Figueira, Sebastião Rodrigues e Odaléia Rodrigues de Freitas (...). Entre os que assinaram a ATA, marcando presença, portanto, naquela festiva solenidade de inauguração, estavam os principais responsáveis pelo Instituto Popular de Coari (Hoje Escola Estadual Instituto Bereano de Coari), entre os mesmos, o Pastor Antunes de Oliveira.

A clássica escola, fundada por padres redentoristas, não foi à primeira “grande escola” da cidade. O Grupo Escolar, Francisco Lopes Braga (1935), foi fundado também na década de elevação da Villa de Coary à categoria de Cidade. Mas na obra póstuma, escrita à memória de Herbert Lessa de Azevedo, por Araújo lima, em 1930, o Grupo Escolar João Pinheiro cederia o espaço de nomenclatura a receber o nome daquele prefeito. O Grupo não chegou aos nossos dias, foi extinto. Apesar do Lopes Braga denotar o ano de 1932 em sua faixada, e ainda, ser considerado a “escola-mãe” de todas as outras da cidade, não foi o primeiro Grupo Escolar de Coari-Am. Aquele foi construído em 1935, segundo reportagem sobre Coari na antiga e extinta Revista Cabocla, de fevereiro de 1937. Segundo o que se consta nos anais da história, o nome daquele novo grupo escolar foi dado pelo intendente Montoril a homenagear seu primeiro professor no nordeste, de onde procedeu. A Escola Estadual Instituto Bereano foi fundada na cidade por iniciativa da Igreja Batista, ao ano de 1945, em plena ocorrência da segunda grande-guerra mundial. Apesar de todos esses grandes fatos históricos, o clássico prédio, do Instituto Bereano, não escapou da demolição a qual foi promovida pelo próprio Estado. No início dos anos de 2000 aquele clássico edifício, construído à década de 40 (no século passado), foi posto ao chão a dá lugar a uma “nova edificação”, erguida em formato de “pré-moldado”. Atualmente a escola continua sendo denominada de Instituto Bereano de Coari. Com exceção da denominação do edifício, a memória do antigo prédio, e ainda, grande parte da história da educação da cidade (de seus habitantes), teve grande acervo dissolvido junto à demolição promovida. Vasconcelos e Jobim tornam-se à atualidade, os grandes vanguardistas literários, ao cenário das Letras do Estado. São os únicos nomes na história do município capazes de nos ter legado um momento de honra à escrita, ao remoto panorama local, às vias das abstrações e ao campo da pesquisa e inquietações de resgate cultural amazônico. O resgate das lembranças, descritas por ambas as obras à cidade, respaldará as gerações que ainda virão, e, em algum momento, sentir-se-ão curiosas às coisas primárias de sua Coari, principalmente as das passadas décadas. Assim sendo, clama-se a todos que, de alguma forma, tem guardado resquícios e vestígios (imagens, áudios, documentos, objetos, etc.) no sentido de se respaldar ao futuro com o que o tempo ocasionará ou, nos permitirá figurar às futuras gerações, ao seu hoje e ao seu ontem.  Lembrar é viver, e viver é contar um pouco da própria história. Se assim não tivessem feito, pouco ou mesmo nada teríamos sobre outras épocas de Coari. Vasconcelos e Jobim assim o fizeram. Não há outras obras que nos possam fazer enxergar as Coaris do passado como eles traçaram em suas escritas. E agora, somos nós os responsáveis pela continuação e preservação da mesma história que, também, faz parte da história de cada habitante da cidade, e do outrora povo Yurimágua.



Rua 5 de Setembro, em 2004. Antiga Rua Nova e rua Barão do Rio Branco. Centro de Coari.




***

Os padres Redentoristas, fundadores de um grande legado educacional à cidade, chegariam em Coari somente ao final do segundo semestre de 1943, mas à Amazônia, se planejava desde o início de 1942. A princípio, sua missão inicial seria à Tailândia, mas com a explosão da segunda grande-guerra, os planos dos Redentoristas foram desviados à América do Sul: à Amazônia. Naquela época não sabiam nem mesmo a língua que se falava na região. Tudo começaria com a carta de Dom João da Matta Andrade e Amaral, Bispo de Manaus, em 1942. Ele escreveria à província de São Louis, em Missouri – EUA, solicitando auxílio ao Reverendo daquela missão nos Estados Unidos. Aquelas correspondências seriam os primeiros contatos estabelecidos, junto aos Redentoristas, que desconheciam, obscuramente, as realidades da região naquele período da nossa história. Em uma daquelas cartas, trocadas entre aquelas autoridades eclesiásticas, tanto brasileira quanto norte-americana, havia a preocupação com o sucesso da futura missão religiosa que não detia apenas cunho religioso, mas também atenção humanitária ao povo ribeirinho. Embora o Brasil fosse um grande território, destacado ao continente sul-americano, a visão dos estrangeiros ainda denotava o estigma que foi nos legado desde a chegada de Colombo à América, em 1492. Nossos ancestrais foram rebatizados de índios pela expedição espanhola daquele Italiano. Na carta do Reverendo Francis J. Fragen, da província redentorista nos Estados Unidos, de 28 de outubro de 1942, ao Bispo de Manaus Dom João da Matta, havia uma questão intrigante em relação à cultura do povo de Coari e Codajás. Na resposta à carta, ao Reverendo Francis Fragen, Dom João da Matta foi sucinto em afirmar aquele Provincial, em carta escrita pouco antes do natal de 1942:

A língua falada no Amazonas é o português. Não existem índios selvagens nas paróquias de Codajás e Coari. Todos eles são civilizados. Há, porém, uma enorme ignorância religiosa por causa da falta de padres. As pessoas são de caráter agradável e muito dócil. A população é completamente católica. *In Norman. Redentoristas na Amazônia.

Pelas letras trocadas, entre aqueles dois religiosos, é possível perceber que, à chegada aos meados do século XX, a Amazônia era ainda totalmente desconhecida aqueles estrangeiros cuja missão seria uma das mais nobres e virtuosas. O fato de não saberem que língua se falava no Amazonas, e muito menos, se nossos avôs e avós eram “índios” mansos (civilizados) ou, selvagens, nos denotaria a visão do mundo em relação à realidade regional que nos cerca até hoje. Com a chegada, convivência e familiaridade dos Redentoristas a Coari, conseguiram então entender nosso lado social. O perceberam muito mais carente do que o imaginavam. Principalmente em relação à educação. Pela Visão e memória do escritor coariense, Francisco de Vasconcelos, em sua “Coari um Retorno as Origens, temos o momento da chegada dos Redentoristas pelo olhar (de menino) daquele autor, naquela década de grandes acontecimentos:

Era o ano de 1943. Na beira do lago, nas proximidades do sobrado dos Dantas; na ponte sobre o Igarapé de São Pedro – bela ponte de madeira, hoje inexistente, e no velho trapiche que adentrava o lago, a multidão crescia a olhos vistos, disputando a melhor posição para ver, tanto quanto possível mais de perto, os padres que chegavam. Eu estava entre a curiosa garotada que, infiltrando-se aqui e ali, cada vez mais se aproximava da beira d’agua, onde os padres, finalmente, pisariam em terra firme. Era grande a euforia de todos. Os sinos da igreja repicavam em tom festivo e fogos estouravam a todo instante. * Vasconcelos

Enquanto o futuro escritor, em forma de um curumim, olhava deslumbrado à aparência dos padres estrangeiros: homens altos, de face rosada, pele branca e olhos claros, os estrangeiros também olhavam aos “nativos coarienses”, totalmente admirados, como se estivem chegando ao “planeta Marte”, ou a qualquer outro planeta do sistema solar. A partir dali, o olhar dos Redentoristas norte-americanos, se voltaria à remota região norte do Brasil, com muita atenção e sensibilidade humanas. Foi preciso ver pra crer e entender a realidade amazônica da vida cabocla. Inclusive aprenderiam em Manaus a acompanhar a procissão de Nossa Senhora de Aparecida, pois naquele tempo, desconheciam o ato daquela. Não existe nos Estados Unidos cortejo daquela magnitude. Mas procissão a Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, existe desde o século XIX, iniciada em Roma (as romarias). Toda uma logística foi prepara à vinda dos primeiros cinco padres, com destino aos municípios de Codajás e Coari, ao interior daquela desconhecida floresta tropical. Depois, outros grandes aparatos seriam empregados a transporte de material de assistência social ao povo da floresta. A partir dali, a história da educação daquelas duas localidades, tomaria finalmente um rumo definitivo a e seguir. Seis anos, após a chegada daqueles padres, ocorreria a inauguração do prédio do Colégio de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Embora o ensino a muitos jovens tivesse começado bem antes da inauguração daquele grande colégio. Quatro anos, após a chegada dos primeiros Redentoristas, era a vez do povo coariense novamente ir pra beira do Igarapé e porto de São Pedro, a recepcionar a chegada das Irmãs Adoradoras do Preciosismo Sangue. Foi no dia de Natal de 1947 que as missionárias aportaram no antigo Porto que ficava próximo ao sobrado dos Dantas. Sua partida se dera da província de Wichita, em Kansas, nos Estados Unidos. A contribuição daqueles religiosos, as cidade de Coari e Codajás, foi valorosamente gloriosa a educação e religiosidade e, ao âmbito sócio-cultural, como um todo. Em Coari, a grande marca da missão dos Redentoristas, ficaria eternizada na fachada do colégio escolar que, ostenta o nome da santa venerada pelas missões redentoristas, pelo mundo todo.  Os Redentoristas são os grandes guardiões da sacra imagem original, o “quadro-relíquia”, de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. No século XIX, solicitaram ao papa Pio IX, a guarda daquele “milagroso quadro”. O papa consentiu o pedido e o deu aos filhos de Santo Afonso de Ligório, a missão de difundir a devoção, a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro: “Fazei com que Ela seja conhecida no mundo inteiro!” A partir dali o quadro foi levado em procissão pelas ruas de Roma, acompanhado por 20.000 pessoas, até a igreja de Santo Afonso.

 

 

 

 

Origem e História do Quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro



Segundo uma antiga tradição, o quadro de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi pintado no final do século XII, inspirado em outra pintura, atribuído a São Lucas evangelista. A primeira noticia concreta que temos do quadro remonta ao ano de 1496, quando ele era venerado na ilha de Creta, no Mar Mediterrâneo. Naquele ano o quadro foi furtado por um ambicioso negociante que queria vendê-lo e, para isto, o levou para Roma. Chegando à cidade dos Papas, o comerciante adoeceu gravemente e ficou à beira da morte. Arrependido de seu pecado, ele confessou a um amigo o seu furto e pediu que entregasse o quadro a uma igreja de Roma para que recebesse o culto merecido. Depois de muitas delongas, o pedido do moribundo foi atendido no ano de 1499, quando o quadro foi levado em procissão para a igreja de São Mateus, dos Padres Agostinianos, situada na Via Merulana. Durante três séculos os fieis acorreram em tão grande número, que, ela se tornou uma das igrejas mais visitadas de Roma. A fama dos milagres operados por intercessão da Virgem do Perpétuo Socorro atraiu devotos de todos os cantos da Itália. No ano de 1798 as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram Roma, exilaram o Papa Pio VI e, sob pretexto de fortalecer as defesas da cidade, destruíram trintas igrejas, entre elas a de São Mateus. Nessa ocasião, o milagroso quadro foi salvo por um sacerdote que o levou para a capela privada do convento dos agostinianos de Santa Maria in Posterula. Em meados do século XIX, a Congregação dos Padres Redentoristas foi convidada pelo Bem-Aventurado Pio IX a instalar em Roma a sua Casa Generalícia. Para essa finalidade, adquiriram um terreno na Via Merulana. Justamente no local onde existia a igreja de São Mateus. Ali construíram um convento e a Igreja de Santo Afonso. Não tardou a se descobrir que a nova igreja tinha sido construída exatamente no local onde existia outrora a igreja de São Mateus, dos Padres Agostinianos, na qual era venerada a milagrosa pintura de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Os Redentoristas então solicitaram ao santo Padre que lhes fosse confiada a guarda do milagroso quadro, a fim de expô-lo publicamente no local original. O Papa consentiu no pedido e deu aos filhos de Santo Afonso de Ligório a missão de difundir a devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro: “Fazei com que ela seja conhecida no mundo inteiro!” O quadro foi levado em procissão pelas ruas de Roma, acompanhado por 20.000 pessoas, até a Igreja de Santo Afonso. A Mãe do Perpétuo Socorro manifestou sua bondade e seu poder já nesse dia, por meio de alguns milagres. “Querida Mãe, cure meu filho ou leve-o para o Céu!” – implorou da janela de sua casa uma angustiada mãe, erguendo nos braços seu filhinho moribundo, enquanto passava o quadro. Logo o menino ficou curado. Pouco adiante, outra mãe pediu para curar sua filha atingida por uma paralisia total. Imediatamente a menina ganhou força nas pernas, porém, apenas o suficiente para começar a andar. Mãe e filha foram no dia seguinte à Igreja de Santo Afonso e suplicaram: “Ó Maria, terminai o que começastes!” E a menina saiu de lá completamente curada. Iniciou-se assim, uma nova fase na história da milagrosa pintura da Virgem Santíssima. Até hoje ela acolhe maternalmente seus filhos e filhas no Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na cidade de Roma. E, graças ao zelo dos Padres Redentoristas, milhares de igrejas em sua honra foram edificadas em diversas partes do mundo. (inclusive em Coari-Am). *Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, História e Novena.

 


FRAGMENTOS HISTÓRICOS SOBRE A FUNDAÇÃO DA CATEDRAL DE SANT’ ANA E SÃO SEBASTIÃO NA PARÓQUIA DO MUNICÍPIO DE COARI-AM



Ao início de fevereiro de 1689, o padre jesuíta Samuel Fritz fundava sua última missão religiosa à região, antes de ficar doente por ter contraído malária e hidropisia. Em seu mapa histórico, sobre seus aldeamentos, ilustrado quando estava cativo dos portugueses no Pará, aquela última missão aparece localizada entre as cidades de Tefé e Fonte Boa. Na época, ainda não definidas como cidades, apenas aldeias. Diz o professor Augusto Cabrolié, de Tefé, em sua Síntese da História de Tefé (1984): “Fritz omitira a localização de alguns aldeamentos para que não fosse rechaçado pelos portugueses”. A sua última missão dera o nome de Missão de Nuestra Senhóra de las Nieves dos Yurimágua. Assim Fritz deixou escrito em seu diário de época:

Para escapar da grande enchente que costumava haver nesse rio todos os anos, em fins de janeiro de 1689, desci da redução de San Joaquim de Omágua, que é princípio da minha missão, para a aldeia dos Yurimáguas. No caminho fui visitando umas poucas aldeias dos Omágua, doutrinando-os de passagem. Dos demais, passei ao largo, pelas águas que já vinha crescendo. Em fevereiro cheguei aos Yurimáguas, onde fizemos igreja ou capela a Nossa Senhora das Neves...

Este é o primeiro registro que se tem de Coari em relação à introdução da religiosidade cristã, aos iniciais povos da região do município. Quando Fritz retorna de seu cárcere no Pará, chega aquela Aldeia numa manhã de outubro de 1891, a descobre desabitada e sua capela queimada.  Entre os escombros reencontra a flâmula com a imagem de “Nossa Senhora das Neves” pintada a óleo. A recolhe e a leva consigo. Em seu diário ele também narra o episódio:

Às nove do dia chegamos a Redução de Nuestra Senhóra de Las Nieves dos Yurimáguas, que encontrei toda despovoada e a igreja queimada pelo descuido de um rapaz, menos o lenço (imagem sobre tela) de Nossa Senhora, que se conservou prodigiosamente intacto.* In Porro

A partir desse episódio, a Aldeia dos Yurimágua seria redirecionada por vários religiosos, principalmente pelos portugueses carmelitas. A permanência da invocação do nome de Nuestra Senhóra de Las Nieves não seria continua aos Yurimágua. Cento e dezessete anos depois o agrupamento remanescente daquela Aldeia receberia, oficialmente, a denominação e, a invocação de Sant’ Ana que se tornaria a Padroeira oficial, pela igreja Católica, à Villa de Coary. Em 1694 uma Carta Régia, de 29 de novembro, determinou a divisão territorial da Amazônia, aos diversos missionários religiosos atuantes na região, distribuídos às margens dos cursos fluviais. A partir dali os portugueses assumiriam a Aldeia dos Yurimágua. Logo, frei José de Madalena, desceria e transferiria aquele núcleo para as áreas entre Coari e Manacapuru, no Paratari. Depois, outro frei português, chamado Antônio de Miranda, reassentaria a Aldeia na Ilha do Guajaratuba e, por fim, frei Mauricio de Moreira a levaria para dentro do Lago de Coary. No lago, em 1759, o primeiro Governador da Capitania do São José do Rio Negro, Joaquim de Melo e Povoas, elevou a Aldeia dos Yurimágua a Lugar de Alvelos. Foi nesse momento que se invocou o nome de Nossa Senhora de Sant’ Ana como a padroeira daquele Lugar.  Estava assim fundada a Paróquia de Sant’ Ana de Coari. No entanto, em 1860, ocorreu uma catalogação das paróquias do interior, foi organizada pelo Governo do Estado daquele período. Aquela estatística a oficializou como fundada em 1774. A partir dali Nossa Senhora das Neves não fora mais lembrada, primordialmente, como a que fora invocada por Fritz após a formação do aldeamento, em fevereiro de1689. Em 1854, para melhorar o acesso à Aldeia o coronel Wilkens de Matos reinstalaria a localização de Alvelos no local que se encontra a cidade, até hoje. Naquele remoto ponto o Vigário Luiz Gonçalves de Azevedo construiu a primeira capela a Nossa Senhora, feita de barro e coberta toda de palha. Em 1873, sobre o comando do Coronel Gaudêncio Euclides Soares Ribeiro (o Coronel Gaudêncio), foi construída uma nova capela para substituir a antiga. A obra foi comandada pelo Vigário José Maria Fernandes. Aquela antiga Praça de Coari é formada, historicamente, pela quadra das ruas Eduardo Ribeiro, Ruy Barbosa e Dois de Dezembro e Cinco de Setembro.  Em 1895 o poder municipal, na pessoa do major João da Cunha Linhares, aforou à Diocese, perpetuamente, o terreno da Praça de São Pedro (hoje de São Sebastião) à edificação pia de uma catedral. O ato foi assistido pelo Cônego Antônio Fernandes da Silva como representante de Dom João Lourenço, o então bispo do Amazonas naquela época.  A catedral começou como uma pequena capela, dedicada apenas a São Sebastião, ao alto da acanhada colina da Praça de São Pedro. Os nomes dos dois padroeiros de Coari foram empregados para denominar os dois primeiros bairros da antiga Villa. O Tauá-mirim é o antigo bairro de Sant’ Ana e, o São Sebastião, foi convertido ao Centro da cidade. Cada local teria sua própria igreja. Naquele final do século XIX o Amazonas vivia o período áureo da borracha. No começo do século XX, começaria o movimento, por todo o município, a se coletar fundos à construção da catedral atual. A iniciativa veio pelo entusiasmo do padre espanhol, Victor Merino (o padre Victor). No início, a igreja só foi pensada a São Sebastião, pois Nossa Senhora de Sant’ Ana já tinha sua própria edificação. O padre Victor saiu pelas comunidades rurais, pelos arredores do município, pedindo doação dos comerciantes e, também, a todos os paroquianos que pudessem atendê-lo, a se começar as obras. Todo e qualquer valor era muito mais que simbólico, era essencial.  Dos mais humildes aos mais afortunados habitantes do lugarejo, o padre conseguiu os primeiros donativos em forma de grandes valores. Grandes personalidades políticas da época doaram o que lhes coube à obra da Catedral. Ilustríssimos coarienses como Silvério Nery, à época Senador, e Dr. Francisco Sátiro Vieira, doaram os primeiros ladrilhos à edificação daquela igreja.  Em 1909, Dom Frederico Costa, recolhido a Roma em 1930, escreveu em sua carta pastoral: “de passagem por Coari a igreja de São Sebastião já estava fundada”. Todavia ainda em obras. Esse é um dos mais antigos dados que se tem sobre o período de sua construção. A Catedral existe pelos menos a 110 anos. É centenária. No final do 1º mandado do Prefeito Clemente Vieira Soares, nos anos sessenta, ganharia as áreas laterais, as quais, vistas do céu, dão forma de cruz ao corpo da Catedral. A partir dalí sua imagem sacra ficaria na mente dos coarienses daquelas épocas, como a está até hoje em nossas mentes. Durante várias vezes passou por reformas, como em 1987, momento que recebeu pintura e, mão-de-obra, doadas pelo povo em geral. Suas bordas originais foram-se modificando conforme as épocas e os períodos. A quadra da praça, onde hoje se realiza o arraial, aos santos padroeiros da cidade, foi fundada e construída às décadas de sessenta e setenta. Além dos arraias  foi também palco de outras grandes festas populares da cidade. Os primeiros festivais folclóricos foram realizados em seus espaços.  A festa de comemoração do aniversário da cidade, durante muitos anos, foi celebrada também naquela área. A extinta Festa da Banana que, principiou sua realização no final dos anos oitenta (1989), e perdurou até o início dos anos de 2000, por algumas vezes teve seu palco montado nos espaços da quadra e, também da praça. O escritor coariense, Francisco de Vasconcelos, em seu livro sobre sua infância, vivida nos anos 40: “Coari – Um retorno as Origens”, nos mostra que naquele tempo já existia os arraias em honra aos padroeiros. Tudo começou com a chegada dos padres redentoristas no município, em 1943. Até hoje existe a dinâmica dos tradicionais arraias, aos meses de janeiro e de julho. A imagem da Catedral, instalada no Centro histórico de Coari, denota ao mundo nosso maior cartão postal, desde sua fundação. Independentemente da religiosidade, a Igreja de São Sebastião e Sant’ Ana demarca a analogia citadina social a todos os habitantes de Coari. Chegar a Coari e não contemplar a arquitetura neoclássica que a Catedral ostenta, é a mesma coisa que não ter ido à cidade. Por isso ela demarca também à memória a história de vida social. Muito dos católicos e, habitantes da cidade, foi batizado, fez a primeira comunhão, foi crismado, casou ou celebrou uma Missa em ação de Graças, pelo menos uma vez no decorrer de toda vivência, nas dependências da catedral. A tradição de se tocar o sino, diariamente, construiu junto a nossas mentes a cronologia à reflexão do cotidiano. Por isso nos damos o sinal da cruz, ao ouví-los, ou apenas quando passamos em frente do abençoado edifico da  sagrada Catedral. 




Igreja de São Francisco de Assis no bairro de Tauámirim em Coari ano de 2004.

 

 

 

 

REFERENCIAL

ADOLFS, Marco. Látex/Marco Adolfs – Manaus: Editora Uirapuru, 2004.

ALBA, Noemí Marcos. O livro dos Santos. Tradução: Ricardo Kowalczuk deAlmeida. São Paulo : Prumo LTADA.

ALFAIA, Eros Divino Maia. Resgate à Memória do Município de Coari-Am. Artigo de Conclusão de Curso de Metodologia do Ensino Superior - TCC. Faculdade Salesiana Dom Bosco - FSDB, 2004. Manaus-Am. botopurpura@yahoo.com.br.

------------, Eros Divino Maia Alfaia. Acervo de entrevistas gravadas em mini K-7, ao ano de 2004 à produção do artigo empírico (Resgate à Memória do Município de Coari-Am), como TCC, ao Curso de Metodologia de Ensino Superior à Faculdade Salesiana Dom Bosco – Manaus-Am. Entrevistados, em julho de 2004, no município de Coari-Am: Adolfina Menezes Monteiro, Ary Dantas Alfaia, dona Beta (do bairro de Chagas Aguiar), Elias Ferreira Neto (o seu Zizi), Fausto Gonçalves Monteiro, e Raimundo Martins de Souza. botopurpura@yahoo.com.br.

ALMANAQUE, Santo Antônio / 2017. Editora Vozes. Organizado por Frei Edrian Josué Pasini, OFM. Setembro de 2016

AMAZONAS, Secretaria de Estado da Educação e Cultura. Núcleos de Recursos Tecnológicos. Série: Descobrindo Nosso Município – 08. Coari; Estudos Sociais, 3ª série – 1º Grau. Manaus, 1990

ARRUDA, José Jobson de A. Toda a História – Pilleti Nelson. Todos os direitos reservados pela Editora Ática S.A, São Paulo. 1996

ATLAS, Escolar e Didático. São Paulo – DCL – 2001. Vários autores.

BIBLIOTECA Virtual do Amazonas – bv.cultura.am.gov.br

CABOCLA, Revista. Revista de Atualidades do Estado. Fevereiro de 1937. Ano II do Governo. Governo do Estado do Amazonas - Arquivo Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Manaus-Am

COARI, Prefeitura Municipal de. Governo do Estado do Amazonas. Relatório de Exercício de 1938. Prefeito Alexandre Montoril. Manaós – Typographia Phênix – 1939. Arquivo Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Manaus-Am.

COARI-AM, Perfil Sócio-Econômico do Município de. Estado do Amazonas: Prefeitura Municipal de Coari-Am. Secretaria Municipal de Indústria, Comércio e Turismo. Ano de 2001.

CONSTITUIÇÃO, da República Federativa do Brasil. 52ª edição 2017. Câmara dos Deputados. Brasília - Distrito Federal.

CONSTITUIÇÃO, do Estado do Amazonas. Selso Cavalcante e Ronnie Stone – organizadores. 2ª edição. Editora Valer 2001. Manaus-Am.

COSTA, Rita Arruda da; Pinto, Marilina C. Oliveira Bessa Serra. Museus do Amazonas. Rita Arrua da Costa. Marilina C. Oliveira Bessa Serra Pinta. Manaus – Edua – 2012.

DANIKEN, Erich Von. 1968. Eram os Deuses Astronautas. Melhoramentos – São Paulo – SP

ESTADO DO AMAZONAS.  Fatos Históricos e Importantes do Município de Coari. Câmara Municipal de Coari – CGC 04.262.366/0001-90. Travessa Raimundo Mota, 192 - Centro – fone (092) 761-2362 / 2774. Coari-AM. 2000

FERRONATO, Pe. Lorenço, EP. Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, História e Novena. Associação Católica Nossa Senhora de Fátima. São Paulo-Sp. acnsf@acnsf.org.br/www.rainhadefatima.org.br

FIGUEIREDO, Pe. Antônio Pereira de. Bíblia Sagrada, Antigo e Novo Testamento. Edição Revista e Atualizada – DCL – São Paulo - SP

FOTOGRAFIAS e Ilustrações expostas: Acervo de Anísio Jobim (*1932, 1938). Arcevo de Araújo Lima (*1928). Acervo do Blog. 

FRANÇOISE. Grenand, Pequeno Dicionário da Língua Geral/Grenand Françoise. Manaus, SEDUC/ Núcleo de Recursos Tecnológicos, 1989 p. 295 (SÉRIE AMAZONAS-CULTURA REGIONAL, 6). Língua Tupi – Dicionário, I.Ferreira, Epaminondas Henrique.  II. Título

FREITAS, Marcílio de. Diálogos com a Amazônia, 1 Marcílio de Freitas, Marilene Corrêa da Silva, Marcos Barros: Manaus Editora Valer, 201º. 198 p.

FRITZ, Samuel (1686-1723) Diário da Descida do Padre... In PORRO, Antônio. As Crônicas do Rio Amazonas. Petrópolis, Vozes, 1993.

GUIMARÃES, Gaspar Guimarães. Dados descritivos do Município de Coary – 1900. Imprensa Oficial de Manaós– Centro Cultural dos Povos da Amazônia.  Mario Ypiranga Monteiro. Biblioteca Virtual do Estado.

GONDIN, Neide. A Invenção da Amazônia.  Segunda edição. / Neide Gondin - Manaus. Editora Valer, 2007. 340 p.

JOBIM, Anísio. Coary – Panoramas Amazônicos – Manaus – Imprensa Pública, 1933. Acervo da Biblioteca Mário Ipiranga Monteiro – Governo do Estado do Amazonas. Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Manaus-Am.

JOBIM, Anísio. Teffé – Panoramas Amazônicos – Manaus – Imprensa Pública, 1937. Acervo da Biblioteca Mário Ipiranga Monteiro – Governo do Estado do Amazonas - Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Manaus-Am.

JORNAL, A Reforma – 393. Ano XI Território do Acre, 25 de abril de 1926. José Florêncio da Cunha. Biblioteca Mário Ipiranga Monteiro *Acervo Governo do Estado do Amazonas – Centro Cultural dos Povos da Amazônia.

JORNAL, do Amazonas. Edição de telejornal, 20 de fevereiro de 2018. Manaus, Amazonas.

JORNAL, do Comércio. Edição de Comemoração dos 337 anos do aniversário da Cidade de Manaus. Manaus, terça-feira, 24 de outubro, de 2006. Edição de nº 39.675. Fundado em 2 de janeiro de 1904.

LIMA, Araújo. In Memoriam – Herbert Lessa de Azevedo. Imprensa Pública de Manaus – 1930 – Biblioteca de Mário Ipiranga Monteiro. * Acervo do Governo do Estado do Amazonas. Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Bola da Suframa.

LOUREIRO, Antônio. Amazônia – 10.000 Anos. Editora: Metro Cúbico - Manaus-Am, 1982

MATA, João Nogueira da. Da Academia Amazonense de Letras. Águas Lendárias. Editora Sérgio Cardoso, Manaus, 1969. Biblioteca de Mário Ipiranga Monteiro. * Acervo do Governo do Estado do Amazonas. Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Bola da Suframa. Manaus-Am

MARRIOT, Emma. A História do Mundo para quem tem pressa; Emma Marriott; tradução Paulo Afonso. – 1. ed. -  Rio de Janeiro: Valentin 2016. 200p.; 21cm

MEGALE, Nilsa Botelho.  O livro de Ouro dos Santos. Nilza Botelho Megale – Rio de Janeiro: Ediouro 2003

MELLO, Octaviano. Topônimos Amazonenses/Octaviano Mello. Nomes das Cidades Amazonenses, sua Origem e Significação. Série Torquato Tapajós – volume XIII. Impresso nos Estados Unidos do Brasil, 1967.

MUCKERMAN, Norman J. Redentoristas na Amazônia/ Os primeiros cinqüenta anos. CSSR. 1992.

NASCIMENTO, Maria Evany do Nascimento. Monumentos Públicos do Centro Histórico de Manaus. Maria Evany do Nascimento. Manaus – Editora Valer, 2013.

PORRO, Antônio. O Povo das Águas: Ensaios de Etno-História Amazônica. Vozes 1995. Petrópolis 1996. Edusp.

QUEIRÓZ, Raimundo Claudemir Bezerra de. Sintése da História de Tefé parra Estudantes. Editora ScDc - Mnaus-Am 2016.

RODRIGUES, Allan Soljenistsin Barreto. Boi Bumbá Evolução – Livro Reportagem Sobre o Festival Folclórico de Parintins. /Allan Soljenistsin Rodrigues – Manaus Editora Valer, 2006. 246 p.

REVISTA – Redempção – Número Espacial de Março de 1926. Resenha Mensal de Propaganda do Estado do Amazonas. * Acervo do Governo do Estado do Amazonas - Centro Cultural dos Povos da Amazônia.

SEBRAE/AM. Diagnóstico sócio-econômico e cadastro empresarial de Coari. Manaus. Departamento de Estudos e Pesquisas 1993. 55 p. (estudos municipais, 9). Edição Sebrae.

SITES da internet consultados: Ambientes notícias blog, www.wikipedia.com.br, www.coari.com, www.portalamazonas.com.

SOUZA de, Afonso Araújo. Síntese de Uma Literatura Cabocla Amazonense. 2ª edição. Manaus-Amazonas, 1999.

SOUZA, Augusto Cabrolié de. Síntese da História de Tefé. Tefé, 1984 – UBE – AM.

SOUZA, Márcio. História da Amazônia. / Márcio Souza. Manaus. Editora Valer, 2009.

TERSARIOL, Alpheu. Literatura e Interpretações de Textos. Rio Grande do Sul - 1998. Edelbra – Indústria Gráfica e Editora Gráfica.

TOURAINE, Alain, Crítica à Modernidade, Vozes, Petrópolis, 1994.

TRISCIUZZI, Neto Leonardo. Rios da Amazônia, Coletânea de Dados. Pequeno Roteiro; Leonardo Neto Trisciuzzi. Belém, SUDAM, 1979. 135 P.

VASCONCELOS, Francisco. Coari, Um Retorno às Origens. Brasília: da Anta Casa Editora, 2002





 

 

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ORIGEM, MEMÓRIA E CULTURA DO BOI-BUMBÁ NO MUNICÍPIO DE COARI-AM

O CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM LETRAS DA UFAM, NO CAMPUS AVANÇADO DE COARI-AM, REALIZADO DE 1995 A 1999