ORIGEM, MEMÓRIA E CULTURA DO BOI-BUMBÁ NO MUNICÍPIO DE COARI-AM

 


 

BOI-BUMBÁ

Coari-Campo

ORIGEM, MEMÓRIA E CULTURA DO BOI-BUMBÁ NO MUNICÍPIO DE COARI-AM

DE 1927 A 2000...

 

 







 

 

 





EROS DIVINO

 

BOI-BUMBÁ

COARI-CAMPO




 

 *Foto de Elias Ferreira Neto (o seu Zizi), XVIII Festival Folclórico de Coari-Am. 1993 – o Pajé e a Rainha do Boi-Bumbá Corre-Campo de Chagas Aguiar.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

 

 

 

                                                                                    

 

 

 






Centro da Cidade de Coari-Am, Praça de Sant’ Ana e São Sebastião, década de 1960. Enquanto não havia um lugar específico às apresentações dos primeiros bois-bumbás (anos 20 e 40 – início do século XX), brincariam pelas praças, ruas e na frente das casas daquele povo alegre e festeiro, do tempo da clássica Villa e Cidade dos anos 30. Os bumbás dos anos 80 e 90 já seriam apresentados em quadras de esportes com toda pompa, brilho e luxo. Seriam envoltos por uma antiga rivalidade cultural. *foto da internet




Episódios Históricos do Boi-Bumbá Clássico e Moderno do Estado do Amazonas

 ao Município de Coari


 Século XX

1913 – Segundo a tradição de Parintins-Am, a 20 de outubro o boi-bumbá Caprichoso é fundado pelo pedreiro e artista popular Roque Cid, de 34 anos de idade, no bairro da Francesa (zona leste da cidade). Roque nasceu no Crato-CE a 9 de setembro de 1879. Chegou em Parintins no começo do século XX.

1920 – O boi-bumbá Garantido é fundado no tradicional bairro do São José (zona oeste) de Parintins, a 24 de junho, pelo caboclo pescador Lindolfo Monteverde, de 18 anos de idade. Lindolfo nasceu em Parintins no dia 2 de janeiro de 1902.

1922 – Em abril o boi-bumbá Mina de Ouro, maior rival do boi-bumbá Corre-Campo, é fundado no Centro de Manaus, a Rua Tapajós, n° 146, casa de seu Pedro Albano.

*1927 – Ano do presumível surgimento do boi-bumbá Caprichoso de José Luiz de França (o Cearense), no bairro de Tauá-mirim (zona oeste) de Coari-Am. O boi de França foi criado num sítio que ficava onde hoje é o hospital geral da cidade. O Prefeito da cidade, naquela época, Herbert Lessa de Azevedo (ex-prefeito de Parintins em 1926), de 25 anos de idade, teria sugerido o nome de Caprichoso ao simplório boi de França. Infelizmente, foi assassinado às vésperas do festejo de São João.  Naquela época os prefeitos davam a autorização e batismo aos bumbás do interior do Amazonas. Só assim, regulamentados, podiam sair às ruas pra divertir o povo.

1933 – Nasce na cidade de Coari o escritor Francisco de Vasconcelos que, testemunharia a infância vivida nos anos 30 e 40 em Coari, na sua obra literária – “Coari - Um Retorno as Origens”, há a presença dos bumbás, Prata-Fina de seu Ioiô e, Caprichoso, de José Luiz de França (o Cearense).  

1940 - Aparições do boi-bumbá Prata Fina, de Benedito de Lima Nogueira - o popular Ioiô, ao festejo junino de Coari-Am. Foi fundado na antiga rua Barão do Rio branco, hoje a 5 de Setembro. Todavia, antigos apreciadores do boi de seu Ioiô, afirmam que o boi se chamou 'Dois de Ouro' e 'Corre-Campo', antes de ter o nome difinido como Prtata Fina (1950).

1942 – No dia 1º de maio, o boi-bumbá Corre-Campo de Manaus, oficialmente, é fundado no bairro da Cachoeirinha, na casa de nº 1140, a Rua Ajuricaba, por Wandir Guaramiro (o Miro), Astrogildo Santos (o Tó), Dionísio Gomes (o Tucuxi), Mário Souza Cruz (o Pelica) e Antonio Altino Silva (o Ceará). Era época da segunda guerra mundial. Junto ao Corre-Campo, surgiria o boi-bumbá Luz de Guerra, formado só por mulheres, ao Bairro da Matinha (hoje Presidente Vargas).

1944 – Segundo o folclorista Mario Ypiranga Monteiro, o fazedor de boi (de Manaus), Lauro Chibé, fabricou o Corre-Campo de malhas branco-marrão. Este boi está exposto no museu do Ibirapuera em São Paulo na seção do Amazonas.

1949 – No dia 28 de fevereiro, aos 70 anos de idade, morre em Parintins Roque Cid, lendário fundador do boi-bumbá Caprichoso da ilha Tupinambarana.

1957 – Criação e realização do I Festival Folclórico do Amazonas, em Manaus. O evento seria fundado por causa de uma terrível briga de rua, entre os bumbás manauaras mais populares: Corre-Campo X Mina de Ouro.  O General Craveiro Lopez, presidente de Portugal à época, de passagem pela cidade com sua comitiva, inauguraria aquele evento. Por isso se tornaria um Festival notório ao Estado. O resultado do primeiro Festival oficial de bumbás de Manaus teve a seguinte colocação: 1º lugar – Corre-Campo, 2º lugar – Rica-Prenda e 3º lugar - Mina de Ouro. O folclorista manauara, Mário Ypiranga Monteiro, cataloga o auto do boi-bumbá Prata Fina de seu Ioiô. Décadas mais tarde (2000), publicaria os versos em uma de suas obras literárias.

1965 – O I Festival Folclórico de Parintins-Am é instalado na Ilha Tupinambarana.

1973 - O I Festival Folclórico de Coari é fundado e instalado na quadra da Catedral católica à Praça de São Sebastião (antiga Praça de São Pedro). O bumbá Prata Fina, as Pastorinhas, o Pássaro Tangará, junto a outras danças e quadrilhas eram as grandes atrações no evento. O boi de pano, de José Luiz de França, já não se apresentava mais. O Prefeito da época era Enedino Monteiro da Silva, 1º administrador de Coari de denominação evangélica. Era membro da Igreja Batista.

1979 – Morre em Parintins Lindolfo Monteverde, fundador do boi-bumbá Garantido.

1986 – O boi-bumbá Corre-Campo de Coari-Am é fundado no bairro de Chagas Aguiar, às dependências da Escola João Vieira. No Centro histórico, a professora Rosa Esmeralda (filha de Ioiô), funda o primeiro boi-bumbá mirim da cidade, o Estrelinha.

1987 – O boi-bumbá Garantido de Coari-Am é fundado nas dependências da Escola Progente, ao Centro histórico daquela Cidade. O Festival Folclórico é realizado na Quadra de Esportes São José, anexa à Escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Não houve competição.

1988 – À primeira disputa, organizada entre os bumbás adultos da cidade de Coari-Am, aos tempos modernos, consagraria campeão o Garantido. Em Parintins-Am o bumbódromo atual é inaugurado. O Garantido, do São José, conquista o título de campeão daquele ano. A Rede Amazônica, de televisão e rádio, começa a apresentar o Festival de Parintins ao interior do Estado.

1989 – À segunda competição entre os bumbás de Coari-Am, o Garantido que havia encenado a morte do sindicalista Chico Mendes, vence novamente a disputa e se torna bicampeão. O Corre-Campo, insatisfeito com aquele resultado, resolve abandonar o evento por entender ser injusta a vitória do oponente. Dias depois, à Rua Herbert Lessa de Azevedo – em Chagas Aguiar, brincantes de ambos os bumbás entram em embate. A polícia teve que acalmar a ira daqueles. Os bumbás teriam mesmo que ser confinados e, anulados, a se evitar futuros confrontos entre os torcedores.

1990 – No dia 29 de junho, ao momento do início da apresentação do boi-bumbá Caprichoso, em Parintins, uma tempestade desaba sobre a cidade destruindo 90% das indumentárias de seus brincantes. A comoção toma conta do bumbódromo. Na arena e nas arquibancadas, organizadores, brincantes, turistas, repórteres e torcedores, desesperados, vão às lágrimas pelo trágico incidente. Mesmo com a forte chuva a apresentação não é encerrada. Apesar de toda consternação e adversidade, não houve cancelamento do jugamento da noite, assim o Caprichoso é derrotado pelo Garantido.

1991 – O boi-bumbá mirim, Raio de Prata, em Coari-Am, é fundado na Escola Estadual Tomé de Medeiros Raposo, ao bairro de Chagas Aguiar. Sua fundadora é a professora Maria Dorimar Granjeiro Pinto junto a outros corpos daquela escola. A professora e comerciante, Antônia Barreto, também colabora à fundação daquele. Disputaria título de campeão com o Estrelinha do Centro da cidade, contudo sairia derrotado. Na concentração dos brincantes, à Rua Independência, a filha da fundadora do boi Raio de Prata é atingida na cabeça por uma pedra. Foi arremessada por torcedores do boi contrário. Mesmo machucada, a criança se apresenta na quadra. O incidente é exposto ao público. A presença do pequeno bumbá do bairro de Chagas Aguiar incomodou os torcedores do bumbá Estrelinha.

1992 – O boi-bumbá Corre-Campo de Manaus chega aos 50 anos de fundação. Os bois-bumbás mirins de Coari, novamente, vão ao Festival disputar o título de campeão. Outra vez, o Estrelinha, sediado na Escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, conquista o campeonato.

1993 – O Festival Folclórico de Coari é mais uma vez transferido de local. À XVIII edição se revelaria um grandioso evento à cidade. Estimulados pelo novo Prefeito eleito, Odair Carlos Geraldo, os quatro bumbás da cidade são os grandes astros ao Festival. Corre-Campo e Raio de Prata tornam-se os grandes vencedores daquele ano. O boi-bumbá adulto do Centro é rebatizado com o nome de “Rei Garantido”. Os brincantes deste, insatisfeitos e revoltados com a vitória dos bumbás periféricos, promovem um protesto cultural em repúdia à vitória do Corre-Campo. Foram à frente da Prefeitura da cidade e incendiaram a “figura” do boi-bumbá Prata Fina, do memorável Ioiô. Haviam homenageado aquele antigo bumbá à noite anterior. Ali, diante das chamas e da manifestação, juraram jamais disputar título com o boi de Chagas novamente. E assim o fizeram... Enquanto isso, no bairro de Chagas Aguiar, a emoção e comoção tomavam conta das ruas e casas dos moradores, pela vitória inédita do Corre-Campo. Era final de uma tarde de sábado, 26 de junho de 1993. Em Parintins, o boi-bumbá Caprichoso muda o paradigma de apresentação do espetáculo ao público. Começaria um novo tempo aquele Festival. Naquele momento o Garantido não concorda e nem adere às mudanças.

1994 - O boi-bumbá mirim Raio de Prata, de Coari-Am, é o único a se apresentar a uma noitada junina à quadra de esportes do Colégio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O Corre-Campo se apresenta na quadra da Escola Estadual João Vieira. O canal de televisão temático da Amazônia – o Amazonsat, dava início às transmissões ao vivo do Festival Folclórico de Parintins a toda região amazônica.  O boi-bumbá Caprichoso emociona o Amazonas ao homenagear o piloto de Fórmula 1, Airton Senna. O piloto havia morrido em competição no mês abril. Sua morte comoveu o país de norte a sul.

1997 – O movimento da toada de boi-bumbá contagia toda a região amazônica. Ir a Parintins e, conhecer o evento de seus bumbás, se tornaria um sonho de consumo à região.

1999 – Ao final do século XX, os bumbás mirins de Coari-Am seriam os únicos a se apresentar no Festival Folclórico daquela cidade, porém, à última noite do evento, o Estrelinha decide não competir mais. Desiste da disputa. A partir daí não concorreria a mais nenhum título. Os bumbás adultos já haviam desaparecido do festival para sempre.

 

 

 

Século XXI

2000 – O boi-bumbá Corre-Campo de Manaus continua se apresentando e concorrendo a títulos no Festival Folclórico da Bola da Suframa (desde o antigo tablado). Atualmente seus rivais são os bumbás: Garanhão e Brilhante. O quase centenário, Mina de Ouro, há muito deixou o evento. Em Parintins, pela primeira vez, na história do Festival, ocorre um empate ao resultado da disputa. Os dois bumbás da ilha são sagrados campeões.

2004 – Em uma de suas últimas obras sobre o boi-bumbá na Amazônia o folclorista manauara, Mario Ypiranga Monteiro, publica o auto do boi-bumbá Prata Fina de Coari. No mesmo ano, Ypiranga morre aos 81 anos de idade. Torna-se “imortal” à literatura amazonense.

2005 – Após uma tradição de 40 anos, o Festival Folclórico de Parintins-Am deixa de ser realizado nos dias 28, 29 e 30 de junho. A data do evento é transferida ao último final de semana daquele mês, a partir daquele ano (quebra-se uma tradição de 40 anos).

2006 – O boi-bumbá mirim Pingo de Ouro, terceiro bumbá mirim fundado em Coari-Am, na Escola Municipal Dirce Pinheiro (No bairro de Itamarati ), disputa campeonato com o Raio de Prata no Festival Folclórico daquela cidade. O veterano vence a disputa. O jornalista coariense, Allan Rodrigues (ex-brincante dos bumbás Estrelinha e Rei Garantido), publica em Manaus sua obra-reportagem sobre o movimento do boi-bumbá no Amazonas: Boi-Bumbá Evolução. O Festival de Manaus chega aos seus 50 anos de fundação. O Centro Cultural dos Povos da Amazônia, junto à nova arena do Festival, é inaugurado na zona-sul da Capital pelo Governador Eduardo Braga. O boi-bumbá Corre-Campo sagra-se campeão perante 50.000 expectadores.

2008 – Ineditamente, à história do Festival Folclórico de Parintins-Am, uma emissora de televisão (BAND), de rede nacional, transmite ao vivo aquele evento a todo país.

2012 – A Rede BAND de televisão, após transmitir o Festival de Parintins por cinco edições, encerra seus trabalhos no evento. Alguns mal-entendidos, junto às diretorias dos bumbás, provocariam o encerramento.

2013 – O boi-bumbá Caprichoso de Parintins chega a seu centenário de fundação. Consegue atravessar um século de história.

2015 - O Festival folclórico de Parintins-Am chega aos seus 50 anos de fundação.

2016 - Após uma trajetória de mais de 50 anos, o Festival de Parintins deixaria de ser fomentado pelo Governo do Estado, devido aos rumores da grande crise, econômico-política, provocada pela corrupção que assola o país. Garantido e Caprichoso são levados à Praça de São Sebastião, em Manaus, a protestar à omissão e ao descaso do Estado com o evento. A responsabilidade à realização daquele evento ímpar retornaria à Prefeitura daquela Cidade.

2017 – O Festival da Bola da Suframa chega aos 60 anos de fundação. O Corre-Campo, de Manaus, conquista o título de campeão chegando aos seus 75 anos de criação. Em Coari-Am, nas dependências da Escola de Educação Infantil -  Paraíso (Centro da cidade), de propriedade da professora Vilma Pessoa, é fundado o boi-bumbá mirim “Raio de Sol”. Coari ganha seu 4º bumbá mirim à trajetória de seus bois de pano. O boi-bumbá Corre-Campo, do bairro de Chagas Aguiar, é resgatado e apresentado aos 50 anos de fundação da Escola Estadual João Vieira.

 2018 – O atual bumbódromo de Parintins-Am chega a seus 30 anos de fundação. A disputa eterna, entre Caprichoso e Garantido, continua; O Festival Folclórico de Coari-Am chega aos 45 anos de sua criação...







À atualidade no cenário folclórico-cultural da cidade de Coari-Am, o boi-bumbá mirim Raio de Sol, fundado na Escola Infantil Paraíso, é o mais novo boi de pano aos tempos modernos do folguedo no município.  A apresentação de 2017 em Coari. Coincidentemente ou não, apresenta traços do clássico boi-bumbá Campineiro de Parintins-Am, fundado no final do século XIX: sol na testa, defendendo as cores verde e amarelo. *foto acervo de Francisca Araújo

 


 

 

 

APRESENTAÇÃO

A presente obra tece à trajetória do surgimento e desaparecimento da manifestação clássica e moderna do boi-bumbá, ao município de Coari-Am (no período de 1927 a 2000...), localizado bem no centro do vasto interior do Estado do Amazonas (a mais de 363 km de Manaus). O município coariense, atualmente, ostenta uma população superior a 80 mil pessoas. A obra apresentará também a subjetividade dos artistas e fundadores dos antigos bumbás da cidade. Mas antes de se adentrar no assunto é necessário fazer um passeio, ao grande cenário de produção folclórica de massa, à região, a Capital do Estado (Manaus). Foi na Capital manauara que se fundou (nos anos cinqüenta do séc. XX) o I e clássico festival folclórico do Amazonas (o da atual Bola da Suframa – na zona-sul da Capital). Foi aquele Festival o grande prenunciador do movimento do boi de pano moderno a todo interior regional. A circulação cultural de bois-bumbás, ao cenário folclórico da cidade de Coari-Am, ao século XX, foi envolvente, lúdica e progressista. No Amazonas, o boi-bumbá é uma grande e histórica revelação folclórico-popular. À Coari, os primeiros registros (orais apenas) sobre a aparição da figura de bumbás, às vias despavimentadas da antiga e, poética Villa de Coary, data do final dos anos vinte ao início dos trinta. A figura emblemática do nordestino José Luiz de França (o Cearense) pode indicar o surgimento do primeiro boi de pano coariense, de que se têm notícias, ao cenário cultural do Estado. Em geral, os nordestinos começariam a buscar o norte do país (especificamente o Amazonas), em meados do século XIX. Primeiro, afugentados de suas terras pela terrível seca do sertão; segundo, pela ilusão ao fausto da borracha. Ao brinquedo junino, naquelas épocas tão distantes da história atual, o cearense França, antigo morador do bairro de Tauá-mirim (zona centro-oeste histórica de Coari), daria vida e o nome (seria emblemático) de “Caprichoso”. Logo, Benedito de Lima Nogueira, o seu Ioiô, criador do boi-bumbá “Prata Fina” e morador do Centro histórico, surgiria junto à de França. Ambos animariam o cenário de época a São João e à infância folclórica, ao cenário da velha Villa de Coari, a do final dos anos 20 (às décadas de 30 e 40). Somente o bumbá de Ioiô conseguiria atravessar o século, a ser lembrado, ainda, nos anos noventa. Aos meados dos anos 80 fundam-se novos bumbás à cidade. Aos modernos tempos, tornar-se-iam opulentos e “brilhantes”. Não seriam mais rústicos nem líricos como os do início do século. O boi de pano amazônico tem a capacidade, institucionalizada, de se modernizar junto à sociedade através das épocas.  Os novos brincantes, ao futuro, usariam da festa a impor padrões, atitude, identidade e status sociais. Dois grandes bumbás destacar-se-iam naquele cenário artístico. O boi-bumbá Rei Garantido, seria o primeiro, adulto, ao Centro urbano de Coari. Revestir-se-ia de luxo, pompa, brilho e opulência. Tornar-se-ia o boi elitizado à sociedade local. O boi-bumbá Corre-Campo, do bairro periférico de Chagas Aguiar (a antiga Estrada), seria marginalizado e estigmatizado, assim seria convertido ao “simples e humilde” boi de pano.  A imagem e identidade devotadas, a cada bumbá, representavam o retrato popular dos locais onde foram fundados. Ressurgiria então, junto ao movimento moderno dos recém-fundados bois de pano, uma acirrada rivalidade cultural, provocadora de conflitos igualitários entre grupos e comunidades distintas. Essa rivalidade fazia parte de um conceito antigo da cidade, entre os habitantes dos bairros, onde cada bumbá era sediado. Os bois de pano apenas fariam ressurgir e, acirrar a antiga querela, mas não foram os provocadores originais daquela. Os bumbás surgiriam pela tentativa de apaziguar o velho estigma social que separava as áreas urbanas. Nessa caminhada de imposições culturais, rivalidade, e veneração social, a permanência dos modernos bois de pano no Festival daquela se tornaria curta, e assim, seriam extintos rapidamente. Em menos de oito anos, entre a fundação dos modernos bumbás (aos anos 80) e da competitividade no festival folclórico de Coari, tudo adormeceria e se dissolveria. O boi-bumbá, naquele período (dos tempos modernos), à cidade de Coari, é representado pelo movimento de idéias mercadológicas e por uma subjetiva filosofia ao ufanismo. A “perca” do controle da disputa (tudo foi sistematizado a tornar-se competição) findaria por dissipar a manifestação folclórica dos ares e panorama do município. E assim se encerraria a fase da produção opulenta da arte e, dos conflitos de rivalidade entre os “bois de pano” modernos, no âmbito cultural daquele local. Mas o extermínio dos bumbás não seria nenhuma garantia do final daquela antiga rivalidade social. O entrave permaneceria. Coari viveu o momento ruralizado da criação de seus bumbás clássicos, à produção moderna e sistematizada dos mesmos. Todavia, os “perderia” para sempre. O resgate cultural aqui exposto, rebuscará, pela lembrança e memória histórica, aqueles momentos extremamente espetaculares, eternizados à atmosfera dos anos 80 e 90 do século passado ao município de Coari-Am (séc. XX).

O autor

 

 

 

 

 

 

 

 

Chico tira a língua

Chico tira a língua

Chico tira a língua

Não quer tirar

A faca ta cega

A faca ta cega

A faca ta cega

Não quer cortar...


*cantiga cômica do auto boi-bumbá Pata-Fina de Coari, final d anos 40 

 

 


 

INTRODUÇÃO

O Brasil, por ter sido colonizado por europeus, oriundos de vários países do velho mundo (principalmente de Portugal), ao longo de sua trajetória histórica, conceberia um dos legados folclóricos mais rico do planeta. Todas as manifestações culturais, as que se originariam das tradições de outras nações, somar-se-iam também ao mundo mítico da floresta amazônica e de suas nações étnicas. Assim, frutificariam, tornando o cenário das amostras populares, extremamente diversificado, aos nossos dias. Todavia, formador também, das principais características típicas, a cada região brasileira.  À região-norte do país, sem dúvida nenhuma, a figura do “boi de pano” é o marco dentre todas as manifestações culturais, por toda extensão territorial amazônica, às suas remotas áreas e limites geográficos. Conhecido como boi-bumbá à maioria dos Estados amazônicos, o boi de pano nortista modernizou-se e se estabeleceu como grande cultura de massa. O aparecimento clássico daquele é sempre no cenário das ruelas antigas, nas cidades do interior, por isso, ao contexto social, é uma manifestação democrática. As ruas são os espaços primordiais do “brincar de boi”. Com a massificação e a espetacularização do auto, o boi-bumbá amazonense se tornaria um grande show de quadra (ou arena) e um alvitre de luxo ao desejo de consumo, aos apreciadores da manifestação, nos anos 80 e 90 do século passado. Pode ser visto também como acontecimento a certo “protesto cultural”, pois o criador ou fundador de um boi é sempre um sujeito que se expõe perante sua comunidade. Esse sujeito também é sempre muito respeitado naquele cenário social de origem. Atualmente, o maior festival folclórico de boi-bumbá, ao norte do país, tem como sede o município amazonense de Parintins-Am (a 460 km de Manaus) com os bumbás Caprichoso X Garantido. No entanto, em várias cidades e lugarejos do Amazonas, e em outros Estados (de toda região norte), existem festivais menores, de menor porte e atenção comercial, os quais promovem a aparição da figura do “boi-bumbá” às vistas do público da região. Em alguns locais, em vez do boi de pano, se usa da figura bizarra de outro “animal” (também de pano). Estes podem ser variados conforme a espécie: répteis, peixes, aves, cetáceos e outros mamíferos. Apesar disso o esboço do boi é sempre o mais usual e popular. A “brincadeira” se torna tão séria (complexa), em determinados lugarejos, que o melhor a ser feito mesmo é dissolver a manifestação, a se evitar maiores conflitos entre os tradicionais comunitários. Foi assim que foi feito no município de Coari-Am. A figura do boi de pano, tradicional, foi extinta dos períodos de competições lúdicas e de seus cenários clássicos, aos anos 90, e mais ainda, às festas juninas típicas. Apesar do desaparecimento dos bumbás, a manifestação merece ser resgatada aquela cidade e região, pelas letras, à memória coletiva dos coarienses. Coariense é aquele que nasce no município e cidade de Coari. A fundação histórica dessa cidade vem pelas vias dos aldeamentos organizados na Amazônia, pelos padres jesuítas, ao final do século XVII. Em 1689 o padre jesuíta Samuel Fritz fundaria sua última missão e aldeamento, a do povo Yurimáua (ou Omágua). Fritz adentrou à Amazônia vindo pelo Peru. É partir de seu último aldeamento que começaria a demarcação geográfica ao atual município coariense. Setenta anos depois, após inúmeras mudanças do local inicial daquela missão, a remota aldeia seria elevada à categoria de Lugar, com o nome de Alvelos em 1759. 74 anos se passariam, e em 1833 é elevada à condição de Freguesia (paróquia de Sant’ Ana). 41 anos depois, no dia 1º de maio de 1874, aquela Freguesia seria elevada ao predicamento de Villa. Entre aqueles 41 anos decorridos, precisamente, em 1854, o Lugar seria instalado onde o está até hoje, às margens do lago de Coary. Por isso recebeu o mesmo nome do lago.  A partir dali a cidade não seria mais deslocada à parte alguma. Em 10 de março de 1924, a Comarca da cidade seria instalada, definitivamente, pela Lei estadual de nº 122. Da época do aldeamento, ao final do século XVII, até finalmente se tornar cidade, oficializada no século XX, se passariam 243 anos. A 2 de agosto de 1932, pelo ato de nº 1.665, a clássica Villa de Coary seria elevada à categoria de Cidade. Como município já o era desde 1874. O vocábulo “coari” teria origem no dialeto geral,  etino-amazônico, significaria: “uma pequena passagem”.  É a partir do final dos anos 20, ao iniciar dos anos 30, que, se registra, filosoficamente, a aparição do boi de pano do cearense José Luiz de França, à Villa de Coary. Naquele período a urbe sofreria uma nova reestruturação político-urbana. O prefeito da época, Herbert Lessa de Azevedo, havia sido destacado de Parintins a Coari, mas foi assassinado às vésperas de São João, dia 23 de junho de 1927. O crime faria grandes acontecimentos ocorrerem naquela antiga Villa. Foi um divisor de águas. O próprio folguedo deixaria de ser realizado naquele ano e, o boi do cearense França, não brincaria mais na praça e em parte alguma naquele São João. A chegada da cidade, aos meados dos anos noventa, século XX, já seria marcada pela extinção da figura clássico-moderna de seus bumbás tradicionais, e ainda, pela instalação de uma base de exploração de petróleo, pela Petrobrás, nos arredores do município, com base de extração fixa na província do rio Urucu.   Assim sendo, teremos a celebração memorial-folclórica pelas vias deste breve resgate cultural. É preciso rebuscar os fatos e acontecimentos, os quais já foram tradicionais ao povo, pois não é só o concreto que constrói a identidade de um local, mas também, suas manifestações sócio-coletivas imateriais. A história escrita auxilia ao resgate de resquícios, os quais contribuirão à recomposição dos acontecimentos culturais e sociais, como via de identidade, de grande valor, à memória de um grupo distinto. Dessa forma, não se perderá, completamente, um modelo de manifestação popular aos tempos vindouros e futuras gerações daquela localidade regional.

 


 

Toada de 1957, versos ao auto do boi-bumbá Prata Fina de Coari-Am (de seu Ioiô), coletada pelo professor e folclorista de Manaus, Mário Ypiranga Monteiro.


 

 

 

Boi, boi

Morena vem ver

Chega na janela

O Prata Fina vai morrer

 

Pai Francisco nego velho

Morador lá do sertão

Prepara teu bacamarte

É hora da matação

 

 

 

 

Pai Francisco nego velho

Deixa de amolação

Faz ponto na cabeça

Atinge o coração

 

Chega chega vaqueirada

Tudo na boa união

Vem juntar o Prata Fina

Não deixa cair no chão.

 




Brincante ornada com rica indumentária, representando a “mãe d’agua” amazônica (Iara) do cordão do boi-bumbá Rei Garantido, em Coari-Am, ano de 1993. O mito em conceito prevaleceu às apresentações espetaculares dos bumbás à região. O pensamento nativo-regional comandava a cena à época. *acervo do autor



 

 

 

 

 



COARI-CAMPO, FATO E CULTURA

a

o ano de 1989, durante uma das mais animadas noites do mês de junho (as famosas noitadas juninas da Cidade de Coari-Am), à vez da apresentação da agremiação folclórica, boi-bumbá Corre-Campo, do bairro de Chagas Aguiar ( localizado a leste da cidade), ao XV festival folclórico, realizado na Quadra de Esportes São José (Centro da cidade). O apresentador do grupo (o Semfim) clamava à galera “vermelha e branca” (a torcida animada): Co-ari-Cam-po!... Co-ari-Cam-po!... Co-ari-Cam-po!... E em resposta, os torcedores daquele bumbá gritavam, em um forte coro, o nome do “boi de pano” do bairro: Cor-re-Cam-po! Cor-re-Cam-po! Cor-re-Cam-po!... Aquele “brado de guerra” seria em alusão ao nome do boi, somado ao nome daquela cidade (Coari somado a Campo). Durante o transcorrer à apresentação, o também brincante e, professor da Escola Estadual João Vieira (escola sede daquele bumbá), José Wilson Matos Cavalcante (o Wilsão), ao momento da cena tribal (caracterizado de pajé), clamava em uma língua nativa, “desconhecida” aos ares daquela quadra de esportes: “Arachó! Arachó! Arachó Caramuru! Arachó! Arachó! Arachó Caramuru!...”






Brincante do boi-bumbá Corre-Campo de Coari-Am, em noite de apresentação na Quadra de Esportes São José, em 1988. Janeves Nogueira, a Porta-Bandeira do Boi Corre-Campo. *foto doada pela brincante ao autor em 1991.




Em geral, nas arquibancadas daquela quadra, ninguém nem sabia o que queria dizer aquelas expressões, usadas a ilustrar o momento da “pajelança”, ao bumbá.  Do tupi-guarani ao português teremos: “Poderoso! Poderoso! Poderoso filho do trovão!...” Após a apresentação do Corre-Campo, era a vez do outro boi. Porém, no momento em que a Rainha, Gerlane Costa, daquele,  começasse a desfilar pela quadra, deixaria toda a simpatia e delicadeza de lado e, assim, num gesto de réplica, “viraria o rosto”, literalmente, ao passar em frente às arquibancadas da torcida rival. O ato “esnobe”, ao tom da provocação, seria por conta do protesto ocorrido um ano antes. Em 1988, durante apresentação da Miss Garantido. Um brado incessante da torcida do Corre-Campo estabeleceria o requisito a um direito: “O vermelho é nosso! O vermelho é nosso!... Essa seria a frase entoada, com orgulho, pela galera vermelha e branca. A popular torcedora e, brincante do Corre-Campo, “Maria José”, deu o primeiro grito ao protesto. Naquele tempo, as torcidas não cumpriam regulamentação alguma ao silêncio durante apresentação do boi rival. O protesto ocorreria porque, a Miss Garantido, naquele ano de 1988, trajava seu manto real na cor vermelha. Era a cor da bandeira de guerra da torcida de Chagas Aguiar. Aos organizadores do boi do Centro, vermelho seria a cor, oficial, aos mantos da realeza (a Rainhas, Misses e Imperatrizes). Não ousariam fugir daquele padrão tipicamente europeu. Em 1989, o Corre-Campo teria a honra de ter como miss, Silvana Soares, vencedora do concurso de Miss Coari de 1988. Geralmente na cidade, se usava de um manto vermelho à coroação das Misses, durante comemoração do aniversário do município. E o Rei Garantido seguiu aquele paradigma ao apresentar sua Miss “Garantido” ao ano anterior. O Garantido sempre prezava por uma boa imagem às indumentárias apresentadas por seus brincantes. Em geral, não usava palheta às cores sortidas, buscava sempre um visual monocromático( apegava-se ao seu “azul e branco”).  Em virtude disso, acusava ao Corre-Campo de  espalhafatoso,  descomedido e carnavalesco, pelo  uso de suas cores sortidas, alegres e berrantes (chamativo). 






















Tradicional indumentária azul do boi-bumbá Garantido, de Coari, o Luar Amazônico. Inspirado na poesia regional de Mavignier de Castro. Foi apresentado pela primeira vez em 1989, pela brincante Helena Peres. Na foto, de 1993, o traje é contemplado em versão infantil, pelo boi-bumbá mirim Estrelinha. *acervo do autor
















 





















Entretanto, à última noite das apresentações, o grupo do boi branco do Centro resolveria inovar, em relação ao uso do vermelho, ao manto de sua miss. Assim, apresentaria o manto de sua Rainha (Miss) todo em azul e branco. Todavia, naquele ano de 1989, a Miss do Garantido daria o “troco” à galera rival (usando dessa vez seu inovador e elitizado manto azulado).  Independentemente daquele revide, a galera do Corre-Campo conseguiu “uma vitória”, honrada, sobre a “azul e branca”, por ter requisitado com muito clamor a cor de sua bandeira cultural, a seu inerente universo rubro-cromático. O bumbá, do bairro de Chagas de Aguiar fora fundado em 1986, pelos inovadores professores da Escola Estadual João Vieira, dentre aqueles, os saudosos Manoel Vicente de Lima e Domingos Agenor Smith. Assim também como outros mais. O brado e o clamor do apresentador Sem-Fim, e a desconhecida cantiga (entoada pelo pajé-alegórico), demarcariam a predominação do boi-bumbá Corre-Campo àquela área central da cidade. E todo aquele alarido, ocorrido à posse da cor vermelha (em 1988), somar-se-ia aquele protesto de modo posterior. Entre os bumbás, naquelas épocas saudosas, tudo vivia a meio passo de conflitos, à rivalidade. Os torcedores do Rei Garantido apontavam os artistas do Corre-Campo a não saberem “usar” das melhores combinações cromáticas a confeccionar suas próprias indumentárias. Não toleravam jamais perder o campeonato para o “boi carente” da periferia. Os torcedores do Corre-Campo curtiam a brincadeira, de um jeito ou de outro, e se divertiam tanto quanto seus rivais (talvez até mais). Valia à festa, a animação e a alegria dos torcedores. Os artistas do boi Rei Garantido, esmeravam-se ao melhor resultado, à confecção de suas luxuosas indumentárias. Suas apresentações eram também inovadoras, enriquecidas de muitas cênicas. Enquanto um bumbá se mostrava mais simples e humilde, o outro o olhava “de cima pra baixo”. Não faltavam provocações, entre os dois bumbás, principalmente em suas letras de toadas e de versos populares. As antigas letras mostram isso:


Vem, boizinho da sociedade

Vem aprender o que humildade.

E levanta o povão,

E o povão é Corre-Campo,

O verdadeiro “campeão”!


Antiga toada do boi-bumbá Corre-Campo de Coari, ano de 1988.


Todo aquele clamor extasiado dos torcedores era uma espécie de “declaração à paixão cultural”, em defesa do grupo da área periférica do bairro de Chagas Aguiar. A iniciativa pela criação da figura daquele boi-bumbá, ao interior da escola João Vieira, foi também uma forma genial de se construir uma sociabilização, intercultural, entre os brincantes do Centro da cidade e os do bairro. A partir daquela empreitada, político-social, a escola impetraria um intercâmbio igualitário, levando muitos jovens dos bairros rivais a se envolverem com a manifestação “nova”, a do boi-bumbá Corre-Campo, por toda cidade. Sete anos mais tarde, ao já ido ano de 1993, no XVIII Festival Folclórico da cidade de Coari-Am, a presença de dezenas e dezenas de jovens, moradores do Centro e do bairro de Tauá-mirim, como figurantes paramentados e vestidos, com indumentárias e cores do boi-bumbá Corre-Campo, já era muito expressiva entre os brincantes tradicionais do bairro de Chagas Aguiar. A dinâmica da integração social, entre os bairros rivais, havia crescido bastante. Antes de toda aquela transformação cultural, o grito de guerra (introduzido pelo I apresentador do  Corre-Campo, o popular Semfim, do Chagas Aguiar) e o protesto entoado (em 1989) - “Coari-Campo”, foi uma forma de se empregar ao movimento, naquele período, uma marca à construção de uma identidade e predominação nos espaços daquele local, o qual era reduto oficial do oponente e rival, do boi-bumbá *Rei Garantido (o boi “elitizado” do Centro da cidade). O Corre-Campo anseiava uma identidade própria. A cantiga entoada (e desconsertada) do “pajé teatralizado” era apenas um modo de tentar impressionar a audição dos jurados e do público. Tudo a fim de melhor aproveitamento de pontuação no placar final daquela disputa.  Em meio a esse contexto de apossamento de cores, fantasias, e do glamour de quem as usava, a se construir a posição da exuberância, invoca-se a fala do folclorista amazonense, Mario Ypiranga Monteiro (2004), a conceituar o fato ao tom da legitimidade à manifestação popular do boi-bumbá amazonense: “O fato folclórico não nasce rico nem luxuoso porque é anônimo e popular, e o que apresenta não são exterioridades, ornatos, beleza, e sim massa, volumes e linhas nacionais, quer dizer: formas, conteúdos, e funções. É produto do inconsciente, popular, e do coletivo”. A reza de Ypiranga contemplaria, ao hoje, a forma de apresentação menos ousado do boi-bumbá Corre-Campo de Coari.  Nos anos de 1950, Ypiranga coletou os versos do auto do boi Prata Fina, de Coari-Am, em Humaitá-Am. Havia um boi de mesmo nome naquele município o qual entoava os mesmos versos de seu Ioiô em suas apresentações. Ao término dos anos oitenta, ao início dos noventa, no século XX, a manifestação do boi-bumbá, no Estado do Amazonas, ganhava novos formatos e contextos.

*Naquele ano, o Rei Garantido era apenas chamado de Garantido. No XVIII Festival Folclórico, em 1993, passou a ser chamado, oficialmente, de “Rei Garantido”. Essa mutação, a denominação do bumbá do Centro da cidade, foi a fim de se compor uma identidade cultural própria, ao município de Coari-Am. Assim se definiria como um bumbá originário ao município e, se diferenciaria, da nomenclatura do boi-bumbá Garantido, da ilha de Parintins-Am. *nota do autor

A animação social, cultural, religiosa, comunitária e política que se desenvolvia com a realização daquele evento folclórico, marcariam uma época de celebração e cunho rural àquela cidade. Era durante o período do evento do festival folclórico local, geralmente realizado em junho, que se resgatava o sentido das várias manifestações (lúdico-folclóricas), as quais adentraram no Estado pelas heranças: portuguesa, indígena, e nordestina. Allan Rodrigues (2006), contemporâneo escritor coariense, revela-nos em sua obra-reportagem, “Boi-Bumbá Evolução”, a climatização ao evento do Festival Folclórico de Coari-Am, às décadas de 80 e 90 no século XX:

Em Coari, assim como em outros municípios amazonenses, o período das festas juninas era aguardado com entusiasmo. Sem cinemas, boates e outras opções de lazer comuns na “cidade grande”, para os jovens, a época das quermesses e arraiais significava um período de muita agitação cultural. Os cenários sempre incluíam céus estrelados e praças enfeitadas com bandeirinhas coloridas, fogueiras e balões. Os aromas e os sabores das noitadas vinham de comidas típicas como mungunzá, tacacá, bolo de macaxeira, pé-de-moleque e muitos outros quitutes. A diversão ficava por conta das quadrilhas, cordões de pássaros, cangaços e bumbás, que se apresentavam noite após noite em diferentes quadras esportivas, pertencentes às escolas públicas, estaduais e municipais. *Rodrigues

Naquele período, havia um desempenho grandioso às manifestações culturais, pelas vias e esferas estaduais e municipais. Todo aquele desempenho era em vista à grande amostra do Festival Folclórico de Parintins-AM, que começava a ser divulgado (e explorado comercialmente), pelo turismo e mídias: regional, nacional e até internacional. Mas aquelas esferas administrativas visavam o retorno dos investimentos apenas em forma de votos. Com a construção do bumbódromo em Parintins-Am (1988), a manifestação do “boi de pano” ganhava maior visibilidade perante a grande mídia. No entanto, antes mesmo de todo aquele grande movimento, os festivais folclóricos do Estado do Amazonas sempre constituiriam um momento todo especial, junto ao povo, principalmente em épocas de festejo a São João. Ao raro documentário de televisão, “Sons e Cores da Amazônia”, produzido ao ano de 1988, pela Rede Amazônica de Televisão, tem-se um valoroso apanhado de informações que 
nos conduzirão ao enredo e evolução do cenário artístico de boi-bumbá, por todo o Estado:

Durante todo o mês de junho o Estado do Amazonas é envolvido pelos festejos em homenagens a São João, Santo Antônio e a São Pedro. Em Manaus, Parintins, Tefé e em outros municípios, as tradições trazidas por colonizadores, espanhóis e portugueses, ainda vêm sido mantidas. Os festejos juninos, ou joaninos, como preferem chamar alguns, são representados por variadas representações como: o boi-bumbá, garrotes, cordão de pássaros, tribos, danças nordestinas e as danças regionais.  Em cada município as festas têm as suas peculiaridades. Nenhuma é inferior ou superior a outra, são apenas diferentes.







Os antigos bumbás de Manaus, apresentados em seu clássico Festival, são os grandes prenunciadores da manifestação e da “brincadeira” do boi-bumbá, ao restante do Estado. “Brincadeira” é como sempre é chamada, ou denominada, a qualquer manifestação folclórica, dentro dos festivais populares, à região amazônica. Os dançarinos e figurantes dos cordões são cognominados de “brincantes”. Entretanto, paralelo à Capital, há registros de surgimento de bumbás, pelo interior do Amazonas, desde as primeiras décadas do século XX. A exemplo, os bumbás de Parintins (antes de Garantido e Caprichoso): Fita-Verde, Pai do Campo e Galante. Todos do início do século XX. Em Coari, as décadas de 1920 e 1940, registra-se o aparecimento de seus supostos bois de pano (pioneiros à cidade): Caprichoso e Prata-Fina. Mas há suposições e resquícios de que o Caprichoso (de Coari) tenha surgido ao final dos anos vinte, no cenário clássico da antiga Vila de Coary. A manifestação popular do boi-bumbá é um fenômeno de grandes proporções cultuais ao cenário do Amazonas, meados do século XX. O Governo sempre viu nessa manifestação a possibilidade de projetar a identidade do Estado a todo o país. Por isso, houve muito investimento à produção e realização de Festivais, à presença de boi-bumbá, a toda região. E a construção de uma arena ímpar. Em 1957 quando se fundou em Manaus o I Festival Folclórico do Amazonas, havia um fato notório. Naquela década, foi também fundado, o movimento literário chamado de “Clube da Madrugada”. O movimento congregava as idéias difundidas pela Semana de Arte Moderna em São Paulo, de 1922, diz o escritor e professor Afonso Araújo de Souza (1999): “A repercussão, apesar de ter sido o maior movimento literário do Brasil, só chegou a Manaus após 1954 (...) O movimento potencializa e deflagra, com toda a compreensível e natural violência, em forma de crítica e autocrítica, este longo atraso cultural que nos vinha legando a um plano inferior.” Apesar do manifesto ter demorado a chegar no Amazonas, os princípios daquela manifestação, de 1922, também, foram conjugados pelos artistas e escritores locais: difundir e valorizar a cultura brasileira em si (arte e literatura). Incluem-se no manifesto, as manifestações regionais, produzidas tanto individualmente quanto coletivamente, ou seja, a cultura popular.





Brincantes tribais, em Coari-Am, do boi-bumbá mirim Raio de Prata (quadra de esportes São José), em 1991. Vestir-se e caracterizar-se com indumentárias étnicas faz parte do contexto amazônico aos festivais populares da região, até os dias de hoje. A ancestralidade sempre “repercute”, ao subconsciente social e cultural do Estado, como simbologia maior à caracterização aos bumbás regionais. *acervo do autor

 






Brincante masculino do boi-bumbá Corre-Campo, condutor de gigantesca indumentária, denominada à época de “capacete de luxo”. Quadra de Esportes São José de Coari-Am, 1989. *acervo do autor.

O boi-bumbá, como personagem e símbolo regional, sempre esteve também presente em nossa literatura. Fosse como protagonista ou, coadjuvante, é representado às letras. O romancista amazonense, Marco Adolfs, cita em sua obra literária - “Látex”, à visão fictícia de um de seus personagens do romance, à manifestação do “boi-bumbá” em Manaus, a 24 de junho de 1840. Na “verdade”, caracteriza aquele período de tempo como o da aparição e, registro, do boi de pano, pelas ruas antigas do Centro Histórico de Manaus. O personagem de um de seus contos, um forasteiro, está sentado num dos bares do Centro antigo daquela cidade. Já está perto do anoitecer quando começa a ouvir (batuques de terreiro) a chegada da “brincadeira do boi”. Todos aguardavam no bar (ou taberna) a passagem do tal “boi de pano”:

O assunto principal parecia ser a passagem, que se daria dentro de mais um tempo, do tal bumbá festeiro. Continuava eu naquela bebericagem e conversando com um e com outro quando de repente escutei ao longe o que parecia ser um som de batuque de escravos. Todos os que estavam no interior do botequim acorreram à rua e se perfilaram na expectativa de ver o cortejo do boi. Logo divisei, subindo a rua, uma pequena multidão carregando archotes que iluminavam as suas faces de uma forma fantasmagórica. À medida que a cantoria e o batuque se aproximavam, pude perceber que os brincantes se organizavam em três filas. A maior parte desses brincantes era formada de negros e cafuzos fantasiados com trajes tingidos em vermelho e azul (...). Na verdade, o “boi”, era uma caveira de boi, com a extensão do corpo feito de um material flexível que fazia de ser sua estrutura. Este arcabouço estava envolvido por panos e saiotes laterais.

A manifestação da brincadeira de boi-bumbá, pelas ruas de Manaus (e à Amazônia), é mesmo muito antiga. Foram os entraves e conflitos ocorridos, entre grupos rivais, de décadas e décadas passadas, que motivariam a criação de um evento, onde todos os grupos (contrários) pudessem se apresentar, de forma artística e civilizada. A realização do Festival começou no campo General Ozório, Centro da Cidade de Manaus (hoje o campo do colégio militar do Exército). Depois foi transferido ao Parque Amazonense, no Nossa Senhora das Graças. Com o passar dos anos, de acordo com a quantidade de público, o evento ganhou novos lugares como o estádio do Vivaldão (hoje arena da Amazônia), e o estádio da Colina. Por último, o Festival foi instalado na Bola da Suframa, onde permanece até os dias de hoje com uma arena fixa (antes, um tablado de madeira). O jornalista de Manaus, Bianor Garcia, em depoimento ao documentário de televisão, produzido sobre os festivais do Amazonas (em 1988), falou um pouco sobre a problemática da criação e emancipação do fabuloso evento cultural, em entrevista concedida à Rede Amazônica de televisão naquele ano:

O Festival nasceu em decorrência de quê? Da rivalidade. Naquela época (1950), “festival folclórico” em Manaus, só existia os bumbás e as quadrilhas, mas não havia “Tribos”. Havia algumas danças regionais, esporadicamente, em alguns colégios. Mas no ano de 1956 houve uma briga, entre os bumbás “Mina de Ouro” e o “Corre-Campo”, os quais eram os dois maiores rivais da cidade. Então marcamos a data de abertura do evento para o dia 12 de junho de 1957, véspera de Santo Antônio. Poucos dias antes, houve a informação de que vinha para o Brasil e, vinha também para Manaus, o presidente de Portugal, General Craveiro Lopez, foi o que abriu o Festival. Então, o primeiro Festival, logo nasceu com caráter de “grandeza”. Principalmente porque o exterior tomou conhecimento daquela festa pela presença do Presidente de Portugal. Depois de vários anos de apresentação, no estádio General Ozório, hoje Colégio Militar de Manaus, o Festival transferiu-se para o Parque Amazonense, depois estádios da “Colina” e “Vivaldão”, e finalmente para a Praça da Bola da Suframa onde tem um tablado fixo.






Festival de Bumbás, realizado em Manaus na Rua Ajuricaba (Cachoeirinha), em 1954. A manifestação do boi-bumbá, no Estado do Amazonas, sempre foi elaborada e celebrada com grande caráter de produção, acolhimento e apresentação primorosa dos bumbás ao público tradicional. *acervo de Mário Ypiranga Monteiro – Centro Cultural dos Povos da Amazônia.

 





Brincantes tribais do boi-bumbá Rei Garantido de Coari-Am, em apresentação na Quadra de Esportes São José, ao ano de 1989. As coreografias, indumentárias e o espetáculo em si, já estavam sendo influenciados pelo movimento de evolução artística, promovidas pelos bumbás de Parintins-Am. O apelo visual da época expunha, visivelmente, a influência da arte dos bumbás parintinenses em Coari, principalmente, por que um dos bumbás coarienses carregava denominação semelhante à de um dos bois parintinenses. E o outro, de um boi de Manaus. *acervo do livro de estudos sociais de Coari, de 1990.

A grande marca do Festival Folclórico de Manaus é a presença mágica da figura de seus bumbás tradicionais. A fundação daquele evento folclórico ofereceria um caráter de civilidade, ato até então inovador, aos antigos grupos dos bairros da Capital. Tudo seria regulamentado: a disputa, as indumentárias, o comportamento dos brincantes e, a introdução de idéias mercadológicas e ambientais, ao enredo do auto. Após a criação do evento (em junho de 1957 - Manaus), vários outros municípios do interior do Estado construiriam e adeririam à sistematização, as suas próprias manifestações folclóricas. Tudo de acordo com as realidades municipais vigentes a cada localidade. Todavia, seguiriam o exemplo maior da Capital. Segundo algumas teorias, fundamentadas pela seqüência cronológica de acontecimentos históricos à Amazônia, a tradição do boi-bumbá teria chegado ao Brasil através dos colonizadores, pelas regiões nordeste e centro-oeste.






Aos tempos modernos dos bumbás de pano do Amazonas, foram somados novas figuras que ofuscariam as do auto clássico original. A introdução desses novos personagens se deveria ao acontecimento do Festival espetacular dos parintinenses. Foto do boi-bumbá mirim Raio de Prata enfrentando um “toureiro”.  A figura da Mãe-Caitirina e Pai-Francisco não detia mais o lugar de destaque aquele novo auto.  Coari-Am, 1991. *foto do acervo do autor

 





Boi-Bumbá Corre-Campo de Manaus, campeão do Festival em 1976. Foi o Festival dos bumbás da Capital o maior incentivador ao surgimento de vários outros Festivais, do mesmo gênero, por todo interior do Estado do Amazonas. *acervo de Mário Ypiranga Monteiro – Centro Cultural dos Povos da Amazônia.

Ao Amazonas, o auto ficou conhecido como boi-bumbá, ou simplesmente “bumbá”. Alguns se referem ao auto, também, apenas como “boi”. E tem sempre o seguinte enredo:

Conta a história da morte de um boi por Nego Chico ou Pai Francisco para satisfazer o desejo da mulher Caitirina que está grávida. O amo do boi e os vaqueiros ficam desesperados e procuram ajuda do padre, do médico e dos pajés na esperança de salvar o animal. Após alguns fracassos de cura o boi ressuscita. E assim todos comemoram com dança e canto.

Conhecido pelo nordeste como bumba-meu-boi ou, como boi-de-reis, atravessaria o tempo, constituindo-se na brincadeira mais alegre dos folguedos juninos no Amazonas, admirado inclusive pelas crianças. O início da brincadeira no Estado não pode ser afirmado com precisão. O que se tem certeza é que chegou até nós, através dos nordestinos, vindos à região-norte durante a grande seca do sertão do ano de 1877(doc-rede amazônica). Apesar dessa data, existem registros mais remotos de que a figura de boi de pano já era usada, como brincadeira de rua, há várias décadas em Manaus. O folclorista Mário Ypiranga Monteiro (2004), defende que a origem do “boi” na Amazônia vem de 1787, afirma: “nosso bumbá é mesmo de origem eurásia e nos foi transmitido pelo colono português (no final do século XVIII), documentalmente e não pelo nordestino, cujo entrada no Amazonas data episodicamente (emigração não seletiva) de 1877 – 1888 – 1940”. Simão Assayag, folclorista de Parintins-Am, defende que o auto tenha se originado do teatro europeu à Amazônia e a outras regiões do país, pois nas diferentes manifestações folclóricas, às diversas regiões, há sempre uma encenação teatral como na Congada, no Moçambique e no bumba-meu-boi : “ O mais simples e mais didático artifício foi posto em prática – o teatro, como forma de aprendizado associativo, inteligentemente colocado de maneira alegre, musical, dançante e convincente (à catequização). Era o teatro religioso, europeu – o Teatro dos Milagres, as Peças do mistério ou as Peças da Paixão.” O auto tradicional, o do “desejo da mulher grávida”, se insere com a chegada dos nordestinos no Estado do Amazonas. Os bumbás mais lembrados no documentário da Rede Amazônica de televisão, em 1988, são: Mina de Ouro, Filho do Campo, Tira-Teima, Tira-Prosa, Gitano e Corre-Campo. Mas em 1957, havia ainda no festival de bumbás, em Manaus, a presença de um boi-bumbá chamado de Caprichoso, fundado no bairro da Praça XIV ao início do século XX (dizem alguns que foi em 1917, outros 1930). E um outro bumbá, dentre os mais antigos, também é citado à memória popular: o boi-bumbá “Luz de Guerra”. Este foi fundado no bairro da Matinha (Presidente Vargas), próximo ao Centro da cidade. O criador original do boi-bumbá Corre-Campo, do bairro da Cachoeirinha (zona sul - de Manaus), também é apresentado no documentário de 1988. O boi-bumbá Corre-Campo, de Wandir Guaramiro (o popular Miro, da Cachoeirinha), tinha como maior rival, pelas antigas ruas de Manaus, o boi-bumbá Mina de Ouro. O Jornal do Comércio, de 24 de outubro de 2006, apresenta uma reportagem sobre os vários bairros de Manaus, dentre eles, o bairro da Cachoeirinha, assim se ilustra o nascimento do Corre-Campo:

Na Cachoeirinha surgiu o bumbá Corre-Campo, fundado em 1º de maio de 1942, na casa 1140, da rua Ajuricaba, por Astrogildo Santos, o Tó, Wandir Guaramiro Santos, o Miro,Dionísio Gomes, o Tucuxi, Mauro Souza Cruz, o Pelica, e Antônio Altino Silva, o Ceará. Os ensaios aconteciam no próprio curral e nas casas onde era solicitado. *Jornal do Comércio.

 

O Corre-Campo manauara não é o bumbá mais antigo de Manaus, entretanto, possui um histórico memorável à cultura do boi de pano, a todo o Estado do Amazonas. Segundo Mário Ypiranga Monteiro (2004): “Lauro Chibé, em 1944, fabricou o Corre-Campo de malhas branco-marrão. Este bumbá está exposto, na seção do Amazonas, no museu do Ibirapuera em São Paulo.” Essa conquista, num espaço de um museu, à grande capital do sudeste do país, expõe a glória e a tradição do boi-bumbá amazonense “ao mundo ver”.  Até 1955, em Manaus, existia o Festival Folclórico de Bumbás no arraial da Rua Ajuricaba (Cachoeirinha). No entanto, foi no ano de 1956, que um conflito marcante entre o Corre-Campo e seu maior rival, Mina de Ouro, faria surgir, em 1957, o atual Festival Folclórico do Amazonas. Mário Ypiranga Monteiro (2004), apresenta a notícia daquele homérico encontro entre bumbás, colhida do antigo jornal - o “Diário da Tarde” daquela época:

Brigas de Bumbás: Mina de Ouro X Corre-Campo – Às primeiras horas da madrugada de hoje, ocorreu um choque entre “bumbás”, à Avenida Epaminondas (Centro de Manaus). Àquela hora, seguidos de grande acompanhamento, movimentaram-se na referida artéria os “bumbás”, “Mina de Ouro” e “Corre-Campo”. A aproximação dos bumbás foi anunciada pelo desafio de praxe: “Ho! ferro, Ho! aço, eu procuro e não acho” e “Contrário não ti assanhas senão tu apanhas”. E deu-se o choque. Gritos e correrias. O incidente já tomava proporções gigantescas, quando surgiu no local, oportunamente, a Polícia do Exército e as autoridades da Polícia Civil, que fizeram um cerco e levaram amos, vaqueiros, Caitirinas e Pais Franciscos, além de grande número de “torcedores” rumo ao xadrez da repartição da Rua Marechal Deodoro, onde passaram o resto da noite. /DOIS FERIDOS/ Com intervenção das autoridades policiais e da polícia do Exército, verificou-se a existência de dois feridos em virtude dos encontros dos elementos da vanguarda dos “bumbás”, os quais foram atendidos no S.S.U. *Diário da Tarde, junho de 1955.





Boi-Bumbá Mina de Ouro de Manaus. Maior oponente histórico do Corre-Campo da Cachoeirinha. Segundo o escritor Avaldir Assunção, foi Fundado em abril de 1922 na casa de Pedro Albano, Centro da cidade.*foto acervo de Mário Ypiranga Monteiro – Centro Cultural dos Povos da Amazônia.

Miro, um dos fundadores do Corre-Campo, revela o cenário da rivalidade entre os bumbás clássicos de Manaus, em entrevista concedida ao documentário da Rede Amazônica. Fala um pouco dos confrontos entre aqueles bumbás da Capital no século passado:

Naquele tempo, acho que havia mais entusiasmo na brincadeira. Porque a turma que brincava era a turma de fé mesmo, era a turma que gostava. Hoje vai sair o boi e, vai passar em tal lugar. Quando a gente via, naquele tempo usavam lamparina, a gente via de longe que era o Mina de Ouro, ai a turma se preparava... Surgia até pedrada, pois era o boi contrário. Então a turma ia pra briga, era cacete mesmo, e não era brincadeira não! Nós, do Corre-Campo, cansamos de pegar os “boizinhos” (garrotes) de meninos e os íamos deixar nos currais (locais de apresentação) porque o Mina de Ouro pegava os bois, arrancava dos meninos e batia neles. A gente os protegia e os levava em seus currais, na Aparecida e no Educandos (bairros tradicionais próximos ao Centro histórico de Manaus), senão o Mina de Ouro os pegava, os arrancava e dava porrada mesmo. Por isso, até hoje, o pessoal gosta do Corre-Campo, porque a gente era padrinho dessa turma todinha.

*Palavras de Wandir Guaramiro (o Miro), fundador do boi-bumbá Corre-Campo, do Bairro da Cachoeirinha de Manaus. Entrevista concedida ao documentário: Sons e Cores da Floresta, de 1988, produzido pela Rede Amazônica de Televisão.







*Altar da igreja de Santa Rita de Cássia do Bairro da Cachoeirinha de Manaus-Am. Reza as lendas urbanas e, a tradição dos bumbás de Manaus, que aquela santa foi escolhida pra ser a padroeira do bumbá Corre-Campo. Por isso a cor vermelha seria o símbolo cromático daquele boi de pano. É tradição à procissão da padroeira os fiéis portarem muitas rosas vermelhas em sua homenagem. Cada bumbá manauara tinha seu santo padroeiro. *acervo do autor. Maio de 2017.





Chamada do Boi-Bumbá Corre-Campo de Manaus para o Curral

Vaqueiro Ô fama

Eu to ti chamando

Vai buscar boi Corre-Campo

Que o povo está esperando!

 

Trás o boi

Trás o boi

Trás o boi vaqueiro!

 

Lá vem boi Sinhazinha

Lá vem boi Sinhá bela

Vem cantando modinha

Do mapa dela.

*da obra de Mário Ypiranga Monteiro





Boi-bumbá Corre-Campo de Manaus-Am, no bairro da Cachoeirinha (década de 1950). À esquerda na foto (ajoelhado do lado da figura do boi), Wandir Guaramiro (segura uma lança na mão direita), fundador do Corre-Campo. Da figura desse boi de pano, mais de trinta e seis anos depois, surgiria à inspiração à criação do boi-bumbá Corre-Campo, ao bairro de Chagas Aguiar do município de Coari-Am. *foto da internet.






Brincante feminino, ornada de imponente indumentária de luxo, do boi-bumbá Corre-Campo de Coari-Am, em 1993 – Quadra de Esportes da Escola Estadual Dom Mário. O uso de materiais mais sofisticados e aprimorados a se compor as indumentárias dos brincantes, demonstrava a riqueza e a grandeza da qualidade do espetáculo produzido àquela época. *foto do acervo do autor









Toada do Boi-Bumbá Rei Garantido, de Coari-Am, de 1993

Histórias de Boi-Bumbá

 

Vês chegou a hora

Do meu povo balançar

Já faz tempo é agora

Nunca é tarde pra sonhar...

 

Vás bumbá Garantido

Com tuas cores invade este chão

Mostrando tuas raízes

Tua história é paixão.

 

Rei Minos, abriu a porta sorriu

No labirinto, Minotauro surgiu

As sete moças, sacrifício de dor

 E no Egito... O boi se venerou.

 

 E aqui chegou, bumba-meu-boi

 Que eu sou Garantido,

 Eu sou o orgulho da região.

 Ti segura contrário!

 Tua sorte está em minhas mãos...

(José Willace)

 

 

 

 

 

 

 

Crônica, Origem e história do boi-bumbá à Villa de Coary





Praça Péricles de Moraes, hoje Getúlio Vargas. Era o local da antiga Villa de Coary onde ocorriam todas as festas e celebrações, ao inicio do século XX. *acervo – Araújo Lima – In Memoriam de Herbert Lessa de Azevedo. C. C. Povos da Amazônia.

Villa de Coary, 23 de junho de 1927. A pequena e pacata localidade está movimentada, é véspera do dia de São João. O verão já se faz presente com muito sol, muito vento, e muito trabalho a ser feito, a se preparar o festejo do santo junino. A Praça está capinada, roçada, e limpa. Será o cenário ao festejo popular mais animado daquele ano. É sabido que os arraias (aos padroeiros da Villa), realizados na Praça de Sant’ Ana, também são sempre festejados com toda dedicação e a fé do povo. Entretanto, o São João é divertido demais, porque tem fogueira, soltura de balão, e as quadrilhas improvisadas. E ainda, há as comidas e as bebidas de época: mingau de milho, bolo de macaxeira, canjica, doces de tudo que é jeito, além é claro, da cachaça e sucos de frutas. Apesar de não se ter luz elétrica à noite, as pessoas se sentem estimuladas a sair de suas casas e ir á Praça apreciar as animações. Os lampiões, espalhados pelas ruas, iluminarão a Villa à noite. Dessa vez vai ter até um tal de um “boi”, um cearense lá das bandas do Tauá-mirim (naquele tempo bairro de Sant’ Ana) que vai apresentar, pra modo do povo ver. Naquele ano, à Villa, as pessoas se sentiam encorajadas a realizar o festejo junino, pois em 1926 não houve clima e, nem festa. Muito menos houve fogueira e soltura de balões. Depois do que aconteceu com o Vapor Paes de Carvalho, em frente ao lugar do Camará, as pessoas não tiveram clima a realizar festa nenhuma. Pudera o naufrágio foi apavorante. 1926 foi um ano só de luto.  O Vapor era um barco inglês que viaja pelo Solimões. Muito elegante e bem feito. No dia 22 de março daquele ano, iria passar na Villa, ao final da tarde, por isso estava sendo muito esperado. Como de costume, iria aportar no trapiche do Igarapé do São Pedro, de fronte ao sobrado do Major Deolindo Dantas, perto da bela ponte de madeira. Havia gente ansiosa pela chegada daquele, diziam que muitas novidades viriam às lojas da Frente daquela Villa. Naquele tempo, Praça e Frente tinham o mesmo significado. Também desembarcaria muita gente. Alguns vinham a trabalho, outros, apenas de volta à cidade. O político local, Leôncio Salignac, estava a bordo, junto a outros cidadãos residentes na Villa, mas não faleceu no naufrágio. O Vapor vinha de Belém, parou em Manaus, por três dias, a deixar passageiros e cargas. E do mesmo modo, receberia novos passageiros e cargas. Depois prosseguiria a viajem, rumo a Cruzeiro do Sul, no Acre. Contudo, naquele trajeto, passaria em outras Villas do rio Solimões como em Coary e, na Cidade de Teffé. Mas à madrugada do dia 22 de março, precisamente às três horas daquela, passando em frente à localidade do Camará, o Vapor explodiu (havia muito combustível a bordo). Morreu muita gente, queimada e afogada. Aquela foi uma tragédia difícil de ser esquecida pelos moradores do Camará e da Villa de Coary. Por isso não houve clima a se festejar o São João de 1926.





Ponte sobre o Igarapé de São Pedro. Ao inicio do século XX os grandes Vapores que passavam pelo Solimões, em Coari, a tinham como porto. À direita na foto fica o local do sobrado dos Dantas. Após a morte de Herbert de Azevedo foi batizada, oficialmente, com o nome dele. *acervo Anísio Jobim – C. C. Povos da Amazônia -

As pessoas foram tomadas pelo luto aos que faleceram naquele naufrágio. Mas em junho, de 1927, já se tinha superado o sinistro daquele corrido. Agora todos queriam a alegria da noite das fogueiras e dos balões. A notícia do aparecimento de um “boi dançante” fazia o povo curioso à apresentação do auto. Muito se comentava sobre como seria o tal do “boi”. Alguns já tinham visto “boi” em Manaus, outros, nordestinos, diziam que no Ceará e no Maranhão sempre se punha um “boi” pra brincar no São João e, até no Carnaval. Naquele tempo, em Manaus, havia o boi-bumbá Laranja, o Luz de Guerra, Mina de Ouro, e ainda, o Galante. Como o negócio era bem visto na Capital serviria à Villa. Afinal, eram sempre as “elegâncias” da Capital que se usava no interior. O boi estava sendo preparado nas lonjuras do Tauá-mirim, prá lá do seringal do Morro e, do Cemitério de Santa Terezinha. O dono do boi era o cearense França. O prefeito, que havia procedido de Parintins à Villa de Coari, havia dado autorização ao “cearense”, a apresentar o seu boi na Praça, à noite de São João. O prefeito era um jovem Dr. advogado, Herbert Lessa de Azevedo, havia chegado em janeiro à Villa. Também já conhecia a brincadeira do boi, lá de Parintins e de Manaus. Dizem que foi ele próprio quem batizou o boi do cearense França.  Bem, naquela época, era preciso ter autorização do prefeito pra brincadeira acontecer e, por o boi na rua. Segundo o que alguns diziam, a brincadeira era uma coisa “imoral” em Manaus, tinha até uma “mulher” que ficava grávida e queria comer a língua do “boi”. O problema era que, não era bem “uma mulher”, mas um rapaz, vestido como tal. Como é que um rapaz ficaria “grávido” naquele tempo?! E como é que se podia permitir um “travesti” na Praça pras famílias apreciarem?! Será que o código de conduta municipal permitiria aquilo?! E a igreja? Toleraria?! Aos que não conheciam o auto, era um negócio curioso e, mal interpretado. No entanto, se havia autorização do prefeito, o “negócio” podia acontecer, sem a represália das outras autoridades. Alguns que ainda não conheciam direito a brincadeira se perguntavam: “Mas como é que um “boi” dança?” Aos coarienses daquele tempo de Villa, boi era muito bom mesmo, assado no espeto e feito com muito caldo na panela. Talvez, alguns imaginassem que seria feito e preparado, a ser servido durante a festa de São João. Acontece que o boi do cearense França era feito de pano, sem osso e sem carne. Foi o primeiro “boi” a surgir no cenário clássico da Villa de Coary, aos anos vinte do século XX. Tudo estava às mil maravilhas naquele dia, o prefeito Herbert havia feito um grande mutirão de limpeza pelos arredores daquela localidade. Toda a orla do lago estava capinada, limpa, e bem apresentada. Até o Cemitério havia sido alvo das boas ações daquele jovem Prefeito. Ele era muito jovem mesmo, tinha apenas 25 anos de idade. Com a chegada do verão daria pra arrumar muita coisa na Villa... Já era pouco mais de nove horas da manhã do dia 23 de junho daquele ano. Naquele momento, o Major Deolindo Dantas, olhou da janela de seu elegante sobrado e viu uns caboclos saindo de um batelão, que estava ancorado próximo do seu casarão, na ponte de madeira. Ficou desconfiado, porque os cerca de 20 caboclos estavam todos armados, de rifles e espingardas. Ficou a olhar à cena pra ver do que se tratava... Não estava entendendo o que aquela comitiva tramava fazer. As crianças que brincavam ali perto, “atrepadas” em uma das antigas mangueiras da Rua Ruy Barbosa, ouviram quando o Major falou: “Mas o quê que aqueles fazem tudo de armado meu Deus?!” Uma das crianças que brincava ali, era o seu Raimundo Martins de Sousa, tinha apenas cinco anos de idade. Não demorou nem dez minutos, quando o Major ouviu fortes “estouros” vindos da Praça Péricles de Moraes. Toda a Villa ouviu aqueles estouros ecoando por entre as árvores dos bosques próximos. Até no Tauá-mirim, onde o cearense França morava, e terminava de confeccionar seu “boi de pano”, os ecos dos estouros foram ouvidos (em menor proporção de som). As crianças que estavam brincando nas mangueiras começaram a gritar de alegria (inocentemente): “Viva São João! Viva São João! Viva São João!” Achavam que já estavam dando início à tal folgança.  As mães começaram a gritar, desesperadas, das janelas de suas casas na Ruy Barbosa para que as crianças entrassem imediatamente. Foi um “desce daí curumim pelo amor de Deus”, desesperadas! O Major Deolindo Dantas deu ordens pra trancar todas as janelas e portas de seu sobrado e, tão logo, se armou de seu rifle e revólver. Na Praça Péricles de Moraes, o bang bang correu solto, às vésperas daquele São João. Viam-se pessoas correndo para todos os lados. Alguns, em pânico, trancavam portas e janelas de suas casas e comércios. Correu gente em direção do Tauá-mirim (bairro de Sant’Ana), da Praça de São Pedro, XV de Novembro, e do Igarapé do Espírito Santo (hoje rua Independência). Houve muitos feridos.




Cemitério de Santa Terezinha de Coari-Am, onde jaz Herbert Lessa de Azevedo, desde 24 de junho de 1927, dia de São João. Ele havia mandado arrumar todo o local dias antes de sua morte acontecer. Por isso foi o primeiro a ser sepultado após as limpezas e benfeitorias. * acervo Anísio Jobim. Governo do Estado do Amazonas. C. C. Povos da Amazônia.

Os caboclos armados, alguns também foram feridos, voltaram correndo pra seu barco de madeira coberto de palha branca. Zarparam da Villa em minutos. Por volta das duas da tarde, após o alvoroço ter-se encerrado, toda a população estava com atenção voltada à Rua Ruy Barbosa, à residência do Prefeito Herbert Lessa de Azevedo. Ele fora a maior vítima daquele atentado. Recebeu muitas balas em seu corpo o qual sangrava muito. Estava tentando manter-se vivo à espera da lancha “Alvorada”, de propriedade do Major Deolindo Dantas. Mandaram buscá-la do castanhal para levá-lo a Manaus, a ser atendido e socorrido.




O túmulo do Prefeito Herbert Lessa de Azevedo, adornado por coroas de flores. Foto de 24 de junho de 1928 – Cemitério de Santa Terezinha em Coari-Am. *acervo Araújo Lima – C. C. Povos da Amazônia.

Todavia, as 16:55 horas daquela quinta-feira, 23 de junho de 1927, o jovem prefeito faleceu, lastimavelmente, vitimado pelos tiros que o acertaram.  Uma tristeza e profunda depressão baixariam no clima da Villa naquele final de dia. À noite, o povo velou o corpo do prefeito, com muita dor e pesar. Ao amanhecer do dia, sexta-feira, 24 de junho (dia de São João), o Cemitério de Santa Terezinha, o qual havia sido todo organizado recentemente, pelo jovem prefeito, estava tomado por centenas de pessoas a saudá-lo pela última vez.




Último retrato feito de Herbert Lessa de Azevedo em 1925. Segundo a reza popular, teria autorizado José Luiz de França (o cearense) a levar seu boi pra brincar na Praça Péricles de Moraes. Mas sua morte, ocorrida às vésperas de São João na Villa de Coary, impediu a realização das brincadeiras juninas de 1927. O boi do França só aparecia mesmo ao início dos anos de 1930. *acervo Anísio Jobim – Centro Cultural dos Povos da Amazônia.

O arrumaram com muita elegância, como ele o era. Elegante e educado... O vestiram em seu terno azul-marinho o qual mais gostava de usar em datas comemorativas... Perto do cemitério, na casa do cearense França, o “boi de pano” que estava sendo preparado a festejar o São João daquele ano, fora deixado num canto, esquecido.  Era um boi negro, arrumado com barra azul-celeste e outros enfeites reluzentes.  França havia conseguido concessão do Prefeito pra brincar com seu boi na Praça Péricles de Moraes, o havia permitido. Segundo a reza popular, o prefeito Herbert pediu pra por o nome de Caprichoso no boi. Era o boi que mais gostava em Parintins, onde foi prefeito em 1926. Naquele ano, em vez de uma alegre noite de São João, iluminada com fogueiras, balões coloridos, e bandeirolas, os coarienses teriam uma noite negra, escura, e triste. Ficou na memória de muitos: o terno azul-marinho do prefeito, a barra do boi de França, em azul-celeste, e o luto social que mais uma vez assolaria a Villa de Coary, pelo segundo ano. O boi foi criado no bairro de Tauá-mirim, próximo de onde agora está o hospital daquela cidade. Foi fundado por um cearense vindo ao Amazonas no inicio do século XX. Foi assim que “começou” o movimento da manifestação do boi-bumbá em Coari. Somente no inicio dos anos trinta, o boi de França sairia às ruas da Villa, pela primeira vez, autorizado pelo prefeito Alexandre Montoril. Em 1942, o escritor coariense, Francisco de Vasconcelos, viria o boi de França em sua infância. Naquela década, o boi de Benedito Nogueira (o seu Ioiô), também surgiria junto ao do “Cearense”. Até então, nenhum outro boi foi registrado, à memória popular, no periférico bairro da “Estrada de Chagas Aguiar”. Somente sessenta anos depois, em 1986, se ouviria falar do boi-bumbá Corre-Campo, fundado na Escola Estadual João Vieira, naquele intrigante bairro da zona leste de Coari. Herbert morrera por engano, a rixa dos caboclos era com o Promotor da Villa, não com o Prefeito. Dois caboclos do interior haviam sido presos e mal tratados, seus vizinhos vieram vingá-los. Entretanto entram em conflito com o prefeito que findou morrendo nessa história.






O brincar de boi-bumbá

Data do ano de 1840, o primeiro registro “literário”, sobre o boi de pano no cenário cultural brasileiro. Foi pelo padre Miguel do Sacramento Gama, no Recife (PE). Segundo Wilson Nogueira (2014) o padre trata do folguedo como um desenfado “tão tolo, tão estúpido e destituído de graça”. Gama revela o juízo de valor que as elites da sua época faziam às folganças do povo. Atualmente, brincar de boi, na Amazônia, é diferente do brincar de boi em outras regiões do Brasil. De “bobo da corte” (no passado) a espetáculo de luxo (atualmente), o brincar de boi significa ser figurante, expectador, torcedor e consumidor dos produtos e, do evento. Mas o auto clássico, o do desejo da mulher grávida com os negros Mãe-Caitirina e Pai-Francisco (da matança, ressurreição e do comer a língua do boi), demarca o ritmo ao dois-pra-lá e dois-prá-cá.

O boi de pano representa a maior figura da manifestação folclórica moderna, a de se brincar de “boi-bumbá” à região norte e a toda floresta Amazônia.  Abaixo, torcedores do boi-bumbá Caprichoso, no bumbódromo de Parintins-Am, se aquecendo ao espetáculo, em 2010. *acervo particular





Em todo o país se dança com o mesmo passo coreográfico, porém, em cada localidade, aonde ocorra à manifestação do boi de pano, o modo e o estilo do espetáculo obedecem às inquietações artísticas e, as necessidades mercadológicas de cada realidade social e regional. Antigamente (inicio e meados do séc. XX) os bumbás eram conduzidos às apresentações em frente da casa de quem podia “pagar pela língua” do boi. Era preciso ter uns bons trocados sobrando, a custear a animada apresentação da turma que a compunha, e também, os comes e bebes aos convidados que a apreciavam. Aqueles saltimbancos não eram profissionais, no entanto, encenavam o auto com muita alegria, à base também de muita cachaça. Antes da brincadeira  começar, se servia aos convidados (os do dono da residência) os quitutes de época junina: doces, bolos, mingaus, bebidas e churrascos. Tudo iluminado pelas chamas de uma fogueira e animado pelas satíricas prendas de época. Não faltava clientela aos donos dos bois de pano, por isso começariam as disputas (com direito a pancada e discussão), por pretendentes às apresentações. Cada qual queria ter sua área. O auto do boi de pano, a cada região, tem identidade própria. Em 1965, quando se começou a instalar um pólo industrial em Manaus (PIM), à chegada da zona franca, o primeiro festival folclórico do interior do Estado do Amazonas (de boi-bumbá), era também inaugurado à cidade ribeirinha de Parintins (a 420 km em linha reta de Manaus). Nogueira (2014) revela, através da visão do sociólogo Renato Ortiz (1995), a nova imagem aos bumbás: “desde a passagem da década de 1960 a 1970, já é possível tratar a cultura brasileira num contexto de um capitalismo que se consolida no país com força econômica e política estrutural. A indústria cultural é resultado desse fenômeno e tende, desde então, cada vez mais a influir na vida e na cultura nacionais e se tornar ela mesma uma nova tradição”. A partir dai os parintinenses dariam início a um espetáculo de “boi de pano” diferenciado. Somariam ao auto-originário uma nova legião de personagens curiosos e, ainda, acrescentariam em suas rústicas indumentárias muitas cores, materiais reluzentes, produtos regionais junto a adereços arrojados e modernos. Assim sendo, construiriam uma seqüência de apresentações espetacularizadas.  No Dicionário do Folclore Brasileiro, Câmara Cascudo nos define o conceito ao “auto”, pois o boi de pano provem dos autos clássicos (religiosos), os da morte e ressurreição cristã:




Auto: forma teatral de enredo popular, com bailados e cantos, tratando de assunto religioso ou profano, representado nos ciclos de festas do Natal (dezembro-janeiro). Lapinhas, pastoris, fandangos ou marujada, chegança ou chegança de mouros, bumba-meu-boi, boi, boi calemba, boi de Reis, congada ou congos, etc.

*Foto da arena do Bumbódromo de Parintins-Am. Foi construído em 1987, entrgeu a Parintins em 1988, exclusivamente às apresentações dos bumbás mais famosos do Amazonas: Caprichoso e Garantido. *Parintins 2014, acervo do autor.




A cada década, o evento dos parintinenses se comportaria e funcionaria de acordo com as modas, doutrinas e, até, com os estilos ditados pela mídia e comércio. Foi assim que assimilariam a introdução de personagens modernos (estrangeiros), muitos deles oriundos dos grandes filmes hollywoodianos e dos famosos seriados de TV (vaqueiros, toureiros, índios-apaches, deusas, fadas etc). Dos filmes norte-americanos, do velho oeste selvagem (bang-bang) ao inesquecível Mágico de Oz, os parintinenses se inspirariam “olhando” às grandes produções cinematográficas, a se compor seu inovador espetáculo de boi. Aos anos oitenta a rainha do boi se chamava de “Miss” (termo americanizado). Duas décadas depois, já seria chamada de Cunhã-Poranga (mulher-bonita). Através do contato que se teve com a produção das alegorias do Carnaval carioca (nos anos 70), o celebrado e honrado artista, Jair Mendes, introduziria aquele elemento no espetáculo do boi de pano amazonense, às apresentações caboclas do evento em Parintins. Jair Mendes foi morar no Rio de Janeiro na década de 1970, trabalhou na escola de samba Portela. E foi assim que aprendeu a estruturar e a fabricar os carros alegóricos, indumentárias e adereços aos desfiles carnavalescos. Andreas Valentin (2005) apresenta o fato: “O principal responsável pelo salto criativo do Festival é Jair Mendes, conhecido em Parintins como o “Pai do Folclore”. No inicio da década de 70 ele foi trabalhar no carnaval do Rio de Janeiro. Quando voltou trouxe materiais e elementos que começariam a mudar a visualidade da apresentação do Garantido e que, logo em seguida, viriam também, a ser incorporados no Caprichoso”. Nada se cria tudo se copia. O seriado norte-americano, intitulado de “A Ilha da Fantasia” (com o famoso anãozinho “Tatu”), serviu de inspiração aos parintinenses, ao marketing de transformação, de sua ilha tupinambarana a um novo roteiro de realização de desejos e anseios alegóricos a muitos apaixonados torcedores e turistas do mundo todo. Ao início dos anos 80, o cordão de cortejo aos bumbás parintinenses já estava totalmente diferenciado dos bumbás de Manaus. A Capital, até então, trataria de seus “bois” como os mesmos sempre o foram, desde os anos 30 e 40, sem nada por ou tirar. O escritor parintinense, Wilson Nogueira, em sua obra: Boi-Bumbá, Imaginário e Espetáculo na Amazônia (2014), destaca essa transformação sofrida pelo boi-bumbá de Parintins:

A história nos indica que as artes não perdem seus vínculos com suas origens e tradições, mas se dinamizam e se enriquecem ao dialogar com as expressões artísticas de outras culturas. Nesse contexto, podemos afirmar que os bois-bumbás de Parintins ingressaram no mercado estilizando personagens do cinema norte-americano, da tourada espanhola, do carnaval carioca ou dos concursos de beleza feminina da TV. O exemplo que lhe custa mais caro é o da criação das tribos de tontos, dos filmes de caubóis dos estúdios de Hollywood, que se misturaram ao imaginário dos imigrantes nordestinos, dos caboclos ribeirinhos e dos indígenas amazônicos. *Nogueira 2014.   

À Capital, a tradição falaria mais alto. Os bois de Manaus, assim como os de Parintins, eram de rua, de desfile e cortejo. Mas ao serem requisitados a se apresentar em uma quadra, ou tablado, procurariam se readaptar ao novo cenário. Contudo, até a adequação total ocorrer, deram monótonas e intermináveis “voltas” pelo tablado, como se ainda estivessem desfilando em via pública. Parintins introduziria uma série de artifícios próprios ao mundo de seus bumbás, e ainda assim, arquitetaria um espetáculo voltado ao novo cenário de “arena” com muita surpresa, suspense, emoção, comoção, criatividade e beleza. Era muita novidade sendo introduzida no velho auto do “tira a língua”. Enquanto isso, em Manaus, a cada ano, as pessoas iam ao grande tablado ver seus bumbás brincar, porém, já sabiam, fundamentalmente, o que iriam ver. Em Parintins, tudo era sempre inovador e incomum. Atualmente, os bumbás de Manaus (os sobreviventes) aderiram aos enredos e modas parintinenses. Com a construção do Bumbódromo, bem no coração da cidade de Parintins, muito mais valores seriam agregados ao evento dos parintinenses. Além disso, a própria visão do expectador, em relação ao olhar o espetáculo das arquibancadas, teria uma motivação muito maior que nos antigos tablados de madeira. Simão Assayag (1995) descreve o novo contexto de se assistir o Festival dentro da inovadora edificação aos bumbás: “Assistir das arquibancadas do Anfiteatro Amazonino Mendes (bumbódromo) a apresentação dos bois é ter a sensação de se estar no altiplano que recorta o vale amazônico. Você pode olhar do Planalto Guianense, do Central, ou das cordilheiras dos Andes. De qualquer um deles você acompanha a vida da floresta em toda a sua magnitude. A tribuna de honra é a ilha de Marajó que assiste a “entrada do mar” e à saída do rio Amazonas.” O Estado daria novo gás ao acontecimento da manifestação do boi de pano à ilha de Parintins a partir da fundação do bumbódromo. O fato se tornaria um dos raros acontecimentos turísticos, organizado e regulamentado, ao interior do Estado. A época da inauguração do bumbódromo de Parintins, o governador Amazonino Mendes (o qual doou nome ao anfiteatro) deixou registrado o motivo, à construção e realização da obra, em uma entrevista dada a Rede Amazônica de Televisão em 28 de junho de 1988:

O que norteou o Governo a tomar essa atitude é a famosa “busca da identidade”. Eu tenho sugerido e procurado através do Instituto Superior de Estudos da Amazônia. Enfim, todos os meios e formas. Mas só encontrei aqui em Parintins uma maneira de perseverar e de fazer com que nós não nos arredemos de nossas raízes históricas. Através desse povo extraordinário e magnífico que há 75 anos guarda essa tradição. Edificamos essa obra pra que ficasse por muito tempo como o sentinela vivo da identidade do povo amazonense. *palavras de Amazonino

Tonzinho Saunier, grande pesquisador das coisas da velha Tupinambarana, nos apresenta a arena do bumbódromo em sua obra: Parintins, Memórias dos Acontecimentos Históricos:

Obra monumental do governador Amazonino Mendes. O bumbódromo foi construído na gestão do ex-prefeito Gláucio Bentes Gonçalves. Sua área é de 10.000 m², com capacidade para 50.000 pessoas. Estrutura em forma de uma cabeça de boi estilizada, mista de ferro e concreto pré-moldado. Foi inaugurado em 1988, no 23º Festival. O complexo tem ainda pronto-socorro, 18 salas de aula, biblioteca, lanchonetes e outros compartimentos. Concorrem ao Festival os bumbás Garantido e Caprichoso, com 4000 mil brincantes cada um, apresentando figuras típicas regionais, alegorias com lendas amazônicas, danças e tribos indígenas.

Naquela época de inauguração (junho de 1988), o programa dominical da Rede Globo de Televisão, Fantástico, fez uma cobertura aquele inédito ocorrido à Amazônia. O repórter, Francisco José, (nordestino), foi a Parintins fazer a cobertura do primeiro Festival realizado na arena do novo bumbódromo. Durante sua reportagem ele teceu um comentário que, mostraria ao povo amazonense, como a festa seria “vista” pelos forasteiros de outras regiões do país e, do mundo. O argumento daquele repórter revelaria o que era “realmente” a festa do boi-bumbá do Amazonas. Assim ele relatou: “Em festa de índio, só as índias podem reinar”. No momento que o repórter construía essas palavras estava posicionado entre as tribos indígenas de um dos bumbás que se apresentava. Foi assim que ele fez referencia a emancipação da beleza feminina da região á festa, assim também de como a percebeu. Depois ainda disse, comovido, que a entrada das “tribos indígenas” era emocionante.  Apesar da grande evolução do boi na ilha Tupinambarana (ilha do arquipélago onde se localiza a cidade de Parintins-Am), somente Manaus conseguiria guardar a essência original ao verdadeiro boi de pano clássico, o de rua. Foi somente em meados dos anos 80, à cidade de Coari-Am, que se daria início também, ao processo de mutações, dramáticas e alegóricas, ao novo espetáculo forjado a seus jovens bois de pano. Os coarienses também assimilariam as inovadoras idéias dos parintinenses, por uma ousada via de “sintonia de conceitos” e criatividade. A inspiração causada pelas cenas do Festival de Parintins seria crucial a incentivar a progressividade aos bumbás coarienses. Coari foi o 1º município, no interior do Estado do Amazonas, a fundar um “segundo” e grandioso espetáculo de boi-bumbá (após Parintins), em 1988. Tudo movido a uma acirrada disputa de cores com uma filosofia própria de arte e criatividade. A adaptação, ao Festival inovador, do boi-bumbá parintinense, naquela época, foi o estilo que permaneceu até os dias de hoje, como identidade, ao evento do boi-bumbá de Coari. Dois grandes eventos recorrentes, desde meados dos anos 90, aos dias de hoje no Estado (Festival de Barcelos e Ciranda de Manacapuru), viriam após a data inicial a de Coari-Am (1988). Os coarienses abancariam o mesmo fio da meada quais os parintinenses. Mas infelizmente não passariam dali... A realidade do Festival de Parintins foi forjada à construção de valores culturais próprios. O boi-bumbá de Parintins de repente exacerbou-se ao cenário regional como as grandes superproduções hollywoodianas ao mundo.




Nas grandes manifestações folclórico-populares, inspiradas sempre no espetáculo parintinense, ao se brincar de “boi de pano” no interior do Amazonas, a participação recheada da população tradicional impressiona pelo apelo de “protesto” comunitário. Independentemente da figura totêmica do “animal de pano” celebrado, o manifesto popular é sempre comovente e magnífico. Apesar de toda euforia, de movimento e circulação de alternativas a ganhos econômicos à comunidade, muitas gestões públicas não tem sensibilidade social e, muito menos políticas públicas, voltadas ao momento caloroso da população junto a seus eventos folclóricos. Festival dos Botos de Maraã-Am/2010. *acervo Selso Sena.






No Festival Folclórico da cidade amazonense de Maraã-Am, invés de um boi de pano, os brincantes do evento se divertem com a figura totêmica de um “boto de pano”. *acervo de Roberley Assis. Maraã-Am 2013.

O espetáculo dos coarienses foi encerrado no momento de sua grande projeção à região (apoteose). Faltou maior visão, amadurecimento cultural, vontade político-social (da parte da própria sociedade) a engrandecer o evento perante os refletores midiáticos do Estado. Os parintinenses foram mais astuciosos ao projetar seu evento ao mundo ver. Foram mais perspicazes, pois o Festival de boi de pano passou a fazer parte do dia a dia, à velha Tupinambarana, não foi apenas uma festa de junho. Os coarienses não conseguiriam absorver toda aquela genialidade. Atualmente, na Amazônia, muitos lugarejos e cidades aspiraram o espetáculo soberbo do boi de pano moderno. Desse modo tentam projetar-se como um novo pólo de produção folclórica de massa, mas ainda sem o grande foco que Parintins obteve. A fomentação à festa do boi tupinambarana tem custeio, e patrocínio, em três níveis empresariais: regional, nacional e internacional. Em geral, aos outros lugarejos e cidades da Amazônia, somente o poder público-municipal custeia a produção dos espetáculos a seus “bois de pano”.  Em relação ao “animal de pano”, que cada localidade apresenta, a seu grande evento folclórico (ou popular), abriu-se um leque de opiniões, e de muitas outras opções alegóricas, a cerca da figura do animal inerente a cada lugar. Dependendo da cultura e produção econômica, o “brinquedo de pano” (ou boi de pano) ganha um “toten” diferenciado. Municípios amazônicos como Maraã-Am e Alter-do-Chão-Pa, trocaram o boi de pano a “botos de pano”. Em Caracarí-RR (onde ocorre outro grande festival) foi traçado o inusitado signo alegórico à competição entre um “gavião” X uma “cobra”. Em Novo Airão (área metropolitana de Manaus) tem-se a figura de dois “peixes-boi de pano”. Em Tabatinga, há mais de 1.000 Km da Capital do Estado, subindo pelo rio Solimões (à tríplice-fronteira), duas “onças de pano” duelam a um inusitado festival caboclo, a Preta X a Pintada. A figura de diferentes animais de pano não é coisa do agora ao cenário de produção folclórica da região. Antigamente (século XX), a vários grupos folclóricos de Manaus, invés do boi de pano, se usava da figura de um “pássaro”. Era uma forma dos grupos ficarem longe dos conflitos de rua entre os bumbás rivais. Nem todos eram afeitos aos embates. Foi da imagem dos muitos personagens, dos antigos “pássaros de pano”, que os bumbás de Parintins construiriam também novos personagens aos seus próprios espetáculos. Pássaros de pano (Corrupião, Tangará, Papagaio Raio etc) eram também muito populares em Parintins e em Manaus, assim como em vários outros lugarejos do interior do Amazonas. As figuras clássicas desses (personagens e figurantes do cordão), absorvidas pelos bois de pano, deram origem ao grupo de deuses e deusas e ao cordão de personagens modernos dos bumbás (deuses do sol, da lua, da noite, do amor etc.). O ritmo umbandista, ao batuque dos pássaros, também foi somado ao dos bumbás, assim surgiria um novo ritmo à batucada e a dança. Havia muitos cordões de pássaros e de peixes na Parintins de outras épocas. Tonzinho Saunier em sua “Parintins - Memórias dos Acontecimentos Históricos”, nos apresenta o contexto:

Nas décadas de 30 a 60, os bumbás, cordões de pássaros e de peixes, as pastorinhas dançavam nas residências ou à frente delas e andavam pelas ruas deleitando o povo, que os acompanhava. Ficaram famosos à época, os cordões de pássaros: o rouxinol do “Florival Telegrafísta”, o bem-ti-vi e a gaivota do Venâncio, e o guará do senhor Justiniano Seixas. O tangará marcou época na década de 60, os cordões de peixes: do Uaicurapá, veio o tambaqui (peixe de carne saborosa da Amazônia), que era conduzido, espetado por uma menina que vestia roupas coloridas...   *Saunier

Os parintinenses requisitaram a si vários elementos folclóricos, de variadas manifestações culturais, e por essa via forjariam finalmente seu original boi apoteótico. Quando os coarienses começaram a transpor as imagens dos bumbás de Parintins, aos seus próprios bois, todo um processo cultural de transformação já havia ocorrido no cenário cultural da ilha Tupinambarana. Por isso havia grande semelhança entre os bois de Coari e os de Parintins. A maior delas, foi à denominação que o boi, do Centro clássico da cidade de Coari, adotaria (Garantido). E seu rival adotaria denominação de um clássico bumbá de Manaus – do Corre-Campo (bairro da Cachoeirinha). A própria figura do animal de pano seria aprimorada ao espetáculo. As letras das toadas, ouvidas durante as apresentações dos bois de Coari, nos anos oitenta, eram semelhantes às cantadas em Parintins. Somente em 1993 começariam as composições próprias. Comumente, as pessoas que simpatizavam com o evento, exclamavam, com grande entusiasmo: “Coari parece com Parintins!” (em relação ao evento dos bumbás).  A busca à qualidade do espetáculo, ao boi de pano de Coari, tinha como maior objetivo: chegar o mais perto possível ao visual de Parintins. Talvez tenha sido esse o maior dos equívocos naquela época. Mas, quem não queria ostentar um espetáculo daquele tamanho em sua cidade que atire a primeira pedra! Enquanto isso, os parintinense se orgulhavam de não ser parecidos com nenhum outro evento, em relação a seu espetáculo, nem mesmo com o da Capital. Até hoje isso é motivo de orgulho entre eles. Abocanharam o público de Manaus e de seus bumbás. Em geral, é a Capital que “dita” modas, normas e regras às cidades do interior, mas Parintins faria o contrário. E acertaria. O boi de pano parintinense se tornou um sofisticado artigo de consumo e ostentações aos nossos dias. Sua aparição à arena do espetáculo provoca o sujeito ao grande e exaustivo consumo da festa, e de todos os outros produtos inerentes ao cenário da mesma. Andreas Valentin em seu Contrários - a Celebração da Rivalidade dos Bois-Bumbás de Parintins, apresenta o excesso e o apelo comercial à chegada do boi na arena de apresentações (ao bumbódromo):

O boi entra na arena de maneira sempre surpreendente. Carregado por uma alegoria, suspenso por cabos ou até mesmo do meio da torcida, sua chegada é um dos momentos mais emocionantes. É ele quem simboliza o Boi enquanto instituição, é nele que os torcedores personificam suas paixões e suas esperanças. Por isso é que suas evoluções e galanteios são recebidos com tanto entusiasmo...

O brincar de boi, em Coari, seria afetado drasticamente pela propução econômica que as imagens das indumentárias parintinenses demonstravam exigir à confecção das mesmas. Por isso, o poder de se usar uma indumentária semelhante (as que se via no Festival de Parintins), demonstrava ao público do interior a classe social cujo brincante pertencia. Se a vestimenta era imponente, ornada com muito brilho, penachos, papéis especiais, tecidos reluzentes e, brilhantes, o brincante era de classe média alta. Caso contrário, era de uma classe menor. Em Coari, essa corrente exclusiva construiria uma divisão à parte, dentro do mesmo espetáculo. Cada bumbá possuía brincantes, os quais podiam se trajar com muito luxo, arrumados em exuberantes e ricas vestimentas. Desse modo, conquistariam o olhar admirado do torcedor, ou do expectador nas arquibancadas das quadras. Em geral, o boi do Centro clássico da cidade coariense era o que mais se esmerava a conquistar os olhares mais extasiados de seus torcedores. Apesar de todo o luxo e das ricas fantasias, do brilho, do esplendor de plumas e penas de várias qualidades, se dizia entre as agremiações que: não havia semelhança nenhuma com fantasia de carnaval. Aos coarienses, “boi” era uma coisa “carnaval” outra. Aos olhares dos expectadores forasteiros, os que passavam pela cidade durante a época do evento, tudo era a mesma coisa. Isso mostraria o valor regional que os brincantes doavam ao critério de aparência e visual. Havia um cuidado a se separar as manifestações populares. Contrastando com as ricas indumentárias, produzidas à grande custo de materiais artificiais, os brincantes dos bumbás de Coari usavam de miudezas, colhidas da natureza amazônica, a também adornarem-se ao espetáculo (assim como em Parintins). Os produtos rurais (farinha de mandioca, açaí, seringa, pescado, cacau, milho, juta, etc.) eram destacados em várias vestimentas de brincantes. Esses trajes propiciariam a identidade rústica da festa, sem o luxo imponente, sem ser semelhante também às fantasias carnavalescas. A presença, representativa, de vários grupos-étnicos (extintos ou não), interpretados por vários jovens, ensaiados e ornados, oriundos da própria região amazônica, também foi um requisito que os parintinenses introduziriam em seu evento. Posteriormente, o exemplo, foi seguido por praticamente todos os outros festivais (de animais de pano), que surgiriam ao cenário cultural no interior do Estado. Antes de se usar de tribos indígenas, inerentes ao contexto amazônico, os parintinenses usariam da figura do índio norte-americano (Apaches, Iroqueses e Moicanos) a representar à figura indígena “típica” (inspirado no índio Tonto, da série de TV Cavaleiro Solitário, dos anos 70). Muitos elementos, usados pelos coarienses, das apresentações e caracterizações dos bumbás de Parintins, tiveram uma história pregressa, desconhecida dos bumbás de Coari. Esses processos de desassimilação, também, corroborariam a anulação do boi de pano coariense. Cada nova “coisa”, introduzida no espetáculo de Parintins, tinha uma longa história a ser justificada e explicada, os coarienses apenas as “copiavam” (de modo próprio).  Foi no alvorecer de novos artistas, a Coari, ao evento de seus bumbás, em 1993, que tudo aquilo se encerraria. Muitos membros dos bumbás dariam início a novas idéias, a uma nova identidade àquela festa. Naquele momento final, surgiria à idéia de mutação à denominação do boi do Centro, seria a partir dali: o “Rei Garantido”. O periférico Corre-Campo, do bairro de Chagas Aguiar, buscaria aprendizado junto ao recém-fundado boi-bumbá Garanhão (foi fundado em 1992), de Manaus, num intercâmbio primoroso. Apesar disso tudo acontecer, o conflito da rivalidade muito acirrada, falaria mais alto e anularia finalmente o evento dos coarienses. Tudo seria encerrado naquele iniciar da década dos anos 90 no século XX. Coari não estava preparada ao despontar do evento, pois Parintins vinha construindo o seu desde 1965. Coari o fez depois, muito depois. A cultura do brincar de boi-bumbá, independente desses episódios culturais, continuaria a ser difundida e realçada, como o é até os dias de hoje no Estado.

 

 

 

Toada do Bumbá mirim Raio de Prata de Coari-Am – 1993

Caboclo Mateiro

Caboclo Mateiro, tu tens tua glória

Tu és a história de esperança e de dor.

Singrando as águas, canoa a remar

Perdeu sua casa, não tem mais comida, nem onde morar

Raio de Prata é abrigo, comigo vem morar.

 

Caboclo mateiro vem pro aconchego...

Do meu boi-bumbá!

Já chegou o boi, diz a “batucada”.

Canta com esse boi, uma linda toda. (2x)

 

É boi-bumbá Raio de Prata

Que vai agora apresentar:

Encanto dos Rios, Magia das águas”.

Aos ribeirinhos desse lugar!



José Dias (o Coringa)

 


 

Brincante mirim do boi-bumbá Raio de Prata de Coari-Am, em 1993. A Rainha da Fazenda. * acervo do autor







TRADIÇÃO E MEMÓRIA POPULAR

I

nspirado no boi-bumbá Corre-Campo (de “Miro”), do bairro da Cachoeirinha de Manaus, fundou-se o  Corre-Campo do município de Coari-Am, aos meados do ano de 1986. O fato ocorreu nas dependências da Escola Estadual João Vieira, localizada no bairro periférico de Chagas Aguiar (zona-leste daquela cidade). Mas aquela “trajetória” não era nova. Outros bumbás do interior do Estado adotariam o nome e as cores de alguns bumbás da Capital, assim como o fizeram em Coari.




Apresentação do boi-bumbá Corre-Campo (de Coari-Am) em 1989 - Quadra de Esportes São José. Era apresentado em tecido marrom, mas naquele ano surgiria em tecido preto. Aos tempos modernos do boi de pano, a figura folclórica bovina não é mais de sucata e, muito menos, confeccionada a modesto tecido. O boi é personificado e incrementado com material atualizado, com aparência original a do animal de carne e osso, de movimentos, aspectos e tamanho natural. *acervo do livro de estudos sociais de Coari, de 1990.





Explosão de Amor

Boi Corre-Campo, uma explosão de amor!

Teu urro forte faz a galera vibrar

Campeão da terra, do meu boi bumbá,

Boi Corre-Campo para sempre eu vou te amar...

O meu boi urrou, o meu boi urrou!

A natureza sorriu, fez a galera vibrar,

Povo de vermelho e branco,

Vamos folclorear no balanço do meu boi-bumbá...

*Letra de toada do boi-bumbá Corre-Campo de Coari-Am, ao Festival Folclórico de 1993. Não assinada pelo compositor no folheto distribuído aos torcedores naquela época.

O deslembrado “Caprichoso”, de José Luiz de França, na Coari dos anos trinta, pode ter sido fundado assim também, pois em Parintins-Am e em Manaus, registra-se à memória popular, a fundação de bumbás com o mesmo nome do boi de França. Em Parintins, a trajetória inicia, oficialmente (segundo a tradição), a 20 de outubro de 1913. Em Manaus, há registro (da oralidade apenas) da aparição do Caprichoso (no bairro da Praça XIV), a partir de 1930. Alguns afirmam que a idéia do nome daquele boi foi “levada” a Parintins, outros, que o Caprichoso surgiu na ilha e depois teria sido “transportado”, a imagem e o nome, à Manaus. Todavia são dados apenas da oralidade, sem registro literário sólido. Mas como se diz: “... nada se cria tudo se copia”. Diversas histórias, de nomes de bumbás, surgem ao contemporâneo, apresentando dualidade histórica a alguns bumbás à atualidade do Estado. O boi-bumbá Tira-Prosa, criado no bairro de Educandos, em Manaus, fazia parte dos grupos antigos dos bois da Capital. Mas após um longo tempo “privado”, reapareceu, há quase vinte e cinco anos atrás, no cenário cultural do município de Fonte Boa-Am, próximo ao município de Tefé-Am (à margem direita do rio Solimões - 575 km de Manaus-Am). Ninguém sabe afirmar como o nome daquele boi-bumbá foi parar tão longe. Provavelmente, assim como ocorreu o surgimento do Corre-Campo em Coari, o “tradicional” Tira-Prosa, de Fonte-Boa, também teria sido inspirado naquele bumbá de Manaus. Ou pode haver outra explicação?!



Elias Ferreira Neto (o seu Zizi de Coari-Am). Foi quem relatou primeiro sobre os antigos bumbás daquela cidade ao autor, inclusive o do cearense França. Depois, seu Fausto Monteiro, do Tauá-mirim, também se lembrou do boi Caprichoso de França. *acervo particular, julho de 2004

Em pesquisa pela internet (onde não há muitos subsídios), a melhor se ilustrar sobre a citação do boi-bumbá Tira-Prosa de Manaus-Am, se consegue construir um breve histórico sobre o clássico boi de pano:

A Agremiação Folclórica Boi-Bumbá Tira-Prosa, de Manaus-Am, foi fundada em 1945 (atualmente chega aos 72 anos) pelo senhor Francisco Santiago de Oliveira, o popular Tutu. Posteriormente, o bumbá passou por várias lideranças, entre as quais, de Lauro Chibé e Antônio Barroso. Atualmente, na perspectiva de se resgatar o boi, enquanto elemento histórico do folclore de Manaus, o bumbá foi presidido por Renée Pinheiro e Aldrin Pinheiro, ambos com uma larga experiência pelos festivais folclóricos locais. Ao ano de 2013, tendo como presidentes Renée Pinheiro e Aldrim Pinheiro (pai e filho) o bumbá Tira-Prosa foi resgatado ao Festival Folclórico do Amazonas com o tema: “A Volta do Tira-Prosa”. *Google







Boi-bumbá Tira-Prosa de Manaus, resgatado ao Festival do Amazonas em 2013. * foto da internet

A manifestação folclórica da figura de bois-bumbás, pelas ruas do município de Coari (no Amazonas), parecem mesmo ter como ponto cronológico os anos 20 e 30 (século XX). Naquela remota década a cidade foi oficializada por decreto de lei (1932). Mas os bumbás nasceriam ainda no tempo da Villa de Coary. O intendente (prefeito) da época era o capitão Alexandre Montoril. Coari deixaria a condição de Villa a galgar seu espaço político de Cidade, mas agora emancipada às margens do rio Solimões. Naquelas épocas os bois de pano eram invenções populares às ruas. Segundo os antigos coarienses, os que hoje têm mais de oitenta anos de idade, certo cearense de nome José Luiz de França cunharia, à década de trinta (ou vinte), o primeiro boi-bumbá (de que se tem notícia), pelas vias despavimentadas e escuras daquela antiga e lírica Villa. Os nordestinos, em geral, são sempre os protagonistas à fundação moderna de bumbás pelo interior do Estado. Os idosos de hoje, em Coari, de mais de oitenta anos de idade, eram crianças de apenas cinco anos (ou de colo) naquela época, mas narraram ao autor que até os anos quarenta, o Caprichoso do cearense França, e, posteriormente, o Prata Fina de seu Ioiô, brincavam pelas ruelas do Centro histórico da velha Coari, de suas infâncias e adolescência.

Ao ano de 2004 quando o autor entrevistou alguns dos mais antigos habitantes, acima de seus sessenta e cinco anos de idade, ouviu dos mesmos o testemunho da existência do bumbá de José Luiz de França. Seu Fausto Gonçalves Monteiro, que nasceu em Coari ao ano de 1931, lhe relatou sobre o bumbá Caprichoso do cearense França. Seu Zizi (Elias Ferreira Neto), tradicional fotógrafo da cidade, também lhe informou sobre a presença daquele bumbá como sendo o mais antigo que o bumbá do seu Ioiô. De qualquer modo, o boi de França desapareceu do cenário de fogueiras e dos festejos juninos da cidade. Enquanto isso, o Prata-Fina de seu Iôiô, foi relembrado até o XVIII Festival Folclórico realizado em Coari, ao ano de 1993. Essa seqüência de narrativas provam que o boi de França era bem mais remoto, pois tão logo foi esquecido pela maioria dos coarienses de hoje.* nota do autor

Também, segundo os idosos, o cearense José Luiz de França morava no bairro de Tauá-mirim, pelos arredores do lugar onde está instalado hoje o atual hospital daquela cidade - denominado de Dr. Odair Carlos Geraldo. O bumbá era conduzido pelas ruas e vielas antigas (e despavimentadas), a animar as noites iluminadas pelas velhas lamparinas e lampiões a querosene. E ainda, pelas chamas das ancestrais fogueiras de São João. Eram cenários totalmente “alienígenas” ao que hoje é a moderna Cidade de Coari. Aqueles lugares, os quais atualmente são bairros oficiais, urbanizados, eram apenas sítios da zona rural no passado. O mais curioso dessa história toda, era que aquele antigo bumbá coariense chamou-se de “Caprichoso”. A presença de um bumbá, na cidade de Coari, nos anos 30 do século XX, é instigante e intrigante. Como José Luiz de França teria tido a idéia, genial, de por um nome de um dos bumbás de Parintins em seu boi de pano coariense naquelas épocas? Talvez a resposta possa advir do percurso de sua viagem (do nordeste ao Amazonas). Naquele tempo, pra se chegar a Manaus-Am, procedidos do nordeste, os viajantes tinham que vir de navio pelo litoral do país, assim adentravam no Pará. Desse modo se dava início a uma longa viagem pelo rio Amazonas (viagem de barco). Nesse passo também se deparavam no caminho com a ilha de Parintins (420 Km de Manaus). Parintins é cidade amazonense fronteiriça com o Pará. Mas pra saber que, naquele lugar, havia um “boi de pano” (com o nome de tal) era necessário viver por lá. Nem todos tinham essa escolha, passavam direto pra Capital. França era cearense, não se sabe quando veio pro Amazonas, exatamente, e muito menos, quando chegou à Villa de Coary. Pode ter permanecido em Manaus e conhecido o Caprichoso do bairro da Praça XIV. Havia naquela Praça, naqueles tempos, um suposto boi de pano com aquele nome. Outra hipótese, remota e sugestiva, à denominação do boi de França, seria a presença do ex-prefeito de Parintins, Herbert Lessa de Azevedo, em Coari. Herbert chegou a Villa de Coary, a ser intendente (prefeito) em 12 de janeiro de 1927. Naquele tempo a cidade era somente a simplória Villa. Mas cinco meses depois seria assassinato nas dependências da antiga Prefeitura. Teria Herbert sugerido o nome de Caprichoso ao boi de pano do França naquele tempo? Todavia, por infelicidade, acabaria morto às vésperas da festa de São João (dia 23 de junho). Se foi assim, o boi do França é quase centenário à memória local, pois teria surgido em 1927. Somente 60 anos depois (anos 80), surgiria outro bumbá pelo Centro da cidade de Coari, invocando o nome do segundo bumbá mais famoso de Parintins: o Garantido. E receberia esse nome por que um casal de parintinenses estaria envolvido no processo de criação daquele boi de pano na antiga Escola Progente. O poder dos intendentes naquelas épocas regia todo o processo social e político, aos habitantes das vilas amazonenses. Enquanto, supostamente e hipoteticamente, Herbert Lessa tenha denominado o boi Caprichoso de França, em Coari, outro intendente, há quase 15 anos, já havia batizado o primeiro Caprichoso em Parintins. A opinião dos intendentes pesava até mesmo nas questões cultuais daquela época. Na obra de Valentin (2002), A Terra é Azul, há uma referência literária ao evento clássico dos parintinenses que talvez tenha influenciado à denominação do primeiro boi de pano de Coari:








A folclorista Odinéia Andrade tem outra versão que, segundo ela, representa uma “média aritmética” do que conseguiu apurar durante vinte anos de pesquisa. Os irmãos Cid, cearenses de Crato, teriam feito uma promessa de que se obtivessem sucesso na nova terra, colocariam um boi pra dançar nas festas de São João. Conheceram José Furtado Belém, advogado parintinense, mediador da Guerra do Contestado (o conflito entre camponeses e donos de terras de Santa Catarina), que já conhecia o Caprichosos da Praça XIV, em Manaus, e sugeriu que o Boi parintinense levasse o mesmo nome. E assim o boi Caprichoso teria nascido em 1913. Emídio Vieira teria sido o seu primeiro amo.











O advogado e intendente de Parintins, de 1913, José Furtado Belém, foi o que supostamente teria batizado o bumbá de Emídio Vieira, o Caprichoso, na ilha tupinambarana. Furtado conhecera o Caprichoso da Praça XIV. Por achar aquele nome bonito, sugeriu a Emídio Vieira que o pusesse em seu boi negro. 14 anos depois, surgiria na Villa de Coari um outro Caprichoso, do cearense José Luis de França. *foto acervo de Valentin




Hoje, pela ausência de dados literários sólidos, tudo se torna alvo de hipóteses. Posterior aquele misterioso Caprichoso coariense surgiria um segundo bumbá, naquele percurso folclórico (ao início dos anos 40) - o Prata Fina, de Benedito de Lima Nogueira (o seu Ioiô). Ioiô foi o pai da memorável professora Rosa Esmeralda de Coari. Assim começaria a trajetória de se fazer e de se brincar de boi-bumbá, pelas ruas dos antigos bairros daquela “outra Coari”. Somente à década de oitenta, o movimento, por dois bumbás, voltaria a abrilhantar as vistas daquela população. Contudo, não eram mais como os dos anos 30 e 40. Os novos bois de pano, dos anos 80, eram figuras à ostentação social, com produção artística esmerada. Aquele movimento se devia à difusão, pela mídia, do inovador Festival Folclórico de bois de pano em Parintins. Apesar disso, o mesmo ofuscaria e extinguiria o sentido de muitos outros festivais do Estado naquela época. Ao mesmo tempo, inspiraria a muitos outros lugarejos da região, ao progresso cultural que a ilha Tupinambarana deteve com a instalação de seu fabuloso e surpreendente festival de bumbás. O boi-bumbá Prata Fina de Coari surgiria pelas áreas centrais da cidade (antigo bairro de São Sebastião), sendo o mais contemporâneo que o “Caprichoso” de França. O boi de Ioiô chegou a ser exibido no I Festival Folclórico, oficial, da Cidade de Coari-Am (1973) e em outros mais. A matança do boi, a cortar a língua e oferecê-la à Mãe-Caitirina (grávida de Pai-Francisco), era o ápice da brincadeira no passado. Havia, ainda, certa interatividade com o público, pois a faca geralmente estava cega. Pai-Francisco sairia a correr atrás de qualquer expectador mirim a afiá-la às costas do mesmo. Tudo feito com muita gozação e bom humor.






A introdução de Alegorias no Festival de Parintins, desde os anos 70, influenciaria o futuro dos eventos populares em todo o Estado. Alegoria de barco, do boi-bumbá mirim Raio de Prata de Coari-Am, em 1993 – Quadra da Escola Dom Mário. As características típicas das coisas inerentes ao Estado são sempre os maiores motivos alegóricos a serem apresentados pelos festivais da região.*foto, acervo do autor

Naquela época (anos 70), o evento começaria a ser realizado na quadra de eventos da Catedral (Centro da cidade), onde também são realizados os arraiais (quermesses) em honra e fé aos padroeiros católicos da prelazia do município - São Sebastião e Sant’ Ana. Em 1987, em Coari, o festival folclórico não possuía, oficialmente, nenhum quadro de categorias às apresentações dos grupos e escolas estaduais e municipais. Todos os grupos (agremiações) participantes concorreriam entre si. A dança campeã daquele momento (1987) seria uma apresentação com moderna coreografia, organizada por um bailarino nordestino o qual residia na cidade - Nivaldo Xavier. O grupo coreografado por aquele seria denominado de “balé Indígena”.  Pertencia a Escola Estadual Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.








A figura do centenário boi-bumbá Caprichoso, de Parintins-Am, seria a fonte de inspiração a José Luiz de França ao compor seu “Caprichoso” coariense nos anos trinta, no bairro de Tauá-mirim (?) (séc. XX). A figura do boi de França é emblemática à história folclórica dos bumbás antigos a Coari e ao Amazonas.* foto do boi Caprichoso de Parintins, anos 70, acervo da obra – A Terra é Azul, de Andreas Valentin.

É em 1987 que a figura do boi-bumbá Rei Garantido surgiria pela primeira vez no Festival de Coari, e a do Prata Fina “desaparecia de vez”. Em 1993 aquele antigo bumbá “reaparecia” (simulado), como homenageado apenas, à apresentação do boi-bumbá Rei Garantido - na quadra da Escola Estadual Dom Mário. O memorável Prata Fina receberia todas as glórias. O nome de seu Ioiô fora relembrado como o “pioneiro” à fundação do brinquedo de pano ao município. Enquanto isso, o Caprichoso - de José Luis França, nunca mais fora lembrado. Após apuração das notas avaliativas daquele festival (XVIII), os brincantes do bumbá Rei Garantido, revoltados com a derrota sofrida no campeonato, incinerariam, furiosamente (como protesto) a figura rústica e simbólica do bumbá “Prata Fina, em frente à prefeitura municipal daquela cidade, situada à Rua Cinco de Setembro (O Palácio Dois de Agosto). À noite havia sido reverenciado, horas depois, como numa inquisição, iria às chamas. Era um final de tarde de sábado, 26 de junho de 1993. O protesto foi o marco da exaltação à intransigência daquela rivalidade entre os bumbás. Tudo por não se tolerar, a vitória inédita, ao boi Corre-Campo do periférico bairro de Chagas Aguiar. À mesma rua, onde o boi de pano clássico do Centro de Coari nasceu também seria exterminado pelas chamas daquela manifestação e, do protesto sócio-cultural. Enquanto os moradores e torcedores do Centro incineravam a rústica figura do bumbá Prata Fina, do outro lado da cidade os torcedores do Corre-Campo (em Chagas Aguiar) viviam momentos de grandes emoções e comoção popular - à inédita vitória sobre o elitizado boi azul do Centro. Pelas ruas principais daquele bairro, o povo orgulhosamente se emocionava, ovacionando a passeata da vitória que fora organizada por todos os integrantes do boi-bumbá campeão. O bairro ficaria em festa até o final da noite daquele dia 26 de junho, naquele distante ano de 1993. Aquele histórico Festival, de 1993, teve a participação, a uma de suas noites, do prefeito de Manaus, à época Amazonino Mendes. Este havia se impressionado com o evento em Coari. Ele chegou a cogitar, em relação aquela festa, construção de um arena especial a Coari. Tudo não passou de um sonho.







 

 

 




 


Aos anos 80 e 90, o modo clássico de se confeccionar o boi de pano seria renegado. Sofisticados materiais artificiais dariam vida aos bumbás dos tempos modernos, com o uso de lycra, isopor, esponja e ferro, moldado e soldado. A velha carcaça da foto não atenderia mais aos apelos mercadológicos de consumo à atualidade dos espetáculos. *acervo de Andreas Valentin

Desde 1987, já havia os bumbás se apresentado no evento coariense, mas somente no Festival posterior seriam mais destacados. A evidência maior ao Festival, e aos bois de pano, viria acentuada pelo fato de que cada bumbá estava sediado em um tradicional bairro, os quais já nutriam uma rivalidade cultural muito antiga (Chagas Aguiar x Centro). Em 1988, as categorias distintas foram fundadas naquele evento: danças regionais, danças internacionais, quadrilhas, lendas e bumbás. A cada categoria haveria a distinção entre adulto e mirim. Naquele período o evento do festival folclórico já havia sido transferido às dependências da “quadra de esportes São José”, nas conexões da Escola Estadual Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Centro da cidade). Praticamente, quinze anos após a fundação oficial do evento, no município, buscou-se um novo local a se acomodar os espectadores e “brincantes” das manifestações culturais. A palavra brincante caracteriza os sujeitos que configuram os cordões aos folguedos do Amazonas, não se aceita o uso do termo “folião”.  As danças regionais eram as danças típicas do Estado (originárias de várias culturas) como: dança do Lampião, dança da Ciranda, dança do Café, Aquarelas do Brasil, dança Afro-brasileira, dança da Caninha-Verde, as Pastorinhas, do Tipiti, do Xote, dos Pássaros, etc. As danças internacionais eram originadas de nações cujos imigrantes contribuíram ao cenário cultural do Estado, de alguma forma: dança Portuguesa, dança Árabe, dança Espanhola, dança Libanesa, dança Cigana, etc. As quadrilhas eram variadas, tanto as típicas quanto as estilizadas: os Camponeses, os Beija-flores, os Noivos, os Gaúchos, os Piratas de Alto-mar, Sítio do Pica-Pau Amarelo etc. A categoria das Lendas buscava resgatar toda a mitologia amazônica, eram variadas também: lenda da vitória-régia, da mandioca, da cobra-grande, da banana, da Iara etc. Nas narrativas da obra de Francisco de Vasconcelos, o boi-bumbá é citado, como personagem lúdico dos folguedos e brincadeiras do tempo de sua infância, ao iniciar dos anos quarenta no século passado. E também, faz referência ao bumbá de José Luiz de França, porém, não se lembra do nome do boi daquele cearense. Isso nos mostra que a figura de bumbás em Coari vem do início do século XX mesmo. De acordo com os mais antigos (os que foram entrevistados pelo autor em julho de 2004) o boi do França era o mais remoto. Vasconcelos nos narra os tempos das brincadeiras dos bumbás de sua infância ao início dos anos 40:

As diversões de maior vulto pode-se dizer, eram sazonais. Em janeiro e julho, como ainda ocorre, era a vez das quermesses, festejando-se os padroeiros, São Sebastião e Senhora Santana, respectivamente. Em junho, os tradicionais folguedos juninos, e era quando surgiam os Bois, que tanta atração exerciam sobre a meninada, principalmente na hora da atuação de Pai Francisco e Caitirina, ela, “barriguda”, desejando comer a língua do boi e ele, Pai Francisco, para atender-lhe o desejo, correndo atrás de um rebolo, que poderia ser qualquer um de nós, para afiar a faca:

Chico tira a língua

Chico tira a língua

Chico tira a língua

Não quer tirar

A faca ta cega

A faca ta cega

A faca ta cega

Não quer cortar...

Dos grupos folclóricos daquela época, tenho vaga lembrança do Boi do seu Yôyô e de outro, pertencente a um cearense chamado França. * nota de Vasconcelos







Cada boi-bumbá de Coari possuía seu próprio modo de fundamentar a aparência de suas indumentárias. Enquanto o Rei Garantido (Centro) se apegava ao monocromastismo, o Corre-Campo (Chagas Aguiar) moldava seu visual com uma palheta policromática. Usava de cores vibrantes, contrastantes e brilhantes. A única regra que não burlavam era a do uso a cor “contrária”. A não ser que fosse necessário usá-la. Na foto, brincante masculino do boi-bumbá Corre-Campo de Chagas Aguiar, de 1989. Quadra de Esportes São José. * acervo particular.


A realização e a fundação do I Festival Folclórico de Coari-Am ocorreria à ultima semana do mês de junho ao ano de 1973. Sendo que dia 29 havia a tradicional procissão fluvial a São Pedro. Naquela época o Festival Folclórico de Manaus completaria dezessete anos que havia sido fundado e implantado no cenário de eventos culturais do Estado. A Capital foi à pioneira no modelo do evento que tão logo foi difundido ao interior. Em 1965, Parintins também inauguraria seu próprio e inigualável Festival Folclórico. Tefé implantaria seu evento, ao início da década de setenta, igualmente a Coari. Mas havia outras danças e quadrilhas como atração do animado evento parintinense, não somente os bumbás. Aquele grandioso fato, ao cenário urbano da ilha Tupinambarana, nunca deixaria de ser realizado. Tornou-se uma forte tradição cultural, política, econômica e social. Parintins enxergou longe com a produção de seu espetáculo artístico-folclórico. Resolveu transformá-lo numa amostra geradora de renda e fama, ao turismo daquela cidade. Os parintinenses souberam converter a brincadeira de boi de pano a um grande negócio de propução econônimca, de retorno financeiro assegurado, com visão ao desenvolvimento de talentos artísticos. Tudo feito com muita seriedade e, resgate à cultura da Amazônia. O evento findou por se tornar um moderno portal de entrada à grande floresta, ao mundo todo vir, ver e se encantar.  Por isso, 23 anos, após a criação do evento parintinense, o governo do Estado, à década de 1980, desfraldou a construção de um grande centro-cultural fixo naquela localidade. O inédito anfiteatro comportaria até 40 mil pessoas. Apesar do grande empreendimento, nem todos os gestores estaduais do futuro teriam a mesma visão de investimento e, de progresso, em relação aquele fato. Enquanto isso, Manaus continuaria com a realização tradicional de seu festival, em tablado itinerante, sem classificá-lo como um evento maior do que o era. Somente nos anos de 2000, Manaus ganharia um espaço fixo, às suas manifestações folclóricas tradicionais, pela construção e instalação do Centro Cultural dos Povos da Amazônia (arena, museus, bibliotecas e galerias) à tradicional Bola da Suframa – zona-sul da Capital. Enquanto o Festival de Parintins ganhava novo fôlego, o de Manaus sufocaria perdendo espaço, público e brincantes (mas não a tradição). Enquanto isso, em Coari, se deixaria de realizar os eventos folclóricos por vários anos seguidos, chegando-se a quase total extinção daquela festa à cidade. A alguns governantes do Estado, o evento dos festivais folclóricos funcionaria apenas como manipulação filosófico-cultural. A referência quanto a isso é aquela velha política romana - a do pão e do circo. Realizavam o evento quando convinha ao governo não ao povo. Um entretenimento forjado com intenções de uma ilusória satisfação à população.  A que o Festival não fosse extinto, em Coari, os populares da cidade reinventariam seu evento com vários períodos “subscritos”. No final dos anos 80 e meados dos 90, os bumbás reinariam; aos meados dos anos noventa, quadrilhas e cirandas se destacavam, assim sendo, essas danças se tornariam “a bola da vez” a cada época. Danças luxuosas e bem preparadas como As Espanholas e a dança Cigana, também teriam seu marco alegórico no evento. Com a pluralização das apresentações, sem determinar uma dança com características únicas à cidade, como a dos bois em Parintins e, as Cirandas em Manacapuru, os coarienses conseguiriam manter seu evento vivo até os dias de hoje. No entanto, sem torná-lo um grande espetáculo de arena e, de propução ao turismo regional, como o dos parintinenses e manacapuruenses os é há várias décadas.   Voltando à problemática dos bumbás coarienses, após a amortização da figura emblemática do bumbá Prata Fina, em Coari-Am, surgiria em 1986 apenas, dois novos bumbás ao cenário cultural da cidade. Um mirim e outro adulto. Aqueles novos bumbás já imporiam ostentações e estigmas sociais. Não eram rústicos nem de sucatas. O mirim foi fundado pela professora Rosa Esmeralda no Centro da cidade. Rosa continuaria com a tradição do pai (de seu Ioiô) de fazer boi de pano. Era um pequeno boi, de cor negra (mas em 1989 foi tornado branco). O adulto foi fundado no bairro de Chagas Aguiar (a leste daquela cidade). Era de cor marrom-escuro, depois, em 1988, se revelaria negro.








Boi-Bumbá Rei-Garantido durante apresentação em Coari-Am, na quadra de Esportes São José, em 1989. O boi surge de dentro do mapa do Estado, indicando a produção de petróleo ao município. Era uma figura intrigante. Defendia as cores: azul e branco, de “coração azul” na testa. O novo tempo, com a exploração de petróleo em Coari despontava... *acervo do livro de estudos sociais de Coari, de 1990.

 

 

O Mapa da Mata

Fauna, flora, matas, natureza sou...

Reeeei! Garantido chegou, eu tô que tô!

O azul e branco já predominou!

Fe-no-me-nal! Tu és boi, destaque, regional...

Índio, marupiara, caboclo da selva, és caçador

Floresta louva em cor!

Louva em hino, o mapa da mata ao teu redor

Rei Garantido, aqui, chegou para brincar!

Coari em festa, “Histórias de Boi” bumbá...

Bumbá!!!...

Letra de toada do boi-bumbá Rei-Garantido ao Festival de Coari-Am de 1993* autor - José Willace

À sede daquele bumbá, que se revelaria negro (antes marrom), ficaria sendo mesmo as próprias dependências da Escola Estadual João Vieira. Foram justamente os professores daquela escola (e daquela época) que o fundaram nos anos 80. A denominação, ao novo bumbá coariense adulto, viria pela referência de um antigo e famoso boi de pano do Amazonas (do bairro da Cachoeirinha de Manaus), o qual se chamava também de Corre-Campo (defensor das cores vermelha e branca). Até hoje aquele bumbá manauara ainda se apresenta nos festivais da Capital do Amazonas. O original Corre-Campo, manauara, aos dias de hoje, chega aos 75 anos de fundação e existência. O fundador daquele bumbá teria usado da cor vermelha em homenagem à padroeira da Cachoeirinha, Santa Rita de Cássia. É tradição, à procissão daquela santa, a condução de rosas vermelhas por seus fiéis e devotos. A época que foi fundado (anos 40) cada bumbá manauara elegia um santo (ou santa) padroeiro. Em Coari, diferentemente dos bumbás do Centro da cidade e, do bairro de Tauá-mirim, o bumbá Corre-Campo logo se tornaria ícone cultural do bairro de Chagas Aguiar. Até então, não havia ocorrência de bumbás ali em décadas antigas. A cor vermelha, da bandeira de competição, desigualmente do Corre-Campo de Manaus, representaria: a “guerra” e a rivalidade social à cidade. Mesmo tendo como padroeira católica, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a tradição à santa não redundaria em Coari como em Manaus. O momento da disputa, entre os bumbás, era realizado no campo de domínio do boi-bumbá Rei Garantido. O Corre-Campo se via obrigado a ir ao Centro da cidade a se apresentar na quadra do rival. Assim sendo era preparado com muito garbo e esmero pra chegar, prevalecer e se impor. Era somente assim que os moradores de Chagas Aguiar conseguiam, com muito orgulho, chegar e se infligir perante os rivais do Centro. Tudo pelas vias lúdicas de seu brinquedo negro, de bandeira vermelha. Ao mesmo tempo era desconfortável, e também emocionante, ir ao festival folclórico nas áreas do oponente e rival. Em 1987, três bumbás se apresentariam no XIII Festival Folclórico de Coari-Am: o Estrelinha (do Centro da cidade); o Corre-Campo (do bairro de Chagas Aguiar); e a figura de um boi (de pano branco), “inspirado” no clássico boi Prata Fina do seu Ioiô (e nos bumbás de Parintins), também do Centro da cidade. Foi denominado de “Garantido” e usava das cores: azul e branca. Na obra, “Boi-Bumbá Evolução” (Edição de 2006), do Mestre-professor e jornalista - Allan Rodrigues (coariense) há a explicação que distingue e conceitua o boi-bumbá Garantido, criado no Centro da cidade de Coari-Am em 1987:

(...) Pertence à Escola Pró-Gente cujo reduto era o Centro da cidade, assumiu características no mínimo curiosas se olharmos sobre a ótica dos parintinenses, pois era branco, com um coração azul na testa e defendia as cores do boi Caprichoso. A mistura deveu-se sobre o fato de os criadores serem um casal de parintinenses. Como ele gostava do Caprichoso e ela do Garantido, a solução encontrada para abrigar as duas paixões em um único bumbá foi fazer dele um misto dos bois mais famosos da Ilha.

Assim se explica a figura alegórica e a denominação daquele boi-bumbá a Coari, nos anos 80. Em 1988, Corre-Campo e Rei Garantido, disputariam título de campeonato ao XIV Festival Folclórico daquela cidade. Foi realizado na quadra de esportes da Escola Estadual Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O Rei Garantido (do Centro) venceria a disputa. Com a inovadora competição, artístico-folclórica, entre uma agremiação do Centro da cidade e outra de um bairro periférico, foi acirrada ainda mais a velha rivalidade (histórico-cultural), entre os jovens moradores de um extremo e outro daquela urbe. A forma da competição, entre os dois bumbás, era pautada por uma sistemática apresentação onde se desenvolveria uma temática, com muita criatividade, semelhante a do atual Festival Folclórico de Parintins-Am. Os artistas-plásticos coarienses se revelariam naquele momento com uma engenhosa forma de cunhar o espetáculo a cada bumbá. Naquela época, alguns jovens não permitiam que garotas de um lado da cidade namorassem com garotos do lado rival. A cidade de Coari-Am só detia dois grandes sentidos urbanos naquele período: o “Centro” e o bairro de “Chagas Aguiar”. A divisa era feita por uma ponte de madeira (com cerca de 100 metros de extensão e 6 de largura), que ligava as áreas urbanas do cerne por sobre o igarapé do Espírito Santo. Aquele Igarapé divide aquela cidade ao meio por toda sua existência. A rivalidade entre aqueles lugares era pautada, a saber, por competições esportivas, dos times formados pelas escolas: João Vieira X Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A disputa, entre Chagas Aguiar e o Centro, se estenderia também ao bairro de Tauá-mirim (zona centro-oeste daquela cidade) onde o boi-bumbá Rei Garantido possuía muitos integrantes e fiés torcedores. Até meados dos anos noventa, no século XX, sempre ocorreriam muitas discussões e embates físicos, entre jovens de um bairro e outro daquelas áreas da cidade, e, entre alguns adultos também. Em 1989, após alguns dias da perca do campeonato do Festival pelo boi-bumbá Corre-Campo, uma turma de brincantes desavisados (do boi-bumbá Rei Garantido), foi convidada a se fazer presente e a participar de uma festa nas dependências da Escola Estadual Tomé de Medeiros Raposo (localizada no bairro de Chagas Aguiar). A referida escola possuía funcionários “neutros” nas disputas. Mas isso não neutralizaria a ira dos torcedores do bairro rival (cujo amargavam duas derrotas seguidas). A festa era em comemoração à vitória de um grupo de dança nordestina daquela escola (o Lampião), o qual havia vencido o grupo rival da Escola João Vieira (ambas localizadas no mesmo bairro). Ao chegarem à esquina da Rua Vieira Martins com a Herbert Lessa de Azevedo (rua onde está situada a Escola Estadual Tomé de Medeiros Raposo), os brincantes, todos do Centro e de Tauá-mirim, foram surpreendidos por vários integrantes enfurecidos do boi-bumbá Corre-Campo e da dança nordestina (a qual tinha sido derrotada). Ambos sediados na Escola Estadual João Vieira. O embate foi homérico! Os torcedores e brincantes do boi-bumbá Rei Garantido só não apanharam mais porque a polícia foi chamada a acalmar a cólera dos brincantes do boi-bumbá Corre-Campo. Também, por que muitos conseguiriam se refugiar nas dependências da Escola “Tomé” e em algumas casas de populares do bairro. Os corre-campenses armaram-se com paus e pedras a atacar os desprevenidos e provocadores rivais. O que ficou dito à época foi que os torcedores do Garantido, a pé, percorreram as ruas do bairro de Chagas, vindos do Centro em direção a Escola Tomé de Medeiros Raposo, cantando as toadas de seu boi azul e branco. Foi isso que irritou e, motivou os moradores do Chagas (torcedores do Corre-Campo), ao ataque inesperado contra aqueles. Resumo da ópera: alguns foram parar na emergência do hospital outros à delegacia de polícia. Aquele episódio ficou na história como um grande e terrível exemplo daquela rivalidade e, da intolerância cultural, climatizada de forma hostil, dentre aqueles dois pontos da cidade à época. Apesar disso, o boi Corre-Campo possuía em seu cordão de brincantes muitos jovens moradores do Centro da cidade e do bairro de Tauá-mirim. Ao Rei Garantido, a presença de jovens do bairro de Chagas Aguiar, em seu cordão de brincantes, era praticamente nula. A divisa social que separava a realidade cultural, a cada lado, se traduzia em violência e em estado de sítio. E mesmo assim, quase nada era realizado pela competência do poder público daquele período, a se modificar o quadro negativo dos conflitos e brigas freqüentes, entre aqueles jovens e adolescentes. Tudo foi tratado de modo natural, como se briga e pancada fossem cultura salutares ao meio juvenil. De tal modo, aquele cenário permaneceria daquele jeito, por anos e décadas. As seqüelas dos conflitos resultariam em propagação do ódio e, posteriormente, ao consumo indevido de drogas e álcool (por ambos os jovens). Tudo seria em decorrência da violência, extremismo social, intolerância e do conflito cultural. A ausência de políticas públicas que acolhessem aquela juventude, também, refletiria naquele disparate social. A grande iniciativa, a aplacar os excessos àquela rivalidade sócio-cultural, viria empreendida apenas, pelas vias da concepção educacional e religiosa de uma missionária católica (a nobre Irmã Marília Menezes - missionária e professora da cidade de Coari-Am nos anos 90). Sua ilustre e exemplar ação, em nome da serenidade, aos dois locais da cidade (sitiados pelos jovens), foi peculiar à paz social. Ela conseguiu unir toda aquela juventude, a um grande ato cívico (e extraordinário), realizado nas dependências da Matriz católica, no Centro da cidade. Foi assim que uma grande trégua seria empreendida pelos jovens daquelas épocas – meados dos anos 90. Mas ao contexto humano-social, sempre é necessário uma sumarização de recursos ao bom desenvolvimento cultural. A espiritualização tem sua força, mas é apenas uma parte do grande contexto de formação ao cenário sócio-civilizatório. Irmã Marília Menezes, de acordo com a obra “Sangue Redentor nas Trilhas da Esperança”, da irmã Evelina Trindade,  a 1º de julho de 1955, efetuou sua primeira profissão de voto religioso na 7ª turma ao noviciado na Capela do Preciosismo Sangue, em Manaus.








Quadra de Esportes São José, Escola Estadual Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Coari-Am, ano de 1989. Em seus espaços, os grandes eventos festivos da cidade foram realizados nas décadas de 80 e 90 do século XX. A quadra também foi o principal palco das manifestações e competições folclóricas e desportivas daquela cidade. O complexo educacional ao qual faz parte foi erigido pelos padres Redentoristas, norte-americanos, vindos de St. Louis (Missouri- EUA) em meados dos anos 40. O Colégio N. S. P. S. foi inaugurado em abril de 1949. *Foto do livro de estudos sociais sobre Coari – 1992




A IDENTIDADE DA RIVALIDADE

O

conflito,  à hostil rivalidade, entre os jovens habitantes das singulares áreas urbanas na cidade de Coari-Am, aos anos noventa, continha: nome, sobrenome e endereço. À época dos ensaios, festas e realização do evento, o da disputa dos bumbás (na Coari dos anos oitenta e noventa), não se podia usar camisas com estampas de um bumbá pelo bairro onde o oponente era sediado. Havia sérios riscos de provocações irônicas e desnecessários embates. Se bem que sempre foram desnecessários mesmos! Andreas Valentin em seu ContráriosA Celebração da Rivalidade do Boi-Bumbá de Parintins, nos apresenta um conceito lógico ao que seja o “conflito social”, embasado por George Símmel (1858 a 1918):

Conflito é uma forma de sociação, uma vez que pode modificar grupos de interesses, unificações e organizações. As relações sociais são baseadas em harmonia e conflito, atração e repulsão, amor e ódio. Uma vez que as relações humanas são caracterizadas pela ambivalência, justamente aquelas pessoas que estão ligadas por relações íntimas estão propensas a nutrir entre si não apenas sentimentos positivos, mas também negativos. Dessa forma o conflito funciona como uma válvula de escape para atitudes e sentimentos negativos, fortalecendo os relacionamentos já existentes e até mesmo estabelecendo novos laços. Por isso ele deve ser considerado como uma força criativa e não destrutiva. *in Valentin

Ao passado, no processo de urbanização da cidade de Coari-Am, o distante e periférico bairro de Chagas Aguiar (hoje modernamente urbanizado) sempre se parecia isolado ao restante daquele cerne, principalmente pela forma de se chegar naquele lugar. O igarapé do Espírito Santo dividia, geograficamente e hidrograficamente, as faces urbanas da cidade (e as divide até os dias atuais). O bairro era conhecido, até a década de oitenta, apenas de “Estrada”. Porém já se chamava, oficialmente, de bairro de “Chagas Aguiar” (ou Estrada de Chagas Aguiar. Era chamado de estrada, até então, por que seu inicial percurso era longo. Foi um ramal rural no passado. Antigamente se atravessava em catráias ao Chagas Aguiar, depois se construiria a antiga ponte-de-madeira, por fim a remodelariam de concreto. E no final do trajeto da antiga “Estrada”, havia outra divisa feita de igarapé – o igarapé do Pêra. Aquele separaria a outrora “estrada”, do lugar conhecido como “Pêra”, por mais de oitenta e cinco anos de história da cidade de Coari emancipada...






O autor - com indumentária étnica estilizada, como integrante e brincante do boi-bumbá Corre-Campo do bairro de Chagas Aguiar de Coari-Am, ano de 1993. Quadra da escola Dom Mário.  * acervo particular

A dona e proprietária inicial daquelas áreas, segundo o escritor Francisco de Vasconcelos, teria sido - Maria Terezinha Marques. As pessoas que moravam no Pêra precisavam usar de canoas e barcos quando precisavam ir, ou chegar ao Centro da cidade. Ou atravessavam o igarapé, depois, passavam pelo Chagas Aguiar, e somente assim cruzariam ao Centro.  Quando alguém do Centro e do Tauá-mirim ia naquele bairro se dizia: “Vou lá na Estrada!...” Essa frase fazia soar um preceito alusivo a um lugar longe, periférico, perigoso e excluído. Um verdadeiro “soar” equivocado de estigma urbano-social, empregado ao local de Chagas Aguiar!  Não foi encontrada pelo autor nenhuma grande informação exata a respeito da fundação e formação do bairro de Chagas Aguiar. O Chagas compõe a zona-leste de Coari. O que se observa é que suas áreas são mais “recentes”, em relação à fundação do Centro Histórico de Coari. Quando a Villa de Coary foi instalada na área urbana, em 1874, seus arredores já estavam cercados de sítios, e estes deram origem aos bairros próximos do Centro como: Tauá-Mirim, Espírito Santo (o Morro), Duque de Caxias e Chagas Aguiar. O Chagas, por está separado do Centro, pelas águas do igarapé do Espírito Santo, teve seu processo de urbanização mais demorado. Aquele igarapé é uma grande fonte de informação sobre a história daquele bairro. Quando o rio vazava, em décadas passadas, várias cacimbas (olhos d’aguas) surgiam pelas margens do que era o rio em épocas de cheia. Essas cacimbas eram de uso familiar aos mais remotos habitantes dos bairros de Chagas e Duque de Caxias. Daquelas cacimbas se lavava roupas, cozinhavam-se os alimentos e fazia-se o asseio diário. Quando o rio “enchia”, todos usavam as margens do Espírito Santo. O Chagas aguardou muitas décadas à chegada da luz e da água encanada as suas casas. Suas casas tradicionais esperaram muito tempo por ruas pavimentadas também. Seu cenário rural permaneceu em carência por muitas décadas até chegar os alvitres de atendimento aos seus habitantes. Tanto os escritores, Anísio Jobim quanto Francisco de Vasconcelos, não nos apresentam grandes informações de suas áreas e sua formação populacional, em suas obras de época. A própria energia elétrica não chegava ao bairro, apenas ao Centro nos anos 40. As primeiras escolas efetivas só chegariam aos anos sessenta (Escolas Estaduais João Vieira e Iraci Leitão). Era um bairro com cara de zona rural. A primeira rua, que hoje se chama Plínio Ramos Coelho, até meados dos anos trinta era a chamada apenas de Rua Chagas Aguiar (mas comumente chamada de Estrada). A irmã Marília Menezes, religiosa católica, adoradora do Sangue de Cristo, em sua obra literária – Irmã Serafina Cinque - ASC “O Anjo da Transamazônica”, diz que em 1938 havia uma escola em Manaus com o nome de “Prefeito Chagas Aguiar” onde irmã Serafina Cinque lecionava... Até então ninguém pode falar a quem pertenceu esse sobrenome de verdade (um prefeito antigo de Manaus?!). Quem teria sido Chagas Aguiar?! Primeiro morador, ou moradora?! O certo é que, quando o Prefeito Clemente Vieira assumiu seu primeiro mandato, nos anos sessenta, o Chagas Aguiar começaria a ser urbanizado e reorganizado. Construiu a Escola João Vieira bem ao leste do bairro para que os moradores mais distantes pudessem ter acesso à educação. A partir daí a vida naquele começaria a mudar. A maioria das ruas do bairro receberam denominação de vultos históricos à biografia política da cidade: Odonel Vieira, Vieira Martins, Herbert Lessa de Azevedo, etc. A presença do sobrenome Vieira (da família de Clemente Vieira), empregado a vários locais do bairro, dá a atender que foi em sua administração que o progresso chegou naquele lugar (meados dos anos 60). A padroeira católica do bairro possui uma igreja a sua homenagem, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. No final dos anos 80, o prefeito Evandro Aquino de Oliveira deu início à construção de um grande ginásio poliesportivo, aos anseios de serem realizados ali o evento do festival folclórico da cidade e, a competição dos bumbás. A potente obra nunca foi concluída, findou às ruínas. O que ficou de seu mandado, mesmo, ao bairro, foi à construção de sua 3ª escola estadual, o “Diamantina de Oliveira”. Somente com a construção da antiga ponte de madeira, o ligando ao Centro, o progresso e o desenvolvimento chegariam de mãos dadas nos anos sessenta.  Após a construção da ponte-de-madeira (hoje de concreto) o acesso se tornaria mais cômodo a todos. Apesar disso, o bairro ficaria sempre estigmatizado como um local longe e “sitiado”. Por isso existia, antigamente, um intrínseco preconceito aos que moravam e viviam por lá. Os que habitavam as áreas centrais da cidade ostentavam o privilegio, de se ter acesso, a todos os alvitres de atendimento (com maior comodidade): comunitário, humano e de assistência social (os serviços administrativos em geral). Contavam com toda uma estrutura de grande movimentação comercial (com todas as “novidades” vindas da Capital); instituições sociais de atendimento público e privado; os clássicos locais de lazer e de festividade (sede do Tijuca, Mandy´s Bar e Praça da Matriz); bancos, farmácias, lojas diversas, mercado público e as maiores instituições educacionais de ensino. Abrigava em sua área os grandes templos religiosos, a Matriz católica e a Igreja Batista. Até a sepultar os mortos era necessário e, obrigatório, passar pelas áreas do Centro e, somente assim, chegar ao remoto local do Cemitério de Santa Terezinha no afastado bairro de Tauá-mirim. Apenas com o aterramento do igarapé (anos setenta), nas áreas do bairro de Espírito Santo (popular Morro), os habitantes do Chagas Aguiar passariam a acessar, por terra, o então bairro de Tauá-mirim. Tudo pela nova via – a famosa “Estrada do Contorno” com seu novo aterro (pelo neutro bairro de Itamarati). Em geral, aquela rivalidade histórica começaria pelos antigos torneios de futebol, os quais eram realizados também num antigo campo, localizado às margens do igarapé do Espírito Santo (por trás do atual mercado municipal à Rua Independência).  Assim sendo, alguns jovens do bairro de Chagas Aguiar não permitiam que, outros, do Centro da cidade, “invadissem” seu “exclusivo” território. Somente os que moravam no Centro e, eram simpatizantes dos times esportivos, das agremiações de bumbás daquele bairro podiam atravessar.








Brincante do Rei Garantido de 1987. A deusa do sol. *acervo Lucilene Guimarães.

Dizia-se no Centro que havia “perigo” de se percorrer aquele bairro desavisadamente. O Chagas Aguiar foi exprobrado à cidade. Tudo por causa daqueles preceitos exagerados e equivocados. Aos grupos de jovens (principalmente de meninos e rapazes) que se formavam a ir às festas, ao futebol do final de tarde, participar das manifestações populares e, por fim, participar até dos “inexplicáveis” conflitos de rua, eram denominados de “Galeras” (popular denominação regional às gangs de rua). No Centro, havia grande temor à “Galera das Chagas”. E nas “Chagas”, muito se comentava sobre a outra Galera, a da “Baixada” (do Tauá-mirim). E os integrantes daqueles grupos todos eram cognominados, vulgarmente - de “galerosos”. Alguns jovens, num pensamento completamente destorcido pelos conflitos, se auto vanglorificavam a não poderem circular pelo bairro rival, visto ameaças de serem atacados e espancados (ou coisa pior). Ao final de toda aquela história, o vocábulo foi parar na multidão que se aglomerava pelas arquibancadas das quadras (os que iam ao Festival), a torcer por seu bumbá preferido. Assim sendo, cada bumbá tinha sua própria “galera”. Porém, os torcedores não eram chamados de “galerosos”, apenas de torcedores. Eram apaixonados por seus bumbás. A instituição sistemática das agremiações, e de seus bois de pano, corroborou a desmitificar o preconceito atribuído às “turmas” e grupos de jovens, os agrupados pelos bairros, e em suas ruas. Com a divertida disputa folclórica, todos da cidade (os que simpatizavam com a festa, é claro), passaram a “ser da galera” (ou da azul ou da vermelha). Apesar de morar no Centro, o autor tinha “carta-verde” ao bairro de Chagas Aguiar, por ser torcedor e brincante do boi-bumbá Corre-Campo. E ainda tinha amigos, conhecidos e lecionava naquele bairro (na escola sede do boi-bumbá mirim Raio de Prata).  Trégua, entre aqueles locais rivais, só ocorria mesmo às noites de disputa das agremiações, ou mesmo, em momentos de competições desportivas, organizadas e realizadas pelos extremos das áreas sitiadas.

Na antiguidade da história marítima, a “galera” era uma nau (um barco), cujo navegava com uma grande vela apenas. Servia muito mais pra guerrear que viajar. Para impulsioná-la ao mar eram usados grandes e compridos remos, movidos à força humana. Era um barco pesado. Dia e noite, centenas e centenas de homens, em revezamento, remavam coreografados ao som intermitente de um grande tambor, regidos pela voz uníssona de um mentor, com chicote à mão. Em geral, aqueles homens eram prisioneiros do Estado. Todos mal-feitores. Pelos crimes que cometiam eram condenados aos bancos e remos das galeras. Assim, além de remar o dia todo, eram acorrentados em seus postos. Desse modo pagavam sua pena criminal à sociedade e ao Estado. Entretanto, dificilmente ficavam vivos por mais de três anos, pois o desgaste físico no trabalho forçado os enfraquecia. Era uma espécie de “pena de morte” a longo prazo. * nota do autor

Na década de 80, o Festival Folclórico de Coari-Am era realizado no Centro histórico da cidade, os jovens de Chagas Aguiar podiam participar, sem temor de serem atacados pelos rivais.

Na foto, boi-bumbá mirim Raio de Prata. Apresentação do ano de 1991 na quadara de esportes São José, na  E. N. S. P. S. Era sua estréia no Festival *acervo do autor.






Somente assim assistiam ao evento, de forma civilizada. Mas ao término da “noitada”, deveriam retornar (e imediatamente) a seu local de “posse”, senão haveria risco de conflitos pós-evento. Aquela trégua terminava ao instante final das apresentações. Mas sempre deu “certo”! Não havia brigas, exceto, após serem verificadas as notas atribuídas à última noite do evento, pelos jurados, ao grande campeão da disputa... No ano de 1989, Corre-Campo e Rei Garantido foram ao XV Festival Folclórico da cidade, a um novo embate artístico. As arquibancadas da quadra de esportes, onde acontecia o evento, eram subdivididas. Do lado direito ficavam os moradores do Centro e, de Tauá-mirim (eram Garantido). Do lado esquerdo, acuados, os moradores que vinham do bairro de Chagas Aguiar (eram os torcedores animados do Corre-Campo). O boi-bumbá Rei Garantido (do Centro) venceria as disputas dos anos de 1988 e de 1989. Devido um “desentendimento”, e suposta e hipotética “manipulação” do resultado do campeonato, o pessoal do boi-bumbá Corre-Campo decidiria se afastar daquele evento, em definitivo. Essas suposições desmotivariam o sustento à manutenção daquela disputa folclórica. Foi assim que o Corre-Campo permaneceria por vários anos, se apresentando e brincando, somente pelas ruas de seu bairro e, tradicionalmente, na quadra de esportes da Escola Estadual João Vieira. Ao Corre-Campo, valia mesmo a alegria da brincadeira junto ao povo carente da zona leste de Coari. O “Garantido”, do Centro, não permaneceria com aquela tradição, apenas se apresentava no Festival oficial e tão somente a competir. Ao Garantido, ostentar seu luxo e sua primorosa e inovadora desenvoltura, cênico-artística, perante o boi da periferia, era o máximo ao Festival. Enquanto os bumbás adultos debandavam da disputa, surgiria a competição, artístico-folclórica, entre os bumbás mirins: Estrelinha X Raio de Prata. O Estrelinha, da Escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (E.N.S.P.S), ergueria sua bandeira de competição nas cores vermelha e branca. O Raio de Prata, inusitadamente, ergueria sua bandeira infantil - de róseo e branco. Foi fundado na Escola Estadual Tomé de Medeiros Raposo, situada no bairro de Chagas Aguiar ao ano de 1991. A iniciativa viria pela inventividade da professora Maria Dorimar Granjeiro Pinto, junto ao corpo docente, dicente e administrativo da escola. Às primordiais manifestações dos clássicos bois-bumbás (nos anos trinta do século passado), sempre se excluía a presença feminina. Todavia, em atuais épocas, as mulheres iriam à luta e se emancipariam perante as pretensões masculinas. O deboche de por um homem, travestido de mulher, a representar mãe Caitirina, mostrava aquelas pretensões até os dias atuais do boi-bumbá. Com a inovação feminina, aos bumbás, as mulheres ocupariam seu lugar cultural ao sol (e na arrumação do boi de pano também). A iniciativa das professoras Rosa Esmeralda (falecida) e Maria Dorimar Granjeiro Pinto, representaria a quebra de um tabu em meio ao evento bovino e passadas épocas lúdicas do Estado. Os bumbás mirins disputariam por três vezes o título de campeão ao início dos anos noventa (de 1991 a 1993). A partir do iniciar a disputa, entre os bumbás mirins, o Estrelinha conquistaria dois títulos e o Raio de Prata apenas um. A forma de se apresentar, a cada bumbá, ofereceria ao Festival à realidade e identidade cultural de cada bairro envolvido no evento. O Estrelinha expunha sempre um fato e, realidades, voltados ao clima e panorama da infância. Principalmente às realidades sociais das crianças que residiam nas áreas centrais da cidade. O Raio de Prata estabeleceria suas temáticas, a princípio, cunhadas em fatos rurais e periféricos, às crianças dos bairros e subúrbios da periferia, a dos arredores da cidade:

Boi-bumbá mirim Raio de Prata e suas temáticas amazônicas: 1991 – Raízes de um Povo, 1992 – O Mundo Encantado da Criança, 1993 – Encanto dos Rios, Magia das Águas, 1999 – Histórias de Nossa História.  O Boi-bumbá mirim Estrelinha, o mais antigo dos bumbás mirins da cidade de Coari-Am, desenhava o mundo colorido da infância com seus temas ultra-infantins: 1991 – Brinquedo de São João, 1992 – Estrelinha, no Parque de Diversão, e em 1993 – Sonhos de Criança. * nota do autor





A corriqueira disputa entre os bumbás mirins, ao início dos anos noventa, faria reascender a chama da rivalidade à competição entre os grandes bumbás de Coari.

Brincantes-tribais mirins do bumbá Raio de Prata, em 1999. Quadra de esportes São José. *acervo do autor






 

 

 

 







Por isso, os mesmos voltariam a concorrer, a uma última competição em junho do ano de 1993.  No XVIII Festival Folclórico de Coari, realizado no mês de junho daquele ano (dia 26 de junho foi encerrado). Os bumbás dos bairros de Chagas Aguiar e Centro viveriam seus últimos momentos de competição, perante os olhares do público, principalmente da geração de jovens dos anos noventa e oitenta de Coari-Am. A partir de 1994, com exceção da aparição do Raio de Prata na quadra de esportes do Centro, não ocorreria mais o movimento da disputa, entre as agremiações tradicionais, muito menos a presença de outros bumbás no evento folclórico. Os bois de pano debandariam, de uma vez por todas, da disputa sistemática e do magnífico evento. O Corre-Campo e o Raio de Prata continuariam se apresentando, todavia, apenas em seus locais de fundação. 
No Centro, o Rei Garantido não seria mais visto, mas o Estrelinha reaparecia, ainda que raramente, em festivais e “noitadas” realizadas apenas à quadra de esportes da Escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (onde o foi fundado em 24 de junho de 1986).

Brincantes “de destaque” feminino do boi Rei-Garantido, de 1989, em Coari-Am. As deusas: da beleza e do ouro. Quadra de Esportes São José. *acervo doado ao autor (por Lucilene Guimarães








Em 1999, Raio de Prata e Estrelinha voltariam à Quadra de Esportes São José (Centro da cidade), porém, os professores que organizavam o Estrelinha não quiseram mais participar de disputa nenhuma. Desistiram! À primeira década, nos anos de 2000, em uma nova escola municipal da cidade (Esc. Mun. Dirce Pinheiro), o corpo de professores e alunos fundaria o terceiro boi-mirim dessa trajetória de bois de pano em Coari-Am. Foi assim que desafiariam ao Raio de Prata a uma nova competitividade. “Pingo de Ouro” era a denominação dada ao mais novo bumbá coariense. O nome daquele bumbá mirim faria referência a outro antigo, fundado na vizinha cidade de Tefé-Am, décadas atrás. Mesmo com a nova disputa entre os bumbás, a memória local matutava que o oponente cultural maior, ao Raio de Prata, era o ausente e clássico Estrelinha - do Centro da cidade, fundado pela memorável Rosa Esmeralda. Deve-se ficar aqui registrado que a introdução da manifestação de bumbás, aos âmbitos escolares da cidade, foi pelas vias da inserção do Estrelinha à escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, pela professo Rosa Esmeralda. Antes disso, o boi, em Coari, era coisa e manifestação popular das ruas. O iniciar do século XXI, a Coari, foi à fase final das manifestações de todos aqueles bumbás ao Festival da cidade.

Brincante mirim do boi-bumbá Estrelinha de Coari-Am, em 1999. A Rainha da Batucada. *acervo do autor







Hoje, as “aparições” vivem apenas pelas lembranças dos que eram jovens adultos, e dos que foram jovens meninos, naquelas ocasiões muito divertidas. As do final dos anos 80 ao início dos anos 90 (séc. XX). A seguir, na breve análise do autor, a figura clássica do boi de pano representa: a personificação e os anseios intrínsecos de seus criadores e fundadores:

A cultura do boi-bumbá é patrimônio cultural do Estado do Amazonas, esta registrasse pelo Estado ainda ao inicio do século XIX. Ao nos atentarmos as denominações históricas dos bumbás de Coari-Am, se consegue absorver todo um cárter de ordem opulenta e ufânica a essas denominações. Os nomes dos bumbás nos passam uma espécie de resumo de um ato de sublimação, de algo que seria impossível de se alcançar, socialmente, por seus criadores humildes do passado. “Caprichoso”, “Prata-Fina”, “Estrelinha”, “Corre-Campo”, “Garantido”, “Raio de Prata” e “Pingo de Ouro”. Esses nomes carregam ostentações, definidas por adjetivos qualificativos, denominações de metais nobres e preciosos e dons de destreza. Seus criadores procuravam mostrar sua habilidade “suntuosa” com algo feito de mero tecido (de pano), mas com grande habilidade artística a se conquistar a atenção da comunidade daquela época. O brio do caboclo amazonense ou, do caboclo nordestino (alguns daqueles eram nordestinos), vibrava na denominação e apresentação dos bumbás ao público tradicional da cidade, o qual cortejava o enredo ao auto. Foi um momento sublime que hoje não se adotaria mais ao cenário modernizado e inovador da futurista Coari. 

A quantidade de crianças, de jovens e adultos que participavam como brincantes (figurantes) dos bois, nos anos oitenta e noventa do século XX, impressionava ao público o qual era muito volumoso também. Aquela gente toda ocupava todos os espaços possíveis nos locais aonde se determinavam as apresentações. Muitos brincantes eram ansiosamente esperados, pelos torcedores dos bumbás, nas arquibancadas das quadras. Esses brincantes investiam, financeiramente, pesados valores às suas ricas e luxuosas indumentárias. Muitas plumas, penas artificiais variadas, lantejoulas, tecidos finos e brilhantes, etc. Toda aquela ostentação mostrava o poder da beleza que encantava ao público da cidade e, aos torcedores dos dois grandes bumbás. No ano de 1993, com a administração do prefeito Odair Carlos Geraldo, o Festival seria transferido do Centro da cidade, onde tradicionalmente foi fundado e realizado, à quadra de esportes da Escola Estadual Dom Mário, localizada no bairro de Itamarati (zona-sul da cidade). O motivo maior daquela mudança foi prover melhores comodidades e espaços físicos ao público e brincantes. Tudo aquilo ocorreria visto o crescimento do espetáculo dos bumbás, entre as quatro agremiações folclóricas daquela época. Fora ainda, a quantidade de danças e quadrilhas, as quais também eram, primorosamente, produzidas ao público pelas escolas locais. A mudança do local do espetáculo evidenciaria a evolução, prodigiosa e grandiosa, àquele evento. Naquele momento cultural, de grande movimento e contraste social, demonstrava-se novamente a graúda disputa entre os grandes bumbás da cidade. Os coarienses recomeçariam a doar nova identidade a seus bumbás. A musicalidade começaria a denotar um recomeço ao evento. Semanas antes de o fato acontecer, em junho de 1993, os componentes do Corre-Campo (brincantes, torcedores e organizadores) ousariam promover, pelas principais ruas da cidade, num final de tarde do início daquele mês de junho, uma carreata que transportaria mais de 200 pessoas em caçambas de caminhões. E outras tantas mais, em carros e motocicletas particulares. O momento mais tenso da manifestação foi à passagem, pelas ruas dos históricos bairros rivais à Chagas Aguiar: Centro e Tauá-Mirim. No entanto, não houve graves incidentes, apenas frias e passivas provocações. Aquela eufórica carreata reacenderia a chama à competição e à rivalidade entre os grandes bumbás. Foi um desafio muito ousado, porém, marcaria memoravelmente aquele novo período do Festival. Muitos jovens que participaram daquela manifestação surpreenderiam sua comunidade, pois não eram tradicionais moradores do periférico bairro do boi Corre-Campo. Vários deles residiam pelo Centro e pelo Taua-mirim. A manifestação seria uma forma do boi negro coariense, dizer e reafirmar, ao boi branco: “Contrário! Conquistei teus espaços e brincantes!” Foi um momento de grandes evoluções culturais aos bumbás e à cidade. 
Naquele distante Festival, de 24 de junho de 1993, o bumbá Raio de Prata chegaria ao evento com cerca de 250 crianças para brincar. Com o tema artístico: “Encanto dos Rios, Magia das Águas”. O boi mirim de Chagas Aguiar revelaria a complexa problemática hidrográfica - a do regime das águas, dos caudalosos rios, aos ribeirinhos da Amazônia.  O Estrelinha, mais antigo dos bumbás mirins de Coari-Am, levaria cerca de 150 crianças ao evento. Com o tema “Sonhos de Criança”, tentaria o tricampeonato, mas não o obteria.  

Brincante masculino, do boi-bumbá Corre-Campo, de 1989, em Coari-Am. Capacete de luxo. Quadra de Esportes São José. *acervo do autor



 





Em 1993, o bumbá mirim, da maior escola da cidade, apresentaria um enredo a se comemorar seus sete anos de fundação (folclórico-artística) que se celebrava naquele momento. Foi assim que até “parabéns pra você” foi cantado, em pleno momento de apresentações na quadra. E o nome de sua fundadodra universal, Rosa Esmeralda, seria celebrado também com muito carinho e honra. Os dois bumbás do Centro reviveriam seus fundadores históricos naquele momento. O bumbá Rei Garantido (ganhava essa nova denominação naquele Festival) iria à quadra com cerca de 320 componentes, apresentando o tema: “Histórias de boi”. O enredo era complexo, partiria da Grécia antiga (do minotauro) à fundação do boi-bumbá Prata Fina do seu Ioiô, aos anos 40 do século XX (em Coari). Com um visual opulento e glamoroso, o boi nobre do Centro faria uma linda e impecável apresentação naquele inesquecível Festival. A mudança de local (das tradicionais apresentações) causaria muito desconforto ao grupo elitizado do azul e branco. Quando o Festival era realizado na quadra do São José, sentiam-se mais à vontade. Então, era o grupo do Corre-Campo que experimentava o peso e o desconforto de se transportar todo seu material (alegorias, indumentárias, adereços diversos, etc.) de um bairro a outro (pela estrada do Contorno). E ainda não tinham boas comodidades. Com a transferência do local do Festival, os dois grupos se viriam em “campo neutro”. À última noite do evento, a 26 de junho de 1993, o Rei Garantido sofreria muitos problemas técnicos com suas alegorias, inclusive seu grande portal de entrada desabaria e, despedaçar-se-ia (em plena quadra), perante os olhares competitivos dos torcedores rivais de Chagas Aguiar. Todavia, tudo isso ocorreria antes do iniciar de sua apresentação oficial (final). Por isso não perderia ponto algum. No entanto o constrangimento seria imenso aos brincantes, organizadores e torcedores do Rei Garantido. Abalaria o psicológico de toda agremiação azul e branca. Sentiram-se ridicularizados pelo infeliz acidente, ainda mais, perante os olhares irônicos dos periféricos torcedores e rivais vermelhos. Por causa disso, e, apesar de ostentar um visual muito bem produzido, ao conjunto, faria uma apresentação fria (não muito animadora). Entretanto, foi ricamente alinhada. Alguns torcedores e organizadores do Rei Garantido chegaram a proferir, naquele momento, que nunca mais pisariam naquela quadra. E assim o 
fizeram... Por fim, e sendo o primeiro na ordem de apresentação naquele momento, o bumbá Corre-Campo, de Chagas Aguiar, chegaria com seus cerca de 300 integrantes e um conjunto de grande profissionalismo, a animar um povo muito agitado que faria um grande momento no evento, tanto no espetáculo de quadra quanto nas arquibancadas, com sua galera (torcida) animada. Apresentou como tema: a “Cultura Indígena”. Mas não estaria sozinho. Naquela ocasião, um grupo de jovens de Manaus (advindos da agremiação folclórica boi-bumbá Garanhão - do bairro de Educandos), havia sido convidado a participar das apresentações do Corre-Campo em Coari.  Viriam com muita alegria, energia, muitas indumentárias e adereços. O Corre-Campo daria início a um intercâmbio cultural, que aos dias de hoje, se tornaria comum aos grandes Festivais da Amazônia.

Brincante mirim do bumbá Raio de Prata, em Coari-Am, Festival de 1993. Na rica indumentária denominada de capacete, os motivos aos adereços sempre são alusivos aos ambientes e cenários amazônicos. *acervo do autor








Sem luxo, e sem o brilho, da beleza reluzente, das lantejoulas, dos brocais, dos paetês e das pérolas, o bumbá da Escola Estadual João Vieira, quando chagasse para brincar com o povo traria uma energia contagiante e envolvente. E foi assim que venceu o campeonato daquele Festival final, o de 1993.  O movimento artístico-cultural dos bumbás foi de rara beleza ao município. Somados os brincantes todos que, participavam como figurantes (entre adultos e mirins) tinham-se mais de mil pessoas fantasiadas pelas ruas naqueles instantes. Eram figurantes com indumentárias de índios, deusas, rainhas, entes-místicos da floresta, batuqueiros, vaqueiros, toureiros, personagens clássicos da era colonial, pajés, etc. Uns com muito esmero e luxo, outros, um pouco a menos. Os espectadores chegavam a um total bem maior, talvez seis a sete mil pessoas, assistindo das arquibancadas, mesas e dos camarotes, instalados pelos arredores da grande quadra, na Escola Dom Mário (zona-sul de Coari). Além daqueles, havia ainda os que auxiliavam aos brincantes e as agremiações pelos bastidores; os que não conseguiam acessar as arquibancadas; os que praticavam comércio de bebidas, alimentos e quitutes típicos à época de festa junina.  Apesar do Corre-Campo ter sido o grande vencedor daquele evento, conquistando uma inédita vitória sobre seu “contrário” e oponente, foi o bumbá mirim Raio de Prata que se destacaria ao campeonato. Obteria a primeira vitória sobre o Estrelinha com um placar final de 54 pontos de diferença.  Pelas escolas, as que abrigavam os brincantes e os bumbás, vivia-se o clima de grande animação cultural. A rivalidade entre alunos, professores e funcionários, tornava-se uma grande lição de tolerância social e cultural. O Colégio de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro acolhia a grande massa de pessoas, as envolvidas nas agremiações, mas nunca houve grandes registros de ofensas, embates, ou mesmo agressões, à forma de agir e pensar dos torcedores. Grandes quantidades de brincantes estudavam naquele colégio estudantil localizado no Centro Histórico de Coari-Am. Havia o bem comum entre todos, também o respeito, mesmo com o clima constante da rivalidade. Quando há o bem-comum, entre a coletividade, há paz. Ainda havia uma civilidade citadina entre o alunado que participava, diretamente, às apresentações dos bumbás. A exposição de alunos, e até de professores, que se tornavam brincantes nas quadras de apresentação, era grande. E, a prudência social entre todos, também. As cores: azul, vermelha, rosa e branco eram respeitadas. Eram as cores que os bumbás erguiam como bandeira e código cultural cromático. A simbologia de duas estrelas vermelhas (uma grande e outra pequena), um coração azul e um “raio negro”, estabelecia um sentido de identidade cultural entre os brincantes dos bairros rivais. O clima era de equilibrada cordialidade, apesar de toda aquela acirrada competitividade. A inventividade do folguedo e do bailado do “boi” nasceu com esse propósito, de unir comunitários em uma manifestação lúdica pela arte popular. Felícitas, pesquisadora e bailarina, criadora do primeiro Balé Folclórico do Brasil em 1940, apresenta em sua obra – “Danças do Brasil, Indígenas e Folclóricas” o conceito da manifestação lúdica Ao folguedo:

A dança assim como a música, é a mais poderosa linguagem universal. Já em épocas remotas, dançar era um sacerdócio, prática mística a fim de por o homem em contato com as forças da natureza ou Deus. A gênese cita que os hebreus tinham suas danças sagradas, os egípcios dançando ilustravam os movimentos do Zodíaco e dos astros girando em torno do sol que era representado no centro sobre um altar. O cristianismo cultivava a dança como manifestação exterior do seu culto em frente do altar, enquanto entoavam cantos e hinos, dançavam. Entre gregos e romanos, a dança começou a ser inspirada pelo espírito profano, atingindo a licenciosidade (...). O Bumba-meu-boi faz parte do corolário das festas juninas. É, das pantomimas burlescas, a mais interessante do folclore brasileiro. Suas várias modalidades são danças totêmicas. Simbolizam a morte e a ressurreição, numa sátira do negro contra a opressão do branco, a exemplo dos congos, cucubis, caboclinhos, cheganças e guerreiros.

 


Toada do Bumbá Estrelinha, de Coari-Am, de 1993

Sonhos de Criança

 


Vem meu boi, mostrar a esse povo

E contar como foi, teu sonho menino

Já vai começar, dormir e nos sonhos

Brincar de bumbá. (2X)

 

Vem meu bumbá Estrelinha

Em sonhos tu vais mergulhar.

Voas num mundo encantado,

Andas em qualquer lugar.

 

Num espaço de fantasias, um arco-íris no céu.

És astronauta de dia,

A noite se esconde em teus véus.

Matar a sede de ter e possuir devagar.

 

Vou sonhar, eu sou a “estrela”!

A essência do meu boi-bumbá!

Sou criança, eu posso tudo!

Nas florestas e matas rolar.

 

Curumins e cunhantãs

Sou caboclo, valores de um eterno sonhar

 

Boi Estrelinha é “rei”,

És touro valente,

Contrário é freguês.

Boi branco mais lindo,

Foi Deus quem te fez!

Boi Estrelinha és rei!

Sonhos de Criança

Na dança ou bailar

Sonhos de menino

 É brincar de bumbá!

 

 

 

 

 

Brincante mirim do boi-bumbá Estrelinha de Coari-Am, em 1999. A Porta-Estandarte. *acervo do auto






As pessoas que se vinculavam, a formar as comissões organizadoras, aos bumbás, eram de seguimentos profissionais e sociais variados. Havia em cada agremiação a presença de vários intelectuais da cidade, que simpatizavam e identificavam-se, cada qual, com seu bumbá preferido. Em grande parte, eram professores da rede estadual de ensino, os que mais se avolumavam, a doar forma às comissões de organização e produção, ao embate artístico-folclórico. Dentre aqueles grupos, havia também profissionais de vários seguimentos e variadas empresas da cidade (privadas e públicas). Todos tomavam partido da coisa a defender o bumbá da preferência. O acontecimento do evento era algo pluralizado e organizado. A sociedade se envolvia de modo caloroso. A organização maior viria pelas vias da Secretaria de Educação e Cultura do município. A segurança estava presente, mas apenas agia a aplacar qualquer ânimo, o dos mais exaltados torcedores (dos mais afoitos e passionais). Assim era Coari-Am nos anos noventa: toda alegre e toda contente com a evolução de seus bumbás “bizarros”. Tudo era politicamente e culturalmente correto. 

Brincantes do boi-bumbá Rei Garantido de Coari-Am, em 1987. Quadra do São José. Apesar das fantasias terem muito brilho na confecção, não se considerava o figurino como indumentária carnavalesca. *foto doada ao autor (por Lucilene Guimarães)






O XVIII Festival Folclórico de Coari-Am, de 1993, foi o apogeu, e também, o final daquele movimento cultural de rivalidade, a todos aqueles bumbás da cidade.









Portal alegórico do boi-bumbá Corre-Campo de Coari-Am, em 1993. Quadra de Esportes da Escola Estadual Dom Mário. *acervo do autor

Os artistas plásticos que produziam o belo e inusitado visual, aos bumbás, assinalavam apenas seu “primeiro-nome” em suas obras efêmeras. Pelo lado do boi-bumbá Corre-Campo havia os seguintes nomes: Adonias, Catola, Cesário, Edinho, Eliseu e Leôncio Mattos. Pelo Rei Garantido, quatro nomes se destacavam: , Jair, Socorro Barreto e Rubinho. O coreógrafo Nivaldo Xavier também foi destaque no Garantido. Tanto pelos bumbás adultos, quanto aos mirins, aqueles artistas atuavam com muito esmero. Mas havia ainda outros mais, que, se envolviam e revelavam-se natos produtores à arte cabocla. Apesar disso, atuavam apenas pelos bumbás mirins. Em 1993, ocorreu uma falsa notícia de que as indumentárias apresentadas pelo boi-bumbá Corre-Campo, ao Festival daquele ano, foram confeccionadas por artistas de fora da cidade. Essa notícia fez pairar sobre a agremiação do Rei Garantido uma insegurança quanto a seus figurinos. Por isso, durante a apresentação daquele na quadra, os torcedores, em tom de reivindicação da arte coariense, clamavam em coro, cada vez que os brincantes  adentrvam a quadra com sua indumetárias: "É de Coari, oba! É de Coari, oba! Algumas indemuntárias vieram prontas com os brincantes do Garanhão, mas não eram do Corre-Campo. Outros artístas populres se revelavam aos bumbás mirins, eram eles: Ademir Guimarães (o Mica - do Raio de Prata) e Adevã Nascimento (do Estrelinha). O autor atuou junto ao boi-bumbá mirim da periferia da cidade (o Raio de Prata) por quatro edições dos festivais folclóricos municipais. A inserção do mesmo, ao universo artístico dos bumbás de Coari-Am, deu-se ao ano de 1991. Foi um singelo convite da professora Maria Auxiliadora Alves Rodrigues (a Dôra), do corpo docente (naquela época) da Escola Estadual Tomé de Medeiros Raposo, e do apoio e confiança recebidos da parte das professoras: Maria Dorimar Granjeiro Pinto (fundadora do Raio de Prata) e Antônia Barreto. A juventude contente e, de bom humor, a dos anos noventa (século XX) da clássica Coari, conjugou uma época de “harmonia” e amizade, pelas vias daqueles eventos, produzidos aos movimentos artísticos de seus já extintos bumbás. O folclore, como manifestação da diversidade social, artística, popular e de identidade amazônico-regional, é sempre uma via dispersadora das mazelas e desventuras à região. Essa é apenas uma das muitas verdades culturais ao Estado do Amazonas.

E assim o futuro chegou, a se celebrar o clássico...



 


 

 


 





REFERENCIAL

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ALFAIA, Eros Divino Maia. Resgate de Memórias ao Município de Coari-Am. TCC, Curso de Pós Graduação - Metodologia do Ensino Superior (FSDB) 2004.

------------, Eros Divino Maia. Parintins, 1913 – Eu Sou Caprichoso. Obra não publicada. Fundação da Biblioteca Nacional. Registro ou Averbação: nº 584-942, livro 1.118, folha 243. Rio de Janeiro 2012.

------------, Eros Divino Maia. Acervo particular de entrevistas gravadas em mini K-7, ao ano de 2004 à produção do artigo empírico (Resgate à Memória do Município de Coari-Am), como TCC ao Curso de Metodologia de Ensino Superior à Faculdade Salesiana Dom Bosco – Manaus-Am. Entrevistados, em julho de 2004, no município de Coari-Am: Adolfina Menezes Monteiro, Ary Dantas Alfaia, dona Beta (do bairro de Chagas Aguiar), Elias Ferreira Neto (o seu Zizi), Fausto Gonçalves Monteiro, e Raimundo Martins de Souza.

ALMANAQUE, Santo Antônio / 2017. Editora Vozes. Organizado por Frei Edrian Josué Pasini, OFM. Setembro de 2016

AMAZONAS, Secretaria de Estado da Educação e Cultura. Núcleos de Recursos Tecnológicos. Série: Descobrindo Nosso Município – 08. Coari; Estudos Sociais, 3ª série – 1º Grau. Manaus, 1990

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ASSAYAG, Simão. Boi-Bumbá: Festas, Andanças, luz e Pajelanças / Simão Assayag. Rio de Janeiro: Funart, 1995.

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Eros Divino Maia Alfaia, nascido no município de Coari-Am a 05 de março de 1974. É graduado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM (Campus de Coari-Am), pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade Salesiana Dom Bosco, – FSDB - Manaus-Am. Professor, católico, cronísta-ensaísta e artista-plástico (de mente irrequieta). Estréia ao cenário literário regional com as obras: Boto Tucuxi, Retrospectiva a uma Trajetória de Inovações e, Maraã, Memórias no Jacitara. Caminha pela via da pesquisa ao resgate de memórias, tradições e do folclore (à rica cultura popular) do Estado do Amazonas.

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